sábado, 17 de dezembro de 2011

"NÃO SE ASSUSTEM"


O navio, no meio do atlântico, está claramente a afundar-se, é varrido por ondas gigantes, os passageiros estão no convés, as baleeiras não conseguem descer, não há coletes de salvação para todos, os tripulantes não sabem o que fazer, a ponte de comando não consegue pedir socorro e o "arraz" pega no megafone e diz: "não se assustem". Não assume uma solução, não indica o caminho de uma possível salvação, não disciplina o caos, não fala a verdade e apenas pede serenidade! Foi das declarações menos ofensivas e, no entanto, mais gravosas que escutei nos últimos tempos.


Basta. Isto está a chegar a um ponto de desaforo manifestamente intolerável. As medidas de austeridade do PSD/CDS ao nível nacional constituem, em determinados aspectos, um claro roubo e rombo na carteira dos portugueses, às quais acrescem as medidas que serão, brevemente, impostas aos que aqui vivem em função do descalabro das finanças públicas regionais. E perante este quadro muito complexo para as empresas e para as famílias, vem o presidente do governo dizer à população para não se assustar, embora o que vem aí não seja "coisa muito folgada". Coisa muito folgada? Ora, este senhor ou está a brincar com os madeirenses e porto-santenses, ou, então continua na senda de querer iludir-se e a iludir uma população inteira. Por isso, digo basta de desnorte, de loucura, de mentira, de hipocrisia e de aldrabice política. Por outro lado, é falso, constitui uma grosseira mentira deixar ontem sair boca fora "que a Madeira fez todo este percurso sempre sozinha". Mentira imperdoável de um homem que governa há trinta e três anos. Então as transferências do Orçamento de Estado? Então os significativos montantes comparticipados pela União Europeia? Então os 110 milhões de contos pagos pelo governo do Engº António Guterres para saltar uma grande parte da dívida acumulada? Então a Lei de Meios que serviu para tanta coisa? Então as centenas de protocolos e de benefícios fiscais? Por isso e muito mais, repito, basta de enganar as pessoas com declarações que falseiam a verdade, deturpam a realidade, que vão ao encontro da vitimização e que, intencionalmente, colocam a léguas as responsabilidades de quem teve responsabilidades governativas.
Mas se a austeridade incomoda qualquer pessoa que siga este filme regional, mais grave é vir dizer para não se assustarem. O navio, no meio do atlântico, está claramente a afundar-se, é varrido por ondas gigantes, os passageiros estão no convés, as baleeiras não conseguem descer, não há coletes de salvação para todos, os tripulantes não sabem o que fazer, a ponte de comando não consegue pedir socorro e o "arraz" pega no megafone e diz: "não se assustem". Não assume uma solução, não indica o caminho de uma possível salvação, não disciplina o caos, não fala a verdade e apenas pede serenidade! Foi das declarações menos ofensivas e, no entanto, mais gravosas que escutei nos últimos tempos. Simplesmente porque o problema é muito grave e que aqui tenho vindo a comentar: o desemprego, o desespero dos empresários, a incapacidade financeira para pagar a tempo e horas, a baixa no turismo, os 58.000 da população com gravíssimas lacunas na formação, os baixos salários, a retirada dos subsídios de Natal e de férias, entre outros, o IMI, o IRS, o IRC,  o subsídio de insularidade, tudo vai à vida e o presidente diz para ninguém se assustar. Revoltante, a lata e o desprezo pelo povo que se compaginam, apenas, na lógica de que o poder sou eu. Saberá o presidente o que é estar desempregado, já vestiu a pele do pobre, de uma classe média espezinhada, das famílias que batem à porta de outros para poderem dar o mínimo às crianças, já esteve alguma vez na posição de empresário que quer manter os postos de trabalho e não pode, porque quem governa não paga, já alguma vez andou pelos corredores da segurança social a ouvir os dramas das pessoas?
E o que mais me espanta são aquelas figuras que o acompanham, subservientes, que, cheios de medo juntam os calcanhares e curvam a coluna ao ponto do nariz tocar os joelhos. Estou convencido que já nem é por uma questão de coerência política, de acreditarem no caminho, mas porque são escravos dos seus interesses e porque, lá pensarão, se tudo isto se desmoronar, terão de ir pregar para outra freguesia. O que é difícil face aos seus passados no espaço político.
Àquela foto publicada na edição de hoje do DN (página 11), no decorrer da inauguração do jardim do Amparo, só falta uma mesa e um baralho de cartas. Deixem a governação e entretenham-se com outros divertimentos, porque tudo tem o seu tempo e os senhores(a) já tiveram o seu!
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Já conhecemos muito bem a criatura. Que outra coisa seria de esperar?
"Prà" frente sempre...

Pica-Miolos II disse...

Meu fiel povo: "prà" frente sempre...até o trambolhão na Vala Comum.
(Moral da estória: os mortos não alinham em convulsões sociais.)