terça-feira, 29 de novembro de 2011

NECESSIDADES ESPECIAIS E OUTRAS NECESSIDADES


O problema é que no mesmo dia que o secretário da Educação fala de educação inclusiva, foi divulgado que a Madeira apresenta as piores taxas nacionais de retenção e desistência no Ensino Básico (11,8%) e de 19,4% no Secundário. Coisa que há muito se sabia e há muito que assumido no discurso político da oposição. Pergunto: por onde andará a tal "igualdade no acesso e no sucesso" de que fala o governo? Ora, significa este paradoxo que, 35 anos depois, com um governo regional autónomo, com políticas próprias e centenas de políticos e de funcionários ao serviço da Educação, com tantas direcções regionais, directores de serviço, chefes de divisão e técnicos que infernizam a vida dos professores, o sistema continua a não produzir resultados aceitáveis.


O paradoxo aí está. Por um lado, o secretário da Educação e dos Recursos Humanos, qual repetida ladainha anual, na apresentação da "semana regional da pessoa com necessidades especiais", veio dizer que a educação como princípio de igualdade no acesso e sucesso é uma das principais apostas do governo regional. E sublinhou: "Quando nos encontramos face a pessoas com diferença é absolutamente fundamental um tratamento diferenciado dessas pessoas para que precisamente se possa concretizar esse princípio da igualdade e do direito ao sucesso e ao acesso à educação". Vou por partes.
Desde logo, a questão de uma Educação inclusiva não constitui uma aposta do governo regional. Trata-se sim, de um pressuposto básica de todo o mundo civilizado e de qualquer sistema educativo. Basta  ter presente toda a investigação e literatura do sector educativo e, no mínimo, ler a "Declaração de Salamanca" assinada em 1994. Não se trata de uma aposta deste ou daquele governo, de natureza circunstancial, mas de um dever dos países de irem ao encontro das diferenças e necessidades, esbatendo-as no plano dos direitos das pessoas. Ainda mais. O conceito de necessidades especiais não se limita (e não pode limitar-se) aos portadores de deficiência notória ou diagnosticada. Esse é um conceito redutor. Uma política educativa séria e apostada no tal acesso que corresponda a sucesso, terá de considerar outras diferenças, predominantemente as de natureza social. A igualdade de oportunidades começa aí, numa escola pública, universal e de qualidade. São tão graves os problemas dos portadores de deficiência notória e/ou diagnosticada (é vasto o leque das necessidades especiais) como o são todos os outros que derivam dos desequilíbrios da organização social. 
O problema é que no mesmo dia que o secretário da Educação fala de educação inclusiva, paradoxalmente, foi divulgado que a Madeira apresenta as piores taxas nacionais de retenção e desistência no Ensino Básico (11,8%) e de 19,4% no Secundário. Coisa que há muito se sabia e há muito que assumido no discurso político da oposição. Pergunto: por onde andará a tal "igualdade no acesso e no sucesso" de que fala o governo? Ora, significa este paradoxo que, 35 anos depois, com um governo regional autónomo, com políticas próprias e centenas de políticos e de funcionários ao serviço da Educação, com tantas direcções regionais, directores de serviço, chefes de divisão e técnicos que infernizam a vida dos professores, o sistema continua a não produzir resultados aceitáveis. O sistema não passa de palavras de circunstância, de apresentações rotineiras e de sessões que nada acrescentam. Lamento, porque quem permanece nas lógicas anteriores, obviamente que não poderá esperar outros resultados futuros que não os anteriores. 
Ilustração: Google Imagens.

14 comentários:

Fernando Vouga disse...

« [...]uma Educação inclusiva não constitui uma aposta do governo regional. Trata-se sim, de um pressuposto básica de todo o mundo civilizado [...]»

Caro André Escórcio

Se eu não o conhecesse (a si), não acreditava que era madeirense. É que aqui, há mais de trinta anos, só se louva o normal. Porque, como se sabe, a regra é fazer asneira...

João André Escórcio disse...

Bem visto!

Paulo Camacho disse...

Essa da retenção é falaciosa. Ou passa tudo, sabendo ou não, ou passa quem sabe. A primeira opção é a dos socialista. A segunda de outros. Resultados, obviamente diferentes quando se avalia resultados.
Já viu se não havia mínimos de acesso aos Jogos Olímpicos? E que todos lá iam? Certamente que hoje, o Prof. Vicente Franco também teria nadadores olímpicos. Não era assim, não é assim e não podia ser assim.
Tanto nos jogos como na escola. Tem que haver diferenciação entre quem trabalha e quem não o faz. Quem apresenta resultados e quem não chega lá. Passar toda a gente e apresentar níveis de sucesso superiores? A Madeira entendeu que assim, não se vai a lado nenhum.

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário.
Torna-se necessário estudar muito para formar uma opinião sobre o que é a Escola e como é que ela deve estar organizada para que todos tenham acesso e sucesso. Sendo certo que, por razões múltiplas, económicas, financeiras, sociais e culturais, uns possam atingir resultados com maior facilidade do que outros. A Escola é que não pode ser limitadora, antes deverá criar condições para que a maioria atinja os patamares do sucesso. E aqui é que se torna necessário dominar muitas áreas para perceber os domínios e tarefasa implementar susceptíveis de conduzirem ao tal sucesso.
O "Senhor Camacho" escolhe o caminho do insucesso (quem não sabe chumba) e eu escolho o caminho do sucesso (criação de condições para que possam lá chegar). E se quer partidarizar esta questão (eu não partidarizo) então dir-lhe-ia que foi da forma que eu penso que muitos países são hoje referência para Portugal.

Camacho disse...

Conversa sua.
Para si, todos devem passar.
Para outros, só os que sabem e conseguem atingir determinados objectivos.
E sim, deve haver condições para que o máximo atinja esses objectivos.
Mas esse fim, do sucesso, não deve ser assegurado à partida. Se não, garanto-lhe, ninguém trabalhará e aproveitará essas condições. Daí que não me revejo na opção socialista de passarem todos. Com esses pontos de partida diferentes, cada região terá resultados dispares ao se compararem taxas.

João André Escórcio disse...

Ora bem, está a falar de coisas que, presumo, não estudou. E se estudou, enumere, por favor, os livros e respectivos autores.
Independentemente disso, não está em causa passarem todos. Isso é falso, não tem sentido. Mas o que está completamente errado é que assuma que "esse fim, do sucesso, não deve ser assegurado à partida". Isto significa, se bem deduzo, é que quem nasceu pobre, que tem dificuldades diversas, não pode aspirar ao sucesso! "Senhor Camacho" que estranha forma de ver a vida e sobretudo o ser humano que não pediu para nascer.

Senhor Camacho disse...

Pode aspirar ao sucesso. E deve aspirar. Mas mais que aspirar, precisa que lhe sejam dadas condições para trabalhar e atingir esse sucesso. E não garantir, à partida, que esse sucesso é garantido.
Quanto aos livros e autores, deixo-lhe essa tarefa. Considero que não é necessário referir teóricos do eduquês para construir uma opinião ou uma posição.
De certeza que encontramos um que defenda isto. Pois os há para defender tudo e o seu contrário.

João André Escórcio disse...

Ok, Senhor Camacho, finalmente, acabou por dizer o que eu, porventura, não consegui explicar-lhe: "Pode aspirar ao sucesso. E deve aspirar. Mas mais que aspirar, precisa que lhe sejam dadas condições para trabalhar e atingir esse sucesso".
O problema, agora, é saber como é que lá se chega. Eu, humildemente, estudei como lá chegar. Espero que o Senhor saiba.

Camacho disse...

Pois. É isso mesmo. Mesmo com condições, alguns não chegam lá. Mas até a esses, os socialistas carimbam a pauta. Claro que, assim, quem não quer não se esforçará nada. Pois o resultado final é sempre o mesmo. Passou.

João André Escórcio disse...

Ao senhor Camacho... liberte-se dessa historieta "dos socialistas". Pense, por si. Imagine que era uma pessoa pobre, com muitas dificuldades e imagine que tinha um filho com algumas ou muitas limitações. Diga-me lá se o seu filho não tinha direito, na escola pública, a uma educação que visasse o seu sucesso? Não se trata de passar por passar, aumentando a ignorância, mas passar com todos os apoios garantidos para suprir as dificuldades.
Aliás, o senhor que parece defender o sistema regional, afinal, com tanta exigência, pense um pouco e justifique as razões que levam a que a Madeira tenha a pior taxa nacional de retenções e de abandono? E que razões justificam os nossos alunos see encontrarem em posições desastrosas nos "ranking's nacionais dos exames do 9º e 12º anos?
Eu sei quais as razões e sei também como poderíamos sair deste círculo vicioso que condena para o futuro a nossa sociedade.

Camacho disse...

Saberá mesmo?
Veja lá a diferença entre ter todas as condições para atingir o sucesso e atingir o sucesso.
O que dizem os socialistas (não me liberto mesmo) é que todos passam. Com objectivos atingidos ou não.
Quanto às posições desastrosas, você cai demasiado em cima dos seus colegas. O sistema educativo e os curriculos são os mesmos. É por isso e por outras que se chega aos 11%.

João André Escórcio disse...

Sei, Senhor Camacho. Sei o que vem nos livros. Sei o que dizem muitos e insuspeitos autores, reconhecidos em todo o mundo. Sei porque visitei escolas de grande qualidade e de sucesso. Sei, também, porque não me deixo enlear em teorias vãs, mas em conhecimentos sustentáveis e perfeitamente adaptados à nossa realidade social. Mas, Senhor Camacho, também é verdade que sei pouco do muito que deveria saber.
A Educação é um mundo em que as múltiplas variáveis se entrecruzam de forma determinante.
Só mais dois aspectos: eu nunca "caí" em cima dos meus colegas. Pelo contrário, luto por eles a todo o momento. Eu "caio" em cima do sistema que, grosso modo, se mantém com as características da "Sociedade Industrial", quando nós já distamos largas décadas.
Um professor de Psicopedagogia, disse-me, numa aula em 1969: "Como pode uma escola sempre igual competir com a vida que é sempre diferente? O problema está aí e, por isso, não se trata de ser socialista ou qualquer outra coisa. Trata-se de saber que caminhos procuramos para atingirmos o sucesso.
Ah, os 11%... claro, Senhor Camacho, quando, entre outras coisas, a ignorância é significativa, poderia o senhor esperar outro resultado? Considera razoável o PCP perder um deputado, o BE sair do Parlamento e verificar-se a entrada, com todo o respeito, do Partido dos Animais?

Camacho disse...

Exacto. Como quer que todos sejam iguais, quando todos são diferentes.
Desde 1969 percebeu isso, mas nada mudou. Nem todos os caminhos conduzem ao sucesso. Mesmo que queiramos que isso aconteça. O pior é quando o sucesso não signifique objectivos atingidos. Aí, todos terão sucesso e nada de objectivos. Ou então, mudam-se (aligeiram-se) objectivos para tudo acertar na ilusão do sucesso.
Socialismo não obrigado.
Já em 1969 um professor dizia. Como pode uma ideologia defender que todos podem ser iguais e atingir os mesmos objectivos? Não podem, mesmo! Sem prejuízo, reforço, que se façam esforços de dar recursos para que isso seja possível. Mas daí a todos terem sucesso? Ilusões socialistas. Já em 1969 um professor dizia que não podemos tratar todos como iguais.

João André Escórcio disse...

Desculpar-me-á a franqueza, mas chego à conclusão que não percebeu ou não quer perceber. E quando assim é, quando o partido e a ideologia cristalizada não permitem o diálogo sério, não me levará a mal que coloque um ponto final neste debate.
Gostaria que fosse frutuoso, até porque não sou portador de qualquer verdade absoluta, mas assim torna-se impossível.
Ponto final, com os meus cumprimentos de que passe bem.