sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O FANTASMA DE PARIS


(…) José Sócrates começou a governar em 2004, recebendo um país com um défice de 6,2%, após dois governos PSD/CDS, numa altura em que não havia crise alguma nem problema algum na economia e nos mercados. Para mascarar um défice inexplicável, os ministros da Finanças desses governos, Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, foram pioneiros na descoberta de truques de engenharia orçamental para encobrir a verdadeira dimensão das coisas: despesas para o ano seguinte e receitas antecipadas, e nacionalização de fundos de pensões particulares, como agora. 
Em 2008, quando terminou o seu primeiro mandato e se reapresentou a eleições, o governo de José Sócrates tinha baixado o défice para 2,8%, sendo o primeiro em muitos anos a cumprir as regras da moeda única.


O consenso em roda da política orçamental prosseguida e do desempenho do ministro Teixeira dos Santos era tal que as únicas propostas e discordâncias, de direita e de esquerda, consistiam sistematicamente em propor mais despesa pública. E quando se chegou às eleições, o défice nem foi tema de campanha, substituído pelo da “ameaça às liberdades” (…)
Logo depois, rebentou a crise do subprime nos Estados Unidos e Sócrates e todos os primeiro-ministros da Europa receberam de Bruxelas ordens exactamente opostas às que dá agora a srª Merkel: era preciso e urgente acorrer à banca, retomar em força o investimento público e pôr fim à contenção de despesa, sob pena de se arrastar toda a União para uma recessão pior do que a de 1929. E assim ele fez, como fizeram todos os outros, até que, menos dum ano decorrido, os mercados e as agências se lembraram de questionar subitamente a capacidade de endividamento dos países: assim nasceu a crise das dívidas soberanas. Porém não me lembro de alguém ter questionado, nesse ano de 2009, a política despesista que Sócrates adoptou a conselho de Bruxelas. Pelo contrário, quando Teixeira dos Santos (…) começou a avançar com PEC, todo o país – partidário, autárquico, empresarial, corporativo e civil – se levantou, indignado, a protestar contra os “sacrifícios” e a suave subida de impostos. Passos Coelho quase chorou, a pedir desculpa aos portugueses por viabilizar o PEC 3 que subia as taxas máximas de IRS de 45 para 46,5% (que saudades!) (…) O erro de Sócrates foi exactamente o de não ter tido a coragem de governar contra o facilitismo geral (não concordo. Sócrates combateu privilégios instalados, como nenhum outro primeiro-ministro o fez, nem de perto nem de longe. Daí o ódio que lhe tinham, veja-se o caso dos professores, associação de farmácias, magistrados, etc., etc. - para além do mais, teve contra si uma oposição estrategicamente unida, uma maioria relativa, e uma forte oposição interna – Seguro à direita e Alegre à esquerda. Se o governo não caísse com o chumbo do Pec. 4, cairia seguramente com uma moção de censura) e a antiquíssima maldição de permitir que tudo em Portugal gire à volta do Estado (…). Quando ele, na senda dos seus antecessores desde Cavaco Silva (que foi o pai do sistema) se lançou na política de grandes empreitadas e obras públicas (…) o que me lembro de ter visto, então, foi toda a gente (…) explicar veementemente que não se podia parar com o “investimento público”, e vi todas as corporações do país (…) baterem-se com unhas e dentes e apoiados pelos partidos de direita e de esquerda contra qualquer tentativa de reforma que pusesse em causa os seus privilégios sustentados pelos dinheiros públicos. O erro de Sócrates foi ter desistido e cedido a essa unanimidade de interesses instalados, que confunde o crescimento económico com a habitual tratação entre o Estado e os seus protegidos. Mas ainda me lembro de um Governo presidido por Santana Lopes apresentar um projecto de TGV que propunha não uma linha Lisboa-Madrid, mas cinco linhas, incluindo a fantástica ligação Faro-Huelva em alta velocidade. E o país, embasbacado, a aplaudir!
(Depois de vendido o património e sugado o povo, o que resta para pagar a dívida? O facto de Portugal ser um país periférico da Europa foi sempre uma desvantagem e um dos factores do nosso atraso. Tudo se passava para além dos Pirenéus. Por isso era fundamental o aproveitamento geográfico do país. Com a sua fronteira para o Atlântico, Portugal pode vir a ser uma importante porta da Europa. Para isso é necessário modernizar os portos, ter um