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terça-feira, 30 de junho de 2009

FESTEJAR O NADA

Amanhã, é Dia da Região e das Comunidades Madeirenses. Um dia teoricamente festivo mas onde não há razões substantivas para contentamentos. Pelo contrário. Porém, a chama aos pés do símbolo da autonomia, por horas, estará flamejante, a fanfarra tocará, as forças armadas perfilarão, os aplausos vão ecoar e a “valsinha das medalhas” do Rui Veloso não tocará mas soará no ouvido de alguns: “(…) quem és tu donde vens, conta-nos lá os teus feitos, que eu nunca vi “região” assim, pequena e com tantos peitos”.
Comemora-se o nada, ou melhor, a normal anormalidade. Em tempos idos de má memória, lembram-se os menos jovens, também foi assim. Filas de gente que acreditavam no que viam e ouviam. Um dia tudo se esfumou. Estou certo, os de hoje, um dia dirão que nunca tiveram nada a ver com aquela gente! Adiante.
Amanhã, politicamente, deveria assemelhar-se a uma “quarta-feira de cinzas” enquanto momento de reflexão sobre o dever de mudança de vida. Mas não, será de louvor, de enaltecimento e estupidificação, de discursos laudatórios à obra edificada, majestosa mas inamovível, rica mas impenetrável, porque a outra, a grande obra de celebração do ser humano, enquanto projecto de cariz social, essa, não pode ser inaugurada e motivo de discurso, simplesmente porque não existe. A legião de pobres e de novos pobres, o dramatismo do desemprego, as dependências, a venda do corpo por necessidade, a micro-violência em aceleração, o zarpar para outros destinos porque a terra é madrasta, o estádio cultural, o fosso entre ricos e pobres, a incivilidade, enfim, essa montanha de obras prioritárias mas esquecidas por insensibilidade e razões múltiplas, não terão espaço para a respectiva contextualização no Dia da Região e das Comunidades.
Um manto de silêncios cúmplices abafarão a realidade política, económica, social e cultural porque importante é discursar sobre o supérfluo, o marginal, o inimigo externo, essa Lisboa sufocadora, a revisão constitucional e a obsessiva visão federalista a caminho da independência, como se tal fosse a mezinha para as verdadeiras doenças de que padece a organização política, económica e social. Na esteira de Shakespeare: “words, words, words, nothing but words”.
É por isso que impõem o silêncio, que apenas um partido tenha direito à palavra, para anunciar o evangelho do poder cristalizado, a cartilha do pensamento único vendida de concelho em concelho, o que significa que uma parte do Povo, no seu próprio Dia, não tenha direito a ser escutado nas suas reais angústias e padecimentos. É a Democracia no seu pior, transformada numa espécie de ignorância altifalante, uma Autonomia que esconde a sociedade desequilibrada que produziu e que apenas sabe festejar o betão à custa de um Povo resignado, distante de uma correcta leitura do sentido das prioridades e de um projecto colectivo aglutinador e dinamizador do corpo social.
Essa Autonomia, libertadora e responsável, pela qual tantos ao longo da História lutaram, acabou às mãos de novos, refinados e sofisticados senhorios que usam e abusam da menoridade do Povo, hoje vítima de uma escola com trinta anos que, pacientemente, o anestesiou, tornando-o incapaz de um grito de indignação. Tolera, aplaude e engole tudo e, portanto, quer lá saber o que diz o Tribunal de Contas, quem paga o quê e porquê, quem recebe e porque recebe! Essas não são contas do seu rosário. Só que, esse mesmo Povo também sentencia que “não há bem que sempre dure nem mal que ature” e daí, não me admirar que, sentindo-se traído, volte a descer à cidade, de foice ao ombro, não pela farinha, mas para dizer, tão-somente, BASTA!
Nota:
Artigo de opinião, da minha autoria, publicado na edição de hoje do DN-M. Posted by Picasa
Recebi, de uma Amiga que muito estimo e considero, este texto, a propósito do meu arrtigo de opinião:
"A nossa liberdade parece estar reduzida à escolha entre marcas e bugigangas. O pior aconteceu: a liberdade foi instrumentalizada. Até podemos eleger livremente os senhores, mas isso não suprime nem os senhores nem os escravos. Vivemos uma liberdade planeada. Porquê? Por quem? Ainda é cedo para apontarmos possibilidades. Mas sabemos que há uma indústria cultural cujo poder manipulador soluciona o conflito entre a impulsividade e a consciência. O seu objectivo é a adesão acrítica aos valores impostos".
Obrigado, Caríssima Professora.

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