terça-feira, 31 de agosto de 2010

CIDADES E LUGARES 683. BILBAO/ESPANHA

Bilbao. Museu Guggenheim. Posted by Picasa

PPP: PIRÓMANO POLÍTICO PROFISSIONAL


A "mediocratização" de que fala o presidente do governo corresponde à mediocratização do seu próprio governo.


Escreve o presidente do governo regional da Madeira na edição de hoje do JM:
"(...) Com o sistema educativo que hoje temos, com a «informação» controlada e distorcida que por aí é transmitida, com a legislação que leva à insegurança de pessoas e bens (...) com um Povo sujeito escolarmente à mediocratização, massificado e enganado pela informação (...) torna-se absolutamente ridículo ver perorar tanto sobre finanças (...)".
Ora bem, permitam-me o leitor que diga, aberta e frontalmente: mas que distinta lata escrever assim. Se não temos melhor sistema educativo, ele que está regionalizado há muitos anos, as culpas não podem ser sacudidas para outros, mas assumidas aqui por aqueles que não souberam desenhar um sistema que desse resposta à construção do futuro. Pela enésima vez digo que isso não tem nada a ver com a Constituição da República e muito pouco tem a ver com o Ministério da Educação. Embora, a Constituição, sublinho, possa e deva ser clarificada em alguns aspectos. Daqui se pode concluir que o governo da Madeira não procurou desenvolver um projecto consistente e de futuro porque apenas, e muitas vezes mal, limitou-se a adaptar a legislação nacional. Há, em todo este processo, três dezenas de anos de costas voltadas para este problema, o da Educação, três décadas de laxismo, de desnorte e de ausência de estratégia. O problema reside aí. O governo esteve mais preocupado com a construção dos edifícios escolares do que com aquilo que lá se faz ou produz no campo educativo. O governo esteve mais preocupado com as inaugurações do que com as políticas sociais e de família susceptíveis de garantirem uma melhor escola. A "mediocratização" de que fala o presidente do governo corresponde à mediocratização do seu próprio governo.
E vem falar de "informação controlada", quando se sabe, quando está aos olhos de todos, desde o Jornal da Madeira onde escreve sem possibilidades de ser confrontado, até às rádios locais, passando pelo serviço público de rádio e de televisão, onde é conhecida toda a sua influência que, aliás, está em sede de análise no Conselho de Administração, na Entidade Reguladora da Comunicação Social e no Conselho de Opinião da RTP, por público e notório domínio dos canais de informação.
Este presidente do governo regional e mentor de toda esta teia promíscua escreve como se nada fosse com ele. Como se nada nesta terra não tivesse que passar pelo seu crivo. Como não fosse ele o topo da hierarquia política de onde provém a orientação à qual todos se submetem. Como salientou hoje o presidente do PS-Madeira, este presidente do governo é um "pirómano político profissional". Incendeia, coloca-se à distância e mais tarde arma-se em vítima. Os outros é que não o entendem. Se já era, hoje, politicamente, está a tornar-se cada vez mais sufocante. O tempo implica um virar de página, em defesa da Madeira, do Porto Santo, enfim, de todos aqueles que ambicionam uma Região livre, democrática e expurgada de políticos e de políticas que a condicionam.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

FOGOS: PSD CHUMBOU UMA PROPOSTA DE AUDIÇÃO PARLAMENTAR (II)

FOGOS: PSD CHUMBOU UMA PROPOSTA DE AUDIÇÃO PARLAMENTAR (I)



Conferência de Imprensa do Dr. Bernardo Martins, Presidente da 5ª Comissão Especializada, a Comissão que tem a responsabilidade da "Protecção Civil".
O PSD chumbou e, pergunto, para que serve a Assembleia? Estará a cumprir os seus deveres que decorrem das normas regimentais? Então este não é um problema que deve ser analisado e estudado para que dali surjam, inclusive, recomendações no sentido de uma melhor intervenção do governo? Mas que raio de Democracia esta?

STOP À LOUCURA


Por este andar e negligenciando o conhecimento, levou com o 20 de Fevereiro, apanhou com os fogos e o Inverno vem a caminho!


Do presidente do governo regional não há memória de não ter espezinhado qualquer cidadão portador de uma opinião diferente. Não chama, não dialoga, não trata de saber o que se passa, não ouve a voz no plano científico, apenas trucida quem com ele e seus seguidores não alinha. Diz ou manda dizer. Sempre foi assim. Em alguns casos, começa por afirmar que fulano é conhecido pelas suas posições, logo depois, sublinha... que toda a gente sabe que fulano é um comunista, e, portanto, dir-se-á que gera a ideia, generaliza-a e acaba por esmagar quem quer atingir. Quem tem opinião diferente é logo apelidado, depreciativamente, de socialista, comunista ou, então, faz parte daqueles que estão ligados aos senhores da Madeira velha, aos exploradores! Só ele tem a opinião, o conhecimento, o rigor científico que provêm, naturalmente, de aturados e profundos estudos na universidade de verão do areal. Disse, ao JM:
"(...) o senhor Raimundo Quintal é uma figura desacreditada porque pretende saber de tudo desde engenharia, ribeiras, hidráulica, plantinhas e protecção civil. Esse senhor fala sobre tudo e confunde direitos de cidadania com o direito ao disparate. Não é pessoa com credibilidade que me mereça qualquer atenção. É uma pessoa instável, andou na extrema-esquerda, depois veio para a esquerda e depois aceitou um lugar de vereador pelo PSD, mas não com o meu voto na Comissão Política e quem estava lá lembra-se e depois na sua instabilidade acabou por abandonar a vereação em que se encontrava e continua uma espécie do "borda d'água", falando sobre tudo e prestou-se a entrar nesta campanha». Por isso, rematou o presidente do Governo, "o meu comentário dirigido a ele directamente é: pobre diabo». No entanto, disse Jardim, "pode-se ser um pobre diabo, o que é grave é ser mentiroso. Esse Raimundo Quintal diz na entrevista, ou então alguém forjou, que no dia em que faleceu uma senhora no comício do PSD que a festa tinha continuado o que é absolutamente mentira. Vejam o jaez ético deste cavalheiro». Mais contundente, o chefe do Executivo disse que está mesmo a pensar "em sugerir à Secretaria Regional dos Assuntos Sociais que elabore o plano do foro psicológico para a Região Autónoma da Madeira, a ver se a população deixa de aturar a consequência de haver vários ressabiados na nossa terra".
Ainda anteontem aqui escrevi um texto sobre a entrevista concedida por Raimundo Quintal, ao DN. Parecia que estava a adivinhar, quando estranhei o facto do geógrafo não querer participar em debates sobre esta matéria, no âmbito do convite feito à sociedade madeirense no quadro da designada "Plataforma Democrática". Quem domina a ciência, quem tem trabalho feito, quem investiu às suas custas, quem não depende seja lá de quem for, deveria expor-se, deveria participar, deveria continuar a denúncia, apenas no quadro de uma cidadania activa. Não se trata de estar ao lado, a favor ou seja o que for, deste ou daquele partido. Trata-se de trazer contributos, ajudar a defender um património que é de todos e não do presidente do governo. Critico-o, por isso, não pelo seu conhecimento. O Doutor Raimundo Quintal o que tem a fazer é passar ao lado destas vergonhosas declarações, perspectivadas no sentido não só de triturar o seu conhecimento como o de lançar o habitual aviso à navegação: todos quietinhos, ninguém que venha com histórias porque sabe o que lhes faço. É a mordaça a funcionar a todo o vapor. Por este andar e negligenciando o conhecimento, levou com o 20 de Fevereiro, apanhou com os fogos e o Inverno vem a caminho!
NOTA:
O Doutor Raimundo Quintal respondeu, esta manhã, no DN-Madeira, à letra e de uma forma exemplar:
"estou preocupado com alguns jardins da Madeira, especialmente com o Jardim Cardoso, infestado por "ervas-malcriadas , arbustos-bilhardeiros e árvores-das-bruxas".
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 29 de agosto de 2010

LEVEDURA E LEVIANDADE


Entre a levedura e a leviandade vai uma enorme distância. Penso que há muita leviandade em algumas coisas que se dizem por falta de tempo de levedura!


Sempre, coisa que não sei explicar, me coloquei em uma posição de não ter certezas. Mas, também é verdade que nunca andei à espera da última moda para fazer o fato novo. Se por aí agisse, certamente, não teria opinião formada e não actuaria, quando a vida se move em função do conhecimento existente e da actualização permanente dos conceitos. Gosto, portanto, de partir da realidade e da análise dos contextos, mas com uma atitude de prudente interrogação. Daí que aceite os posicionamentos dos outros, embora, sempre na esperança que ajudem a trazer algo mais ao que se discute. Não me agrada, confesso, quando descubro que sobressai a atitude de martelar por martelar, de escrever por escrever ao correr das convicções pessoais ou de grupo, do conhecimento empírico, portanto, não sustentadas em estudos.
Os anos que levo permitem-me, felizmente, continuar a sonhar, mas também deram-me a consistência de saber destrinçar o certo do errado. Não alinho em tudo o que leio, às vezes deixo ali em banho-maria, em uma espécie de tempo de levedura que me proporciona juntar elementos em falta, as tais correcções ou ajustamentos necessários, para que a ideia surja com outra consistência. Entre a levedura e a leviandade vai uma enorme distância. Penso que há muita leviandade em algumas coisas que se dizem por falta de tempo de levedura!
Tudo isto a propósito de Educação, do que tenho vindo a defender e dos contrapontos que surgiram. Dizia o grande educador e filósofo brasileiro Paulo Freire que "sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino". E deixou para reflexão de todos nós que "se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda" (...) porque a "Educação não transforma o mundo. A Educação muda pessoas e as pessoas transformam o mundo". Mas, para isso, sublinhava, o que para mim é muito importante, que "como professor não me é possível ajudar o educando a superar sua ignorância se não supero permanentemente a minha". O problema reside aqui, quando se governa ou se fala do que não se sabe, quando nos deixamos ir pelo senso comum, pela história pessoal, pelo que dá jeito e não pelo conhecimento. Como disse Freire e eu, humildemente, acompanho-o nesta sua postura, "não posso continuar humano se faço desaparecer em mim a esperança", porque "ela é a alavanca das mudanças sociais", até porque "aprender é um exercício constante de renovação" (…) "requer uma acção transformadora sobre a realidade", implica "uma busca constante, invenção e reinvenção".
É por aqui, por uma atitude de humildade e de reflexão, desde logo, quando se fala de uma intervenção precoce junto do aluno ou da permanência dos "chumbos"; da arquitectura dos espaços escolares e número de alunos por escola ou da escola transformada em armazém; de uma disciplina designada por Cultura Geral ou da ignorância altifalante; do dinheiro para o desporto profissional ou dos magros orçamentos para o sistema educativo; dos currículos, programas e autonomia dos estabelecimentos de educação e ensino ou do conhecimento e das competências adquiridas; dos professores a mais ou do sistema educativo a menos.
Será que o presidente do governo entende isto? Leu Paulo Freire, entre muitos outros, ou apenas e mal J. Keynes? Do Secretário da Educação as minhas dúvidas dissiparam-se há muito, embora acompanhe Paulo Freire: "ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos sabemos de alguma coisa e todos ignoramos alguma coisa, por isso aprendemos sempre". O drama é que parece que não querem aprender. Sobra-lhes em leviandade por ausência de levedura!
NOTA:
Opinião, da minha autoria, publicada na edição de hoje do DN-Madeira.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 28 de agosto de 2010

CIDADES E LUGARES 682. PICOS DA EUROPA/ESPANHA

Uma viagem às Astúrias e à Cantábria é bem mais do que uma imersão num inestimável património natural, representado, fundamentalmente, pela cordilheira dos Picos da Europa, pelo recém criado Parque Natural de Somiedo ou pela surpreendente linha litorânea que vai de Llanes a Luarca. O território revela-nos a cada passo uma história e uma cultura cheias de ditosos matizes. Oviedo, a capital, Gijón e Avilés formam uma espécie de triângulo dourado para o visitante. Cangas de Onís e Covadonga, portas de entrada do Parque Nacional de Covadonga distam uns trinta quilómetros do litoral, tal como Oviedo. Neste parque nacional podemos subir a 1600 metros e encontrarmos a natureza no seu estado de pureza, com encantadores lagos. Vale a pena uma visita. Posted by Picasa

CONTRA A CEGUEIRA, MARCHAR, MARCHAR...


"Anestesiado pelo obscurantismo, o povo vê o indestituível chefe das Angústias injuriar moinhos de vento acantonados em Lisboa, dispostos a destruir as ilhas. Quando a desgraça aperta a sério é que são elas: a incompetência do líder não vai além de pedir ao povo para rezar e ir à bruxa".


No mesmo dia que o Dr. Raimundo Quintal analisa, em entrevista, os problemas do seu sector, o Jornalista do DN, Luís Calisto, analisa de forma magistral o sistema. Pergunto: então alguém pode demitir-se de uma discussão muito séria em redor do drama com o qual estamos confrontamos em tantos sectores?
Aqui fica um excerto do seu notável e oportuno texto de opinião:

"(...) O irresponsável descaramento só vinga nas ilhotas graças ao estado emocional decrépito de um povo cansado de trinta e tantos anos de esperanças perdidas. Capitulação ante o obscurantismo feudal que o dono das Angústias foi rebuscar aos seus íntimos medievais para impor numa desgraçada terra que já padecera meio século de ditadura. O suserano déspota doa os feudos aos vassalos nobres que, no melhor entendimento com o clero e na velhaca exploração dos servos da gleba, agradecem ao dito suserano com vassalagem rastejante. Assim viceja o regime do delírio, aplaudido pelos caudatários do pato-bravismo à Madeira nova. A realidade virtual desenhada pelo dono da verdade. (...) O obscurantismo oficial conserva as consciências nas trevas da ignorância. Magister dixit, não se fala mais no assunto e quem falar desrespeita as vítimas. Respeitar as vítimas é como faz sua excelência: com mortos por enterrar e feridos graves no hospital, farra para baixo nas tascas do Areal. Entrevistas às 'Caras' deste inculto País, de um chefe refastelado na 'sua' casa de Verão do Porto Santo. Enquanto Roma arde, o imperador escreve crónicas da patuscada diária para o jornal que todos pagamos. Manda contar as presenças nos comícios dos outros partidos. Inaugura aterros e desaterros. Atribui o que chama de 'aproveitamento político porco' ao jornal que não se deixa intimidar pela sua bazófia atrabiliária ou pelos dizeres chocarreiros de uns quantos truões sem graça, assoldadados valentões de estrebaria que ululam no raio de audição do chefe, à cata das derradeiras migalhas do regime".
Ilustração: Google Imagens.

DENUNCIAR NÃO CHEGA...


Então, não têm sido as lutas da oposição, no Parlamento e fora dele, as denúncias feitas, as visitas aos locais e o trabalho político realizado que têm evitado que o descalabro seja maior? Podemos meter no mesmo saco um poder absoluto de 36 anos, que manietou a sociedade e os movimentos cívicos, com aqueles que deram a cara, não se refugiaram e lutaram contra as causas de tudo quanto está a acontecer?


Li, com interesse, a entrevista do Dr. Raimundo Quintal, publicada na edição de hoje do DN. Não é que traga pensamentos novos sobre as matérias abordadas pelos jornalistas, mas tem o condão de situar problemas com barbas e de reavivar memórias. O que é muito importante. Dir-se-á que já não são apenas os políticos no activo que levantam a sua voz. Há mais gente por aí que começa de dizer alto aquilo que vão sentindo. O problema é quando se afirma a necessidade de um novo paradigma e os jornalistas perguntam: "Defendeu, no último mail enviado aos membros da Associação, que era preciso as pessoas se unirem e participarem num novo paradigma. Ainda recentemente o PS falou numa plataforma que devia abarcar não só os partidos, mas outros movimentos cívicos. Estaria disponível?
A resposta: "Não estou disponível. Até porque julgo que o novo paradigma não se aplica só a quem tem governado, aplica-se também ao modo como a oposição tem funcionado. O novo paradigma pressupõe pensar uma Madeira para os nossos filhos e netos assente numa nova filosofia de desenvolvimento. O 'ter' tem sido o verbo mais conjugado por este poder e pela própria oposição. Porque a oposição quando vai para campanha é sempre dar, dar, dar e ter, ter, ter. A nova filosofia teria de ser muito mais centrada no ser, centrada não nos valores quantitativos, mas sim nos valores qualitativos. Julgo até que neste novo paradigma deveria ser analisada a possibilidade de, com a nova revisão constitucional, abrir-se caminho para o aparecimento de partidos regionais, que não tivessem que estar ligados por correias aos partidos nacionais. Isto é uma questão que se tem de discutir sem tabus. O pior que pode acontecer a um povo é enredar-se na bilhardice sem discussão".
Desde logo, Caro Raimundo, "o modo como a oposição tem funcionado"? Então, não têm sido as lutas da oposição, no Parlamento e fora dele, as denúncias feitas, as visitas aos locais e o trabalho político realizado que têm evitado que o descalabro seja maior? Podemos meter no mesmo saco um poder absoluto de 36 anos, que manietou a sociedade e os movimentos cívicos, com aqueles que deram a cara, não se refugiaram e lutaram contra as causas de tudo quanto está a acontecer? Não se pode, obviamente que não.
Depois, Caro Raimundo, a Revisão Constitucional, pergunto, para quê? Para que o PSD seja alternativo a si próprio, em função do descalabro a que levou a Região e que tão assertivamente é criticado nesta entrevista? Há aqui um evidente contrasenso, ou melhor, eu percebo a intenção, mas prefiro aproveitar a parte muito positiva desta entrevista.
Ora bem, ao concordar, em absoluto, porventura com a declaração mais profunda e mais feliz da entrevista, que "o problema da Madeira é um problema de formação" (...) porque "é muito mais fácil fazer estradas do que construir o edifício da educação", parece-me evidente que, sem vinculação partidária, seria óbvio que o Dr. Raimundo Quintal estivesse disponível para debater as grandes questões que se colocam, neste caso nos sectores e áreas que domina. Não estar disponível para o debate, enfim, respeito, mas deixa-me uma mágoa, pois corresponde ao comportamento (a)normal da sociedade. Todos, mas todos nós que amamos esta terra, e não me restam dúvidas que o Dr. Raimundo é um deles, deveríamos estar livres para a discussão séria, profunda, científica e sem rodeios. Não basta apontar os erros, já elencados por tantos, interessa, no momento que estamos a viver, de juntar a voz a outros, ouvir e educar um povo que para aí não está virado. É por isso que dou vinte valores a um outra declaração que li nesta entrevista: "um poder de tantos anos que já não tem criatividade e já não é capaz de apontar saídas". O problema residindo aí exige que as muitas competências técnicas e científicas que por aí andam deveriam se juntar para lutar por um futuro melhor.
Ilustração: Google Imagens.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A CULPA É D'ANATERESA!


Tudo é desvalorizado, criam fantasmas, semeiam a ideia da sabotagem, atiram responsabilidades para outros e tudo passa incólume. Pensam: o tempo apagará as manchas. Só há que ter paciência, capacidade para aguentar uma certa pressão inicial e pronto, tudo regressa à normalidade.


Dizia-me, há dias, uma senhora, a propósito da tragédia de 20 de Fevereiro: senhor, isto foi "anateresa". Pois, os fogos têm a responsabilidade da tal "anateresa", a queda da palmeira no Porto Santo foi por causa "d'anateresa", aqueles que morreram nos Socorridos, obviamente, que foi por causa "d'anateresa", os que num dia chuvoso e de nevoeiro perderam a vida nas serras em uma prova de acesso, julgo que a guardas florestais, claro que foi devido à "nateresa", a marina do Lugar de Baixo foi ao ar devido essa tal "anateresa", a canalização excessiva das ribeiras fizeram a água galgar e semear o pânico e a morte enfim, ela é, para alguns e para o governo, responsável por tudo, pelas mortes, pelos desastres ecológicos, pelos desastres económicos, por tudo. Reponsáveis políticos, onde estão eles? Não existem. Tudo é desvalorizado, através de fantasmas, da ideia da sabotagem, das responsabilidades atiradas para outros e tudo passa incólume. Pensam: o tempo apagará as manchas. Só há que ter paciência, capacidade para aguentar uma certa pressão inicial e pronto, tudo, em prazo curto, regressa à normalidade. A prova disso está na decisão do governo relativamente à ribeira que corre junto ao "Dolce Vita": cobriram-na, totalmente, mas ontem, o secretário do equipamento social veio dizer que ela tem de correr a céu aberto. E mais, que o edifício ali ao lado, o Minas Gerais, possivelmente, terá de ser expropriado, total ou parcialmente. Com o dinheiro de todos nós, claro. Tudo por causa "d'anateresa". Ninguém é responsável por nada, pelo licenciamento daquela obra, possivelmente sem adequados e sérios estudos e ninguém é responsável pela cobertura da ribeira. Vão gastar-se milhões para corrigir os erros e ninguém é responsabilizado, a não ser a malfadada "a'nateresa", tal como se pronuncia por aí adentro.
Só aqui, digo eu, ou em sistemas de controlo absoluto da informação. No caso da "palmeira", gostaria de ter visto, por exemplo, no "serviço público" um trabalho sério e profundo, um "especial informação", onde técnica e cientificamente, tudo fosse passado a limpo, através da audição das partes, mas não, o silêncio é total, basta um apontamento de reportagem e ponto final. Porque terá de prevalecer a ideia, se calhar, da sabotagem e não da incúria. Mortos, o que isso? Está sentenciado, há muito: "temos de conviver com o risco" e pronto. Não temos possibilidade de prender "anateresa".
A NATUREZA paga tudo. Mas sinto que os que se escondem por detrás "d'anateresa", estão a ficar a jeito. Com toda a lata como dela falam, está para breve o dia que se revoltará contra os que utizam o seu nome em vão!
Ilustração: Google Imagens.

NEM O PRESIDENTE AJUDA


Nem a brincar devem ser ditas, pelo efeito que elas podem produzir. É por isso que muitos chegam à escola e infernizam a vida dos professores e geram a indisciplina.


"Ensino os meus netos a serem malcriados, mas não muito pesadamente", disse para aí o Senhor Presidente do Governo Regional. Seja em que contexto for, seja ou não retirada do contexto, esta frase é inqualificável. Conjuga-se com outras, absolutamente disparatadas, que colocam em causa uma Educação séria, de rigor, de disciplina e de respeito. Nem a brincar devem ser ditas, pelo efeito que elas podem produzir. É por isso que muitos chegam à escola e infernizam a vida dos professores e geram a indisciplina. Repudio esta espécie de berlusconização da vida pública, onde alguns acham graça, aquilo que não tem. A um líder político exige-se cuidado na transmissão das palavras, pela referência social que devem assumir.
Quando a li exclamei: uma frase destas é pior que o chumbo do PSD à proposta de Regime Jurídico do Sistema Educativo, apresentado pelo grupo parlamentar do PS. Porque aí coloca-se, apenas, uma estrita visão política do problema. No caso em apreço, a frase arrasta consigo uma força perlocutória, isto é, ela é capaz de produzir efeitos em quem ouve. E esses efeitos, em uma população que precisa de exemplos e de ser conduzida de forma positiva, com actos de respeito, obviamente, repito, seja em que contexto for, é perniciosa e lamentável. Aquela frase, note-se, não foi dita por Herman José ou um humorista qualquer e, porventura, com um sentido irónico. Foi dita pelo Presidente do Governo o que pode explicar o sentimento que transporta do processo educativo.
Há ali qualquer coisa de educação espartana. Segundo o historiador H. Marrou, "a educação do cidadão espartano não é a de um cavalheiro, mas a de um soldado. Insere-se numa atmosfera "política". O objectivo era dar a cada indivíduo preparação física, coragem e hábitos de obediência total às leis da cidade de forma a torná-lo um soldado insuperável em bravura em que o indivíduo estivesse absorvido pelo cidadão". Por isso, diz-nos Monroe, pouco havia no seu ideal da "vida bela e feliz" dos atenienses. Faltavam aos espartanos os sentimentos mais delicados e a sensibilidade dos atenienses para a harmonia na conduta e especialmente para as amenidades da vida, ou para o seu aspecto cultural". Não sei se essa é a preocupação do presidente relativamente ao Povo da Madeira, isto é, a de "criar soldados prontos a devotarem a sua vida à pátria" (leia-se Madeira), sendo tudo o resto irrelevante. A obediência em primeiro lugar.
Exagero meu? Talvez não. Quando se passa em Câmara de Lobos por um jovem que tinha perdido o ano escolar e se diz, não te preocupes, eu também perdi três anos e sou Presidente, penso que está tudo dito. As palavras e as frases não são neutras. Elas transportam significados que não podemos ignorar.
A pergunta fica: como dar dar a volta a esta mentalidade?
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CABRAS-BOMBEIRO

Leio no Jornal de Negócios:
"150.000 cabras-bombeiro vão andar a pastar em Portugal e Espanha. O projecto, de 50 milhões de euros, visa prevenir os incêndios e deverá criar mais de 500 empregos".
Em tempos apoiei, sem reservas, a questão da retirada do gado das serras da Madeira. Agora, a notícia que os animais podem ser importantes nesta área e até podem gerar empregos.
Bom, isto merece uma explicação, por quem sabe, obviamente. Certo é que, recentemente, passei uns dias pela Cantábria e pelas Astúrias. Subi à serra, aos Picos da Europa (Covadonga) onde me deparei com maravilhosos lagos a 1600 metros de altitude e com centenas de cabras e vacas em pastoreio livre.
É evidente que os contextos geográficos são diferentes, mas só isso constituirá a explicação? Gostaria de ter resposta. Quem souber, por favor, entre e exponha. Trata-se de um assunto interessante.

UM PROBLEMA DE INCOMPETÊNCIA


Está em causa a qualidade das águas em Machico, Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta que são zonas balneares; está em causa a situação do Caniçal que é muito grave porque recebe esgotos da Zona Franca e Industrial; estão em causa os eventuais desequilíbrios nos ecossistemas e até a veracidade das análises químicas e, por extensão, as respectivas bandeiras azuis.

