Adsense

quarta-feira, 23 de junho de 2010

AS CRIANÇAS ESTÃO EM VIAS DE EXTINÇÃO


É por isso necessária a tal "revolução" prática e de mentalidades, que acabe, por exemplo e desde logo, com essa mistificação da "Escola a Tempo Inteiro" e com esses "horários cruzados" que constituem boas respostas para problemas errados. As pessoas, governantes, sublinho, infelizmente, não sabem o que andam por aí a semear.


Ontem, no programa "Parlamento" da RTP-M, para o qual fui convidado a participar, a Jornalista Daniela Maria, iniciou o debate questionando-me sobre as razões que me levavam a defender uma "revolução" do sistema educativo regional. É evidente que se trata de uma questão profunda que nos levaria a uma longa conversa, já que a mesma arrasta consigo um leque vastíssimo de aspectos relacionados não só com a organização do sistema educativo, aos níveis regional autónomo e de estabelecimento de educação e ensino, mas também com a estrutura curricular e até programática.
Trata-se, repito, de uma questão muito complexa que a Jornalista percebendo as variáveis em jogo, tentou abordar mas que, os imperativos de limitação do tempo disponível do programa, não permitiu ir muito longe. Mas o assunto foi ali tocado e confesso que fiquei feliz por ter sido a questão inicial, o que significa que o debate desse lato conjunto de preocupações está a ficar sobre a mesa do debate. O ambiente começa a ser favorável a um despertar de consciências adormecidas por anos a fio de rotinas.
Entretanto, hoje, li uma muito interessante e oportuna entrevista com o Dr. Eduardo Sá, Psicólogo Clínico (Revista Focus). O título não poderia ser mais sugestivo: "As crianças estão em vias de extinção". A páginas tantas, sublinha Eduardo Sá: "(...) cada vez mais as crianças estão a passar por um conjunto de situações que não são muito razoáveis" (...) Cada vez mais as crianças não são crianças. As crianças têm hoje uma relação com o brincar que é cada vez mais uma relação de fim-de-semana e brincar é uma actividade muito séria para que seja feita apenas ao fim de semana. Passam cada vez mais horas na escola, o que não é adequado... aquilo que me preocupa é que mais escola, sobretudo como ela está a ser vivida, signifique menos infância e quanto menos infância mais nos arriscamos a construir pessoas magoadas com a vida. Quanto mais longa e mais rica for a infância mais saudável será a adultez (...) os pais estão muito enganados ao pensarem que mais escola significa mais educação (...) neste momento a infância começa a ser perigosamente a escola e de repente há toda uma vertente tecnocrática como se o que estivesse em primeiro lugar fosse toda a formação e depois viver a vida. Isto é um absurdo".
A revolução passa um pouco por aqui. Ao invés de pensarmos em caminhar no sentido de uma nova organização social que considere, por exemplo, os horários de trabalho e o tempo para a vida familiar, estamos a caminhar no sentido de entregar à escola a responsabilidade da educação que pertence, em primeiro lugar, à família. A escola está, paulatina e alegremente, a caminhar no sentido do "armazém de crianças" de que falava, recentemente, o Dr. Daniel Sampaio. Temos uma escola cheia de "coisas", isto é, de iniciativas, mas que não servem para nada, não acrescentam nada, apenas roubam o tempo para jogar (jogo num sentido lato) como falava Jean Chateau no notável livro A Criança e o Jogo: A criança mais disponível é a que mais joga.
É por isso necessária a tal "revolução" prática e de mentalidades, que acabe, por exemplo e desde logo, com essa mistificação da "Escola a Tempo Inteiro" e com esses "horários cruzados" que constituem boas respostas para problemas errados. As pessoas, governantes, sublinho, infelizmente, não sabem o que andam por aí a semear. Oiçam o Psicólogo e metam na cabeça, meus Senhores: "mais importância às crianças significa mais e melhores adultos" (...) os pais são os manuais mais importantes para as crianças e se os pais não perceberem isso estão a dar à escola a importância que ela não deve ter".
Ilustração: Google Imagnes.

Sem comentários: