terça-feira, 11 de maio de 2010

GUILÉJE DO TEMPO DOS GRINGOS

Há 37 anos que não me cruzava com velhos amigos com quem combati nas matas da Guiné. Do corpo de Alferes e Capitão, um já partiu, o amigo Alferes de Artilharia Pinto dos Santos. Um faltou à chamada e os restantes lá estiveram. No ano passado descobriram o meu contacto e este ano compareci ao convívio. Todos, de cabelo branco, uns gordíssimos, como se pode ver pela comparação das fotos. Gostei da confraternização e de termos trazido à memória aquele velho e preocupante aquartelamento de Guiléje. Ficava na fronteira com a Guiné/Conakry. Ali mesmo, a poucos quilómetros, o famoso corredor de Guiléje que alimentava as tropas "inimigas" no interior do então território nacional.
Guiléje ficava num morro. Como se pode ver na foto, a tabanca era pequena e dispunhamos de uma "pista" onde descia uma DO27, normalmente com o correio. De resto, uma mata densa, onde os abastecimentos se faziam quase de seis em seis meses, na época seca. Julgo que, quizenalmente, um avião deixava cair de paraquedas alguns frescos. De resto, uma vida de muita atenção, de saídas permanentes para o mato, de tensão face aos ataques dirigidos por Nino Vieira, o responsável operacional do PAIGC pela zona Sul.
Comandei um pelotão, todo ele de S. Miguel, Açores (muitos de Rabo-de-Peixe), de quem tenho saudades de muitos deles (foto). Homens bravos, com um grande sentido de entreajuda, trabalhadores e destemidos. Soube que muitos estão emigrados e, nos Açores, estarão quatro ou cinco. Neste convívio abracei o Carlos Silva, o Rocha e o Abílio Delgado (o Capitão), entre outros, homens fantásticos com quem revivemos alguns momentos difíceis entre outros de grande camaradagem.
Pertenci ao último pelotão que saiu de Guiléje, em 1973. Fomos substituídos por uma nova companhia. Poucos meses depois deu-se o cerco pelo PAIGC. Não houve outra alternativa senão fugir, pela calada da noite, pelo trilho da população. Tropas e população, cerca de 300 pessoas, saíram em direcção a Gadamael. Essa companhia viria a deixar no terreno 22/23 mortos, não estou certo, em função dos bombardeamentos. Guiléje foi, assim, a primeira povoação, verdadeiramente conquistada, portanto, a cair nas mãos do PAIGC. Senti a nostalgia dos bons momentos de convívio, mas também o coração apertado pelo tempo de algum sofrimento consubstanciado na guerra e na incerteza de regressar.
O tempo passou e, hoje, há camaradas meus que, de uma forma muito meritória, formaram uma associação que se dedica ao apoio às populações da Guiné e, sobretudo à reconstrução de Guiléje. Poucos madeirenses passaram por Guiléje.
Sequência das fotos (da esq. para a dir. e de cima para baixo): Guiléje com a "pista"; corpo de oficiais com um guia, junto a uma DO27; eu com o Régulo; o meu pelotão; tabanca; Carlos Silva, André e Abílio Delgado (Capitão), de pé; Carlos Silva e Rocha; outros membros da companhia; eu com o filho do Sátala Columbali (o mais experiente guia); eu aos 23 anos; tabanca; idem; idem com uma família; à porta do aquartelamento e uma DO27 (não é do meu tempo) que, segundo me disseram, terá sido abatida e ali colocada. (Clique sobre a foto para ampliar e, depois volte a clicar + sobre a foto que deseja ver em pormenor)

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