O PS-M equaciona hoje, nas páginas do DN (ler aqui) o problema das ETAR's (Estações de Tratamento de Águas Residuais. O que se está a passar merece uma profunda reflexão. O Grupo Parlamentar a que pertenço, durante várias semanas, tentou compreender o assunto. Diziam-nos que havia casos susceptiveis de serem considerados como atentado à saúde pública. E fomos ver e indagar.
Confrontámo-nos com uma situação deplorável, desde as que, pura e simplesmente, não funcionam e estão rodeadas de silvado, como é o caso da de Boaventura (ver foto do DN), àquelas que foram inauguradas e não funcionam por falta de ligação ao esgoto, até aquelas que funcionam com muitas limitações, enviando para o mar as águas residuais sem o adequado tratamento.
Há muito que se diga sobre esta matéria que terá de ser devidamente esclarecida em sede de audição parlamentar. Foram elencadas cerca de 40 perguntas que terão de ter resposta. Está em causa a qualidade das águas em Machico, Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta que são zonas balneares; está em causa a situação do Caniçal que é muito grave porque recebe esgotos da Zona Franca e Industrial; estão em causa os eventuais desequilíbrios nos ecossistemas e até a veracidade das análises químicas e, por extensão, as respectivas bandeiras azuis. Mais, ainda, pergunta-se, de que modo estão salvaguardados os resíduos perigosos (metais pesados, hidrocarbonetos, etc.) no que concerne à sua inventariação junto dos produtores, qual o destino final dos mesmos e se tais resíduos entram no circuito do saneamento. De que modo está salvaguardada a ausência de resíduos perigosos no circuito de saneamento. Se foi efectuada alguma inventariação de importadores, produtores, consumidores e em caso afirmativo, se são ou não alvo de fiscalização (acompanhamento). Há muito que explicar, obviamente que sim, desde o planeamento das ETAR's, aos encargos e aos contenciosos que existem com a União Europeia relativamente às estações do Funchal e de Câmara de Lobos.
Espero que o secretário regional que tem esta responsabilidade não fuja ao debate na Assembleia. Espero.

UM CERTO ESTRABISMO


A "Plataforma Democrática" constitui um acto de cultura, de liberdade e de respeito do Homem por si próprio. Um acto que, objectivamente, pretende dizer à sociedade, de lés-a-lés, dos pobres aos ricos, do sistema empresarial às instituições, sejam elas quais forem, de natureza social, cultural ou desportiva, que em defesa de todos nós madeirenses e porto-santenses, não podemos continuar com este jogo de cabra-cega que nos está a empurrar para o abismo fatal.


Mesmo que não queiram não conseguem disfarçar. A questão da "Plataforma Democrática" parece estar a incomodar mais o PSD que os restantes partidos da oposição. Enquanto que se assistiu a uma primeira reacção, absolutamente natural, por parte dos partidos da oposição, de uma alguma reserva, porventura por desconhecimento do conteúdo da proposta, sectores do PSD já estão aí, saltitando, parecendo incomodados, em uma efervescência que dá para retirar ilações. Falam de um "frentismo" quando não é nada disso que está em causa. E mesmo que constituísse uma "frente", desde logo assumida, do meu ponto de vista, ela seria bem vinda, em nome da Democracia, da Autonomia e da importante questão Social que afecta milhares.
Mas, para já, meus senhores, não é isso que se discute. Apear o PSD do poder é óbvio que sim, porque 36 anos de poder absoluto, de domínio de todos os sectores da sociedade, constitui um factor extremamente condicionador do próprio futuro da sociedade. Não se pode ignorar este aspecto. Mas, para já, o que em causa está, é colocarmo-nos de acordo em relação às questões de fundo e que são transversais à sociedade e a todos os partidos da oposição. Está em causa agitar consciências adormecidas por anos a fio de rotinas, de cada um para seu lado, de lutas individuais e inglórias, de colocar a sociedade a experimentar o novo, a sair da toca do medo, da crítica inconsequente, de um coma político induzido pela pressão, pela irracional gritaria do aparentemente mais forte. É isso que está em causa. Está em causa fazer acordar os milhares e milhares com direito a voto, que sofrem mas que não comparecem no dia das eleições.
A "Plataforma Democrática" constitui um acto de cultura, de liberdade e de respeito do Homem por si próprio. Um acto que, objectivamente, pretende dizer à sociedade, de lés-a-lés, dos pobres aos ricos, do sistema empresarial às instituições, sejam elas quais forem, de natureza social, cultural ou desportiva, que em defesa de todos nós madeirenses e porto-santenses, não podemos continuar com este jogo de cabra-cega que nos está a empurrar para o abismo fatal.
Ora, é disto que a maioria tem medo. Por isso, apavoradamente, fala do bicho papão "frentismo". Para esta maioria conservadora e interesseira tudo estaria bem se se mantivesse este estado comatoso. Estaria tudo bem que o partido A continuasse a reivindicar isto ou aquilo e o partido B, continuasse a denunciar os erros da governação. Todos, isoladamente, cada um na sua capela e, bastas vezes, esgrimindo-se nos argumentos. O PSD sempre quis isto, este estado morno e de subserviência que ajuda ao controlo da sociedade. O desafio que o PS coloca a toda a sociedade, não apenas aos partidos, é precisamente o da reflexão que espevite as consciências. Não estão em causa questões de natureza ideológica e de colocar todos dentro do mesmo saco político. Há que respeitar os caminhos programáticos que cada um entende como os melhores para conseguir as necessárias mudanças. Outra coisa é a convergência naquilo que estruturante de um pensamente estratégico de mudança.
O caminho é difícil, cheio de escolhos, há monumentais medos por aí espalhados, há gente bem colocada na estrutura governativa que comigo fala, entre outras pessoas que nada têm a ver com o PS, pessoas que abominam o que se está a passar. Criticam, com argumentos, a vergonha deste sistema. Mas têm medo, porque têm família e filhos. Basta olhar para as denúncias dos partidos e para as primeiras páginas do DN-Madeira para percebermos que este governo e esta maioria não tem futuro. A "Plataforma Democrática", em uma apreciação meramente pessoal, tem o significado de "Salvação Regional". É isto que está em causa, porque se alguém tem tido, desde sempre, uma atitude "frentista" contra a racionalidade, o bom senso, as boas propostas, contra a vida democrática, contra os pobres, contra os empresários e contra as empresas, tem sido, claramente, o governo da responsabilidade do PSD.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

SHERLOCK HOLMES... SE ELE DISSE!!!


Um presidente do governo quando se preocupa com os números de uma festa partidária, denuncia que tem muito pouco a fazer, ralado está com o Povo que o elegeu, porque determinado está, apenas, em criar as condições de manutenção do seu próprio poder. Preocupação que me parece doentia. Dir-se-á que já não governa, apenas se dedica a controlar o sistema.


Só três mil na Fonte do Bispo. "Os números são três mil porque foi contado por pessoas fidedignas e encarregadas mesmo dessa contagem, utilizando o mesmo método que se faz no Chão da Lagoa".
Ora bem, estas são palavras do Senhor Presidente do Governo, publicadas no jornal oficial, isto é, no Jornal da Madeira. Não o vi por lá, a não ser que estivesse disfarçado ao jeito de Sherlock Holmes. Mas aquela declaração, que só pode constituir a "gargalhada política da semana", apresenta outros interessantes contornos: por um lado, a parte ridícula dos números, pois bastaria contar os autocarros contratualizados, coisa que passou despercebida ao detective laranja; por outro, a preocupação política de desvalorização da festa, através das páginas de 15.000 exemplares distribuídos "à borla" (não se trata de um jornal gratuito) que acaba por transmitir, também, a ideia de receio que a mudança política esteja a chegar; finalmente, um presidente do governo quando se preocupa com os números de uma festa partidária, denuncia que tem muito pouco a fazer, ralado está com o Povo que o elegeu, porque determinado está, apenas, em criar as condições de manutenção do seu próprio poder. Preocupação que me parece doentia. Dir-se-á que já não governa, apenas se dedica a controlar o sistema. E o sistema, com procedimentos desta natureza, baixa ao nível de uma ridícula expressão numérica de uma festa popular. É como se o pároco de Ponta Delgada estivesse preocupado que, no seu arraial, teve mais gente que no de S. Pedro na Ribeira Brava. Ridículo. As pessoas e a mensagem política pouco interessam, fundamental é passar a ideia dos números e a respectiva desvalorização. Ridículo!
Aliás, o que tenho vindo a verificar é que o discurso do presidente do governo sobre a Madeira não vai além de rezas, mau olhado e declarações afins, o que demonstra falta de segurança e serenidade no caminho a seguir, em função das contrariedades. Estou em crer, até, que estes dias começam a ser muito complexos e dolorosos relativamente ao tabu da sua candidatura às eleições de 2011. A sua cabeça política deve andar feita num oito, como vulgarmente se diz. Sair por cima é uma coisa, sair por baixo e pelas portas dos fundos é outra. A decisão pode ter muito a ver com isso, quando não é previsível, em função do quadro político regional (desemprego, pobreza e dívidas) e nacional (limitações para cobrir os erros cometidos), qualquer golpe de asa que o mantenha em voo e com a tolerância dos eleitores. Simplesmente porque isto não vai com rezas nem com visitas à bruxa para uma cura de mau olhado. Vai com políticas sérias, profundas, políticas de ruptura, coisa que está mais do que vista, esgotaram-se no tempo, nada restando em armazém, nem para amostra.
Penso que os próximos tempos serão muito interessantes do ponto de vista político. Esta última sessão legislativa, não me restam dúvidas, será muito difícil e muito complexa. O PSD-M será pressionado como nunca pela oposição, o ambiente social não é favorável aos social-democratas pelo sentimento que já existe que estão no fim da linha, portanto, existe um quadro político, económico, financeiro e social potenciador da tese alternativa em detrimento da ideia do próximo ano constituir um passeio político. A historieta de 2007 não se repetirá. As pessoas já perceberam o jogo e as tropelias do mentor da teia. Tanto aflito anda que já mandou um aviso à navegação, recordo a exigência do governo junto das Câmaras Municipais, todas da sua cor política, para que façam obras, que cumpram o que prometeram, pois isso poderá constituir um meio para inaugurações, convívios e discursos apelativos ao voto. Este é mais um motivo muito claro de preocupação que testemunha, qual lapa, a busca de a tudo se agarrar para manter a liderança.
É muito difícil, eu sei. É difícil derrubar um poder tentacular, que joga com todas as armas políticas. Mas creio que é possível encontrar o caminho de uma mudança. Trinta e seis anos é tempo demais para um partido governar. Perde a inovação, perde na criatividade, criam raízes que se tornam podres (não apenas as raízes das palmeiras) e, por isso, a necessidade absoluta de gerar o novo, trazer para a vida política a esperança consubstanciada nas traves da Democracia, da Autonomia e da Solidariedade Social.
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

CIDADES E LUGARES 681. AVILÉS/ESPANHA

Avilés. Uma cidade no norte de Espanha (Cantábria) a visitar, face a alguns elementos do seu património. Posted by Picasa

PLATAFORMA DEMOCRÁTICA


Todos deveriam reflectir no que aconteceu em 2007, que fizeram ponto de honra atacar, em uníssono, o PS, a propósito da Lei das Finanças Regionais, e nas consequências dessa atitude. Todos perderam, todos foram vítimas daquela monumental mentira que foi a LFR. Todos acabaram por entregar de bandeja ao PSD mais quatro anos de governo.


O Presidente do PS-Madeira, Dr. Jacinto Serrão, tem vindo a apelar a uma "plataforma democrática", isto é, a um acordo de princípios entre todos os partidos da oposição, no pleno respeito pelos posicionamentos ideológicos de cada partido.
Apoio, sem reservas, esse entendimento. Considero-o fundamental, até porque, para uma situação de total anormalidade democrática e em uma terra que caminha ou já está no abismo, nos planos económico, financeiro, social e cultural, o bom senso faz apelo a essa convergência que salve a Madeira. Aliás, pelo que assisto na Assembleia, aquando dos debates sobre os diplomas que por ali passam, globalmente, a ideia com que fico é que são maiores os pontos de convergência relativamente às divergências. No fundo, trata-se de dar corpo a esse sentimento, envolvendo toda a sociedade, todas as forças políticas, para que todos possamos sair deste sufoco de 36 anos de regime absoluto. É isto que está em jogo, repito, no pleno respeito pelos posicionamentos ideológicos e até programáticos. Inventar outras coisas corresponderá a um insuportável ruído.
Acho estranho que não se compreenda isto, que subsista uma onda de algum egoísmo, como se o PS, mentor da iniciativa, até porque é o maior partido da oposição, não tivesse legitimidade para o fazer ou, então, queira retirar dividendos dessa convergência. Puro engano. Todos ganham com isso e mais, só a Madeira ficará a ganhar com uma atitude de bom senso. Todos deveriam reflectir no que aconteceu em 2007, que fizeram ponto de honra atacar, em uníssono, o PS, a propósito da Lei das Finanças Regionais, e nas consequências dessa atitude. Todos perderam, todos foram vítimas daquela monumental mentira que foi a LFR. Todos acabaram por entregar de bandeja ao PSD mais quatro anos de governo.
Pasmo quando ouço declarações que confundem a situação da Madeira com a do Continente, quando se quer arrastar para lá e para o Primeiro-Ministro uma luta política local, quando o debate político é aqui, os contextos são os daqui, as pessoas são as daqui, a sofisticada engrenagem está aqui e as políticas e os compadrios estão aqui. Como se esta terra não fosse Autónoma e não tivesse órgãos de governo próprio. Confundir as duas situações porque a sigla do partido proponente é a mesma, não me parece correcto. O que poderá acontecer, repito, é a entrega, de bandeja, com um naperon laranja, de bordado Madeira, a vitória eleitoral ao PSD. Àquele PSD que todos dizem combater e que todos dizem que, pelo futuro da Madeira, precisa de uma cura de oposição.
A leitura que faço é que, possivelmente, o problema não está a ser bem analisado. Precisa, naturalmente, de uma outra e mais ponderada reflexão. Precisa que o Presidente do PS-Madeira, explique, pessoalmente, partido a partido e a toda a sociedade, as suas grandes preocupações. Espero que todos convirjam, partidos e sociedade no seu conjunto, porque a Madeira e o seu futuro devem estar em primeiro lugar.
Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A TRAGÉDIA NO PORTO SANTO


Passar pela tragédia sem uma preocupação de estudo às suas causas ou atribuir às situações uma valorização de absoluta normalidade, parece-me próprio de gente inferior e oportunista.

Nota prévia:
Abomino quem da desgraça se aproveite, directa ou indirectamente, com pezinhos de lã ou de forma descarada. Metem-me dó. Quem por aí se mete demonstra ausência de princípios. Mas a tragédia, quando ela nos bate à porta, deve também ser motivo de reflexão, de busca das causas, de análise e de inevitáveis consequências. Passar pela tragédia sem uma preocupação de estudo às suas causas, ou atribuir às situações uma valorização de absoluta normalidade, parece-me próprio de gente inferior e oportunista. Quero com isto dizer, como nota prévia, que a tragédia ocorrida ontem no Porto Santo, tem, desde logo, a minha total solidariedade em relação às famílias, vítimas da situação, bem como ao partido que ali realizava um comício. Que isto fique claro para que não subsistam dúvidas.
Outra coisa é a responsabilidade política. Ouvi o Senhor Presidente da Câmara, em um primeiro momento, que a palmeira maldita tinha caído para o lado contrário para onde estava inclinadíssima. Declaração infeliz, mas enfim, o momento, sendo difícil e complexo, acabou, certamente, por induzi-lo em erro de análise. Mais tarde, em uma primeira peritagem, disse que as raízes estavam "podres" e que iria mandar analisar a situação das restantes. Depois, escutei as palavras da Vereadora Renata Sousa que afirmou que a tal e perigosa inclinação há muito que tinha sido objecto de chamada de atenção. O próprio DN já tinha, em Julho, salientado o perigo. No meio disto, ouço o presidente do governo regional pedir para rezar, para que este ano passe depressa face aos sucessivos acontecimentos, e que há que investigar o que se passou no Porto Santo por considerar estranho que, logo ali, no decorrer do comício, a palmeira tombasse. Para mim, este foi o primeiro sinal de atirar para longe as responsabilidades políticas.
Certo é que morreu uma pessoa, duas estão internadas em estado que inspira cuidados, a palmeira pertence ao "quintal" da autarquia, visível todos os dias, a Câmara foi avisada, tombou e ninguém assume a responsabilidade política. Lembro-me que, na Ponte Entre-os-Rios, o Dr. Jorge Coelho, então Ministro, demitiu-se porque sentiu o peso da responsabilidade política. Aqui, a vida continua, tudo é relativizado, quer se trate de uma palmeira que mate ou de uma construção nos Socorridos, construída em lugar de sério risco e que levou duas pessoas para a morgue. Tudo é normal, porque o "chefe" disse, não há muito tempo, que temos de conviver com o risco.
Não faço juízos criminais. Há entidades para o fazer. Tenho, apenas, um posicionamento político que implica respeito e responsabilidade no quadro das funções públicas, por eleição ou por nomeação. A questão, ao contrário do que alguém disse, não é de "mau olhado" sobre a Madeira, tampouco "imprevisível". A questão é outra, é de responsabilidade política quer se fale de 20 de Fevereiro, onde hoje se sabe que muito poderia ter sido atenuado, quer se fale de incêndios na floresta, ou quando o assunto é uma palmeira, com uma alta probabilidade de cair, e que mata uma pessoa.
Sinto muito pelas famílias atingidas, mas não aceito, enquanto cidadão, que não se retirem as ilacções políticas das desgraças que vão acontecendo. Numa empresa, quando o colaborador a desprestigia e não cumpre com as suas tarefas, obviamente, que sabe, tarde ou cedo, qual o seu destino. Na política deveria funcionar da mesma maneira. Para que todos possamos nela acreditar. Sublinho: falo de responsabilidade política.
Ilustração: Google Imagens e DN-Madeira (10.07.2010)

FESTA DA LIBERDADE (V)

O FACILITISMO DOS CHUMBOS



Veja-se a reacção: acabar com os chumbos é facilitismo, é passar de ano sem saber; quem não sabe, chumba! Este é o único plano B para a complexidade dos problemas de desmotivação, desinteresse, indiferença e aversão à escola, reflexo de graves problemas individuais e sociais...


Na edição de ontem do DN (aqui) li um notável artigo da Dr. Júlia Caré, ex-Deputada do PS-M na Assembleia da República. O título não podia ser mais sugestivo: "O Facilitismo dos Chumbos". E é notável sobretudo porque traz elementos estudados, oferece exemplos concretos e aponta caminhos. Não é uma opinião que procura a via mais fácil, pelo contrário, dirige-se para o âmago dos problemas e apresenta uma visão aberta, esclarecida e fundamentada. Sublinha a Drª Júlia Caré: "(...) Os alunos das nossas escolas não são já maioritariamente oriundos de classes médias lusas urbanas. Os socialmente inferiores subverteram a ordem estabelecida. Foram reabilitados pelo menos ao nível do discurso político, adquiriram a sua parcela de direitos universais, introduzindo comportamentos diferentes no espaço escolar, trazendo para dentro da escola as marcas da diferença cultural do seu viver dia-a-dia".
Eis, aqui, o princípio que deveria orientar uma nova visão do problema e que muitos tentam ignorar. Porque, diz a autora do texto, "o sempre foi assim" têm na organização institucional da escola, no seu nobre desígnio quixotesco. Veja-se a reacção: acabar com os chumbos é facilitismo, é passar de ano sem saber; quem não sabe, chumba! Este é o único plano B para a complexidade dos problemas de desmotivação, desinteresse, indiferença e aversão à escola, reflexo de graves problemas individuais e sociais, a comprometer as "metas de aprendizagem" que a governante (Ministra Drª Isabel Alçada) agora pretende introduzir".
Confesso que me senti reconfortado com este artigo, depois de ler alguns textos e declarações sem um mínimo de sentido, inclusive, por parte dos governantes. Quando encetei, há muitos anos, esta luta por uma escola para os tempos de hoje, segui as palavras de um meu antigo Mestre que disse em uma aula: "como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente". O problema reside aí, na rotina, na ausência de pensamento estratégico e político sobre os temas de relevante importância como é o caso concreto da Educação. A EDUCAÇÃO está a ser discutida ao nível de quem discute um Nacional-Benfica ou um Bate Borisov-Marítimo. A EDUCAÇÃO é muito mais complexa do que o presidente do Governo dizer que o Marquinhos ou qualquer outro estão a jogar menos bem, precisa que nos dispamos de preconceitos, das vivências porque passámos há 15, 20 e 30 anos nos bancos da escola, precisa da colaboração dos investigadores, dos académicos e que todos se sentem à mesa do diálogo para (re)construir um sistema que está completamente desajustado da realidade.
Eu que sempre entendi que "AS NOVAS OPORTUNIDADES" são VELHOS PROBLEMAS POR RESOLVER, gostei de ler um exemplo, apenas mais um porque existem milhares, trazido pela Drª Júlia Caré:
"(...) um exemplo de práticas organizativas e curriculares inovadoras, vindo de Inglaterra, implementado desde Setembro de 2007 numa escola para os 11 - 16 anos, uma "comprehensive school", situada numa área com sérios problemas sociais e baixas expectativas em educação, em que 40% da população escolar manifestam necessidades especiais não especificadas, incluída na lista das "failing schools", (escolas de insucesso). Adoptou-se currículos personalizados para cada aluno, a partir das suas aprendizagens já realizadas, devidamente acreditadas, com o suporte das novas tecnologias, oportunidades de e-learning, permitindo aos alunos escolherem as horas em que aprendem melhor. O trabalho organiza-se à volta dos conteúdos, destrezas, disciplinas e competências que alunos e pais, com a ajuda de professores, acham importantes. Criar horários individuais flexíveis e organizar os alunos, conciliando idades diferenciadas com as disciplinas escolhidas, não terá sido difícil. Na base, "strong collaborative community leadership and engagement", (forte liderança e empenho comunitário colaborativo) abertura à mudança e o envolvimento dos alunos em todo o processo".
Impossível? Para alguns certamente que sim, porque é mais fácil o sistema como está. Produz insucesso, mas paciência, alguns sobreviverão para manter a aparência. Trabalhar contra o insucesso... é muito duro!
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 22 de agosto de 2010

FESTA DA LIBERDADE (IV)


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FESTA DA LIBERDADE (III)

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FESTA DA LIBERDADE (II)

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FESTA DA LIBERDADE (I)

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MUITA AREIA PARA OS OLHOS


"políticos baratos" e "dois tontos" que andam por aí a denegrir aquela obra que o douto senhor da areia, e não só, considera um "investimento" para o desporto da Madeira.


Há dias, chamaram-me à atenção para o programa de desporto "Prolongamento" da RTP-Madeira. Decidi ouvir a gravação do mesmo. E a páginas tantas, um tal senhor Carlos, que julgo ser presidente do Marítimo, a propósito das obras que decorrem no Estádio dos Barreiros, despropositadamente, oiço-o a falar de "políticos baratos" e de "dois tontos" que andam por aí a denegrir aquela obra que o douto senhor da areia, e não só, considera um "investimento" para o desporto da Madeira. Desferiu aquelas palavras ao meu Amigo Emanuel Câmara que faz parte do painel residente daquele programa. Atacou-o, politicamente, é óbvio, porque ele é militante do PS. Bem esteve o moderador do programa que cortou o mal pela raiz. Embora o desporto constitua um sector de intervenção política, disse-lhe, frontalmente, que aquele não era o espaço apropriado para discutir a vertente política dos investimentos. E a conversa por ali ficou com mais uma ou outra troca de palavras pouco simpáticas.
Ora bem, a questão que se coloca é esta: o senhor Carlos tem todo o direito de defender o que quiser, de reafirmar pelos quatro cantos da Região que o novo estádio é um "investimento", tem todo o direito de pertencer ou de fazer a corte ao PSD, tem todo o direito de se agachar ou de rastejar aos desígnios do presidente do governo, tem todo o direito, entre os seus amigos, de vociferar sobre quem não gosta, apenas por terem uma posição diferente das prioridades da Madeira, não pode, isso não pode nem deve, é utilizar os microfones e as câmaras do serviço público de televisão para ofender quem é militante, simpatizante ou próximo de uma instituição política, seja ela qual for. Constitui uma atitude de baixo nível, antidemocrática e de muito mau gosto. Esquece-se o senhor Carlos que há muitos sócios do clube que não concordam com as loucuras que por aí se vão fazendo e que as suas palavras, com um claro peso partidário, ofendem aqueles que contribuem para que o senhor Carlos se mantenha na liderança do clube. Eu já levo 60 anos de sócio do Marítimo (26.06.1950) e discordo, completamente, por respeito aos valores que esta grande instituição sempre respeitou e deveria continuar a respeitar, que não se confundem nem se podem confundir com oportunismos seja lá de quem for. As prioridades do Senhor Carlos não são, por exemplo, as minhas e, pelo que sinto, não são as prioridades da maioria do Povo da Madeira. As prioridades do senhor Carlos e de outros que por aí andam, confinam-se a viajar de avião particular para a Biolorussia, com o Secretário da Educação, que desta forma carimbou, com o dinheiro de todos, a falsa prioridade do desporto da Madeira, ao mesmo tempo que manda dizer que não tem folga orçamental para outras modalidades desportivas que sobrevivem no meio dos calotes.
Escrevo este texto com as palavras e o sentido que não gosto de transmitir quando escrevo. Mas tudo tem um limite, embora saiba que é nesta terra que vivo.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 21 de agosto de 2010

CIDADES E LUGARES 680. COVADONGA/ESPANHA


Santuário de Covadonga. Templo iniciado em 1877 e terminado em 1901. Situa-se nos Picos da Europa (Astúrias). Local de peregrinação. Toda a zona merece uma prolongada visita. Nas próximas fotos tentarei mostrar não só o Santuário, como a Cueva Santa e os Picos da Europa. Posted by Picasa

UMA CIDADE QUE PERDE IDENTIDADE, MORRE!


Infelizmente, a nossa Cidade está em sucessiva degradação! Desde logo os seus três núcleos históricos, Santa Maria, Sé e S. Pedro, que, ao longo dos últimos anos, sofreram intervenções, muitas intervenções claramente abusivas, que desrespeitaram o princípio sagrado da preservação, daquilo que marcou uma época, daquilo que é genuíno e identificador, custasse o que custasse e doesse a quem doesse. Porque isso, para além de constituir um acto de cultura, vende.


Cada vez mais as pessoas deslocam-se para ver aquilo que é diferente. O igual vende pouco. Ver cimento e os materiais utilizados, mesmo que a arquitectura seja de qualidade, pouco atrai. Falo por mim e por muitas pessoas com quem dialogo e convivo. Isto para dizer que uma cidade como a do Funchal, com quinhentos anos de História para contar, obviamente que deveria ser apelativa pela preservação da sua traça e pelo rigor das intervenções nos seus núcleos históricos. Aliás, não sendo um destino de massas nem de praia, priviligiando a qualidade em detrimento da quantidade, dizem, e mesmo que assim não fosse, parece-me óbvio que a cidade vender-se-ia mais pelo lado da História e das suas peculiaridades do que pelo moderno, por vezes, até, de mau gosto. É o que vejo e sinto nas minhas "aventuras" anuais, quando, em duas semanas, através de um apertado programa que elaboro, percorro quatro a cinco mil quilómetros, ao volante de um carro, para ver cidades de grande, média e pequena dimensão. Até, localidades com interesse. Ainda, recentemente, tive essa experiência. Passei por Santander, no Norte de Espanha, e saí, rapidamente. Estive pouco mais de duas horas. Não descobri qualquer interesse para além da sua catedral medieval e de um outro apontamento interessante. Apenas interessante. Andei mais trinta quilómetros e visitei uma localidade, Santillana del Mar, que constitui uma preciosidade histórica, de preservação da sua identidade, cheia de vida turística e comercial. É evidente que não se trata de uma cidade que esmague, não é Praga, não é Dresden, não é Roma, não é Bruges, não é Moscovo e por aí fora. Cada cidade tem a sua dimensão e transporta o peso da sua História. O que quero dizer é que, mesmo com uma limitada dimensão, uma cidade não pode e não deve ser descaracterizada dos seus elementos fundamentais.
Infelizmente, a nossa Cidade está em sucessiva degradação! Desde logo os seus três núcleos históricos, Santa Maria, Sé e S. Pedro, que, ao longo dos últimos anos, sofreram intervenções, muitas intervenções claramente abusivas, que desrespeitaram o princípio sagrado da preservação, daquilo que marcou uma época, daquilo que é genuíno e identificador, custasse o que custasse e doesse a quem doesse. Porque isso, para além de constituir um acto de cultura, vende.
O núcleo de Santa Maria é, indiscutivelmente, o pior exemplo. Um núcleo que deveria ser tratado com pinças, com amor, com a inteligência que os homens e mulheres da cultura madeirense poderiam e deveriam dar. Aliás, em menos de vinte anos, desapareceram, ali e em outros espaços, muitos símbolos da nossa História, do nosso património histórico-cultural, por negligência, por falta de rigor e por ausência de classificação. Construiram uma cidade, igual às outras, que não vende e que não se torna apetecível. Hoje, no dia de mais um aniversário, apesar dos esfuziantes discursos, é convicção minha que perderam o controlo e andam atrás do prejuízo.
A cidade, há uns anos a esta parte, parece-me dividida em coutadas, onde se jogam os grandes interesses imobiliários e onde a disputa é ao centímetro. O produto final é este: uma cidade a velocidades diferentes em consequência do desordenamento e do crescimento insustentável. A prova mais evidente e arrepiante está em quase todo o corredor da Estrada Monumental, com particular destaque a partir do nó do Lido até à zona do Clube Naval. A apetência construtiva, a falta de senso, de equilíbrio e de pulso político é evidente na ausência do ordenamento do espaço e na falta de coragem para dizer NÃO. Fizeram daquela zona nobre um espaço horroroso para quem aqui vive, muito mais para quem visita. Até as aberturas para o mar, essas linhas de vista absolutamente necessárias, quase desapareceram. O Arquitecto Rafael Botelho, o que projectou o primeiro PDM do Funchal, nos finais dos anos 60, deve andar horrorizado. E neste aspecto ouvi, aqui há uns anos, o presidente do governo dizer que havia que sacrificar uma zona para o turismo e que aquela tinha sido a zona escolhida. Esta a declaração mais fiel da mentalidade existente. Como se não fosse possível compaginar o crescimento com o espaço disponível tornando-o agradável.
Gostaria que a Cidade, para além dos acontecimentos de 20 de Fevereiro ou dos recentes fogos florestais, tivesse motivos bastantes para comemorar. Em minha opinião, não tem. Há monumentais erros com consequências futuras por determinar. Criaram hortas urbanas (!!!) mas esqueceram-se que esta é uma cidade Atlântica, Europeia e Turística. Andam para aí a brincar ao programa "Civitas", um programa pressupostamente destinado a gerar novos hábitos de mobilidade dos cidadãos, mas esquecem-se que o problema não se resolve apenas por aí, mas com políticas integradas de tráfego e de estacionamento, que têm muito que se lhe diga, em função dos movimentos pendulares e horizontais, das ciclovias na baixa citadina e dos park & ride. Apresentam um Festival Jazz (excelente, valha a verdade) mas esquecem-se que esta cidade, a partir das 19 horas, é uma cidade morta. Falam da cidade cosmopolita, abaixo da Cota 40, certamente, mas esquecem-se da ausência de planeamento, ordenamento do espaço e dos equipamentos nas zonas altas da cidade. Falam de património natural, mas esqueceram-se da prevenção e vigilância nos picos estatísticos mais propícios a incêndios. Falam da beleza do anfiteatro, mas querem destruir o que de mais belo tem o Funchal, toda aquela zona de praia e arriba que se estende do Toco até ao Garajau. Falam dos acessos ao mar, mas querem vender a retalho uma grande parte da Praia Formosa, o único espaço que deveria constituir a grande zona de lazer da cidade. Falam de um Funchal "bonito", por fora, mas esquecem-se que ele está apodrecido, por dentro, pelas suas graves assimetrias sociais, económicas e culturais. Falam de uma cidade, "a primeira construída fora do espaço europeu", mas esquecem-se que não são dados passos para a valorização patrimonial que a identifique como tal.
Mas, hoje, os discursos serão empolgantes, do tipo, fizemos isto e aquilo, e se mais não fizemos foi porque o Estado, sempre o Estado, não quis que andássemos à velocidade que desejaríamos. Boicotaram-nos, dirão. Como se a Autonomia e 36 anos de governo autárquico monocolor não contassem para o momento da avaliação. Uma vez mais, omitirão, até porque a oposição não pode abrir a boca na cerimónia solene, os erros, os mea culpa pelo desastre urbanístico e pela ausência de soluções. Um manto de silêncios abafarão os erros estratégicos.
NOTA:
O Funchal em Pessoa
Escreve o Jornalista Luís Calisto na edição de hoje do DN:
"Quando Virgílio Pereira, na renhida campanha eleitoral de 1993 contra o socialista André Escórcio, usou o lema "Funchal de alto a baixo", presumivelmente queria exprimir um propósito de harmonização do crescimento urbano. Mas os tubarões do cimentismo tomaram a palavra à letra e escaqueiraram a capital. De cima a baixo e dos Socorridos à Cancela. Resultado, 17 anos depois: um sufoco de construção na terra e no mar, praias-fantasma, trânsito enervante, desordem urbanística que dói".

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A VIA DO CONHECIMENTO


Não alinho em tudo o que leio, às vezes deixo ali em banho-maria, em uma espécie de tempo de levedura que me proporciona juntar os elementos que faltam, as tais correcções ou ajustamentos necessários, para que a ideia surja com maior consistência. Entre a levedura e a leviandade vai uma enorme distância. Penso que há muita leviandade em algumas coisas que se dizem por falta de tempo de levedura!


Sempre, mas desde sempre, coisa que não sei explicar, me coloquei em uma posição de não ter certezas. Mas, também, é verdade que nunca andei à espera da última moda para fazer um fato novo. Se por aí pensasse e agisse, certamente que não teria opinião formada e não actuaria, quando a vida se move em função do conhecimento existente, em função da actualização permanente dos conceitos. Gosto de partir da realidade e da análise dos contextos mas sempre com uma atitude de interrogação. Não sei se esta será a melhor atitude, mas é a minha. Considero-a prudente. Daí que aceite os posicionamentos dos outros, embora sempre na esperança que ajudem a trazer algo mais ao que se vai discutindo. Não me agrada, confesso, quando descubro que existe ou sobressai mais a atitude de martelar por martelar, de escrever por escrever ao correr das convicções ou pessoais ou de grupo, do conhecimento empírico, portanto, não sustentadas em estudos.
Os anos que levo permitem-me, felizmente, continuar a sonhar, mas também deram-me a consistência de saber destrinçar o certo do errado. Não alinho em tudo o que leio, às vezes deixo ali em banho-maria, em uma espécie de tempo de levedura que me proporciona juntar os elementos que faltam, as tais correcções ou ajustamentos necessários, para que a ideia surja com maior consistência. Entre a levedura e a leviandade vai uma enorme distância. Penso que há muita leviandade em algumas coisas que se dizem por falta de tempo de levedura!
Dizia o grande educador e filósofo brasileiro Paulo Freire (1921/1997) que "sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino". E deixou para reflexão de todos nós que "se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda" (...) "Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas e as pessoas transformam o mundo". Mas, para isso, sublinhava o Filósofo que "como professor não me é possível ajudar o educando a superar sua ignorância se não supero permanentemente a minha". O problema reside aqui, quando se fala do que não se sabe, quando nos deixamos ir pelo senso comum e não pelo conhecimento. Como disse Freire e eu, humildemente, acompanho-o nesta sua postura, "não posso continuar humano se faço desaparecer em mim a esperança", porque a "a educação modela as almas e recria os corações. Ela é a alavanca das mudanças sociais", até porque "aprender não é um acto findo. Aprender é um exercício constante de renovação", daí que "teoria sem a prática é puro verbalismo inoperante, a prática sem a teoria é um atavismo cego".
É por aqui, defendo eu, que devemos seguir, pelo "conhecimento que exige uma presença curiosa do sujeito em face do mundo. Requer uma acção transformadora sobre a realidade. Uma demanda, uma busca constante, implica invenção e reinvenção". É por aqui, por uma atitude de humildade, de reflexão permanente sobre o que se vai produzindo, quando se fala de uma intervenção precoce junto do aluno ou dos "chumbos", quando se fala do número de alunos por escola ou do número de alunos por sala, quando se fala de uma disciplina nuclear designada por Cultura Geral ou da arquitectura dos espaços escolares, quando se fala de currículos e programas ou da autonomia dos estabelecimentos de educação e ensino, quando se fala de dinheiro para o desporto profissional ou de magros orçamentos para o sistema educativo, quando se fala de professores a mais ou de sistema educativo a menos, quando se fala de conhecimento e de competências ou da ignorância altifalante.
E termino esta breve reflexão do muito que gostaria de escrever com uma nova alusão a Paulo Freire: "ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa, por isso aprendemos sempre" e "ai de nós, educadores e educadoras, se deixarmos de sonhar sonhos possíveis". É a morte do sistema, digo eu.
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

PELA BOCA MORRE O PEIXE


Mas, independentemente, desta recorrente história em que o presidente do governo hoje diz uma coisa e amanhã outra, sempre em função do local, do momento e do que as plateias querem ouvir, a questão que se coloca é a de saber o que entende o presidente por "avaliação de desempenho". Entenderá, por exemplo, que a expressão é sinónima de "classificação de desempenho"?

Afirmou o Senhor Presidente do Governo Regional, com um ar convincente: “está absolutamente errado todas aquelas actualizações profissionais que se fazem apenas baseadas no tempo de serviço e que se baseiam apenas em antiguidade”. Porque, sublinhou, “podemos ter duas pessoas com o mesmo tempo de serviço. Uma ter sido um produtor emérito e outra passou uma vida inteira a tentar fazer o mínimo possível”. Exacto. Há anos que isso defendo: o profissionalismo, o rigor, a disciplina, a qualidade e a excelência. Qualquer pessoa sensata diria o mesmo. O problema é que foi a mesma figura que, sem os professores pedirem, atribuiu-lhes uma avaliação de desempenho positiva, isto é, um “bom” administrativo, durante três anos consecutivos, que se tornou em um amargo bombom, e disse mais, que os professores não precisavam de ser avaliados, mas sim os alunos. Um “bom” que acabou por não valer para nada, atrasou os direitos de progressão na carreira dos professores durante três longos anos, havendo hoje centenas que, desejando a avaliação, seja ela qual for, não progridem há cinco.
Que a classe docente acorde e esteja atenta ao paleio de circunstância que por aí vai acontecendo, não se deixando ir na lengalenga que vão cantarolando aos ouvidos.
Mas, independentemente, desta recorrente história em que o presidente do governo hoje diz uma coisa e amanhã outra, sempre em função do local, do momento e do que as plateias querem ouvir, a questão que se coloca é a de saber o que entende o presidente por "avaliação de desempenho". Entenderá, por exemplo, que a expressão é sinónima de "classificação de desempenho"? Ou tem elementos e um conceito diferente e actual no quadro de uma "CULTURA DE DESEMPENHO"? E saberá, o ainda presidente, o que é que significa e em que assenta uma cultura de desempenho? No seu conceito, bastará rotular, subjectivamente, em função dos bons ou maus humores de uma qualquer chefia ou ligação partidária, porque não, ou a designada cultura de desempenho assenta em outros contornos que não são passíveis de serem quantificados, embora o contributo seja relevante para a organização?
Ora, o que deduzo do que li, para além das incoerências discursivas, é que não tem uma ideia sobre esta matéria. Ele não tem, tampouco, no caso dos docentes, tem o Secretário da Educação e Cultura, a avaliar por aquilo que há meses se está a passar com os educadores e professores que trabalham na Região Autónoma da Madeira.
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A CULPA É SEMPRE DOS OUTROS


O Secretário do Ambiente e dos Recursos Naturais veio célere dizer, aqui estão uns milhões, a "fundo perdido" (repetido duas vezes) para os que perderam culturas, etc. etc., como se os milhões apregoados resolvessem e abafassem a dimensão dos erros cometidos. Peguem lá e calem-se, foi a leitura que fiz. Se isto é governar, bom...

Leio na edição do DN de hoje: "Governo expropriou a 49 cêntimos por m2 e adquiriu terrenos florestais nos montados de Santo António e São Roque. O incêndio chegou primeiro que o pagamento". Esta é a síntese que caracteriza a política ambiental. Também aqui, para o governo, a culpa é sempre dos outros, quando, à lupa, está cheio de telhados de vidro.
Por seu turno, o Doutor Hélder Spínola, dirigente da Quercus, salienta o Diário, não conhece qualquer intervenção na zona do "tampão verde", desde que o projecto teve início, há nove anos. "Sendo algo que o governo chamou a si, é inconcebível que não tenha sido feito nada, bem ou mal, e que a acção se tenha resumido simplesmente a delimitar no mapa a área do tampão verde, sem uma reposição do coberto vegetal autóctone, sem gestão florestal para reduzir a carga de biomassa para assim evitar a propagação de incêndios com grandes proporções, nem vigilância para detectar focos de incêndio de modo a que possa ser atacado de imediato". Ora, tudo isto não foi dito pela oposição política, pelos tais que querem a desgraça, segundo o presidente do governo, mas por um personalidade credível, experiente, independente e que representa uma respeitável instituição de defesa do ambiente. Mas, certamente, será atacada pelos seus posicionamentos nesta matéria. Ao fim e ao cabo, por maior que seja a paciência de uma pessoa, a questão é esta: mas que raio de gente nos governa? Ou será que se governam?
A tragédia de 20 de Fevereiro que bem poderia ter sido ATENUADA, não, a culpa foi toda, mas toda, da pluviosidade excessiva. Ninguém foi responsável pelos edifícios construídos em zonas de risco, ninguém foi responsável pela excessiva canalização das ribeiras, ninguém teve responsabilidades pelos pequenos cursos de água que foram entubados, enfim, a chuva excessiva é que se tornou relevante. E repetiu-se isso até à exaustão. O que poderia ter sido ATENUADO, não foi, por incúria, mas o discurso político passou. Agora, os incêndios, e novamente ninguém tem responsabilidade política. Os postos de vigilância e a atitude preventiva, enfim, isso é conversa. O que sobressaiu foi a existência de uma série de malandros que pegaram fogo ao nosso património florestal. A edição de hoje do Diário explica um pouco o outro lado da tragédia.
Uma vez mais, aquilo que poderia ter sido ATENUADO acabou por se tranformar na segunda tragédia do ano. E ninguém terá, novamente, responsabilidades políticas. O Secretário do Ambiente e dos Recursos Naturais veio célere dizer, aqui estão uns milhões, a "fundo perdido" (repetido duas vezes) para os que perderam culturas, etc. etc., como se os milhões apregoados resolvessem e abafassem a dimensão dos erros políticos cometidos. Peguem lá e calem-se, foi a leitura que fiz. Se isto é governar, bom... fico por aqui!
Ilustração: Google Imagens.