sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

JUSTIÇA E CARIDADE


Prolifera na sociedade a atitude da caridadezinha, que envergonha e denuncia, claramente, a ausência de justiça na organização social e na distribuição da riqueza. Caridadezinha que não resolve o problema central da pobreza, quanto muito pode aliviar consciências políticas. A justiça, essa sim, conduz os poderes instituídos a organizarem a sociedade em uma perspectiva de trabalho, de ganha pão, de liberdade, de autonomia, de crescimento e sustentabilidade das famílias. Quando os eleitos falham, por incapacidade e egoísmo, obviamente que sobressaem as atitudes de caridade. Vivemos, portanto, numa sociedade onde há mais direitos que justiça.


Esta manhã, pelas 06 horas, participei na Missa do Parto, na igreja de S. Roque. A mais próxima relativamente à minha residência. Igreja cheia e com um ambiente contagiante. Excelente. Gostei e apreciei o agradável convívio pós celebração, nesta manhã fria na zona alta do Funchal. Os cantares, a aguardente de cana, o café, as broas e a conversa com as pessoas foi estimulante. Mas o que mais me prendeu foi a homilia do Senhor Padre José Luís Rodrigues. Falou como gosto de escutar, aproveitando para reflectir à medida que as palavras se soltam. Detesto homílias descontextualizadas da realidade, homilías que repetem, por outras palavras, o narrado das Escrituras. Aprecio quem me faz reflectir. Gosto, quando a Palavra é motivo para uma contextualização na vida de todos e da comunidade que somos. Foi isso que, uma vez mais, ali aconteceu, a partir das Leituras Proféticas sobre a JUSTIÇA e a CARIDADE. Eu diria que, preto no branco, com toda a energia que brota do interior daquele apóstolo de Cristo, com uma enorme força ilocutória, falou da Justiça que precisamos e da negação da Caridade que temos. Assumiu, em palavras simples, directas e sem desnecessários trololós: Deus não quer a caridade, quer a justiça entre os homens.
E é verdade, esta atitude que prolifera na sociedade, a atitude da caridadezinha, que envergonha e denuncia, claramente, a ausência de justiça na organização social e na distribuição da riqueza. Caridadezinha que não resolve o problema central da pobreza, quanto muito pode aliviar consciências políticas. A justiça, essa sim, conduz os poderes instituídos a organizarem a sociedade em uma perspectiva de trabalho, de ganha pão, de liberdade, de autonomia, de crescimento e sustentabilidade das famílias. Quando os eleitos falham, por incapacidade e egoísmo, obviamente que sobressaem as atitudes de caridade. Vivemos, portanto, numa sociedade onde há mais direitos que justiça. E porque assim é, emerge a caridade, crescem como cogumelas as instituições de solidariedade social para esbaterem a fome e todas as necessidades básicas das famílias.
É evidente que todos, naturalmente, saudamos a existência dessas instituições, porque constituem portas para esbaterem a fome e o abrigo dos necessitados, por ausência de justiça. Mas não podemos esquecer que o problema não se resolve por aí, até porque é penoso e sofredor para todos quantos sentem a necessidade de lá baterem. O problema resolve-se com justiça, com políticos apostados na organização social, nos mecanismos económicos geradores de riqueza susceptíveis de garantirem uma distribuição do pão a que todos têm direito. Viver na e da caridade envergonha a sociedade, envergonha os políticos e permite manter um círculo vicioso de pobreza absolutamente condenável.
É evidente que teremos sempre de contar com uma ou outra instituição, porque existem sempre margens muito complexas. Porém, o que denuncia a fragilidade do esfarrapado tecido social é a existência de seis dezenas de instituições de caridade em 54 freguesias da Madeira. Isso denuncia, repito, a existência de uma sociedade doente e de políticos que não cumprem o dever da JUSTIÇA.
Parabéns Padre José Luís Rodrigues pelo brilhantismo e clarividência das palavras. Assim se contrói um Mundo diferente, agindo localmente com um pensamento global.
Ilustração: Google Imagens.

1 comentário:

António Trancoso disse...

Meu Caro Amigo
A HIPOCRISIA sempre se socorreu da CARIDADEZINHA como VÁLVULA de SEGURANÇA das Convulsões Sociais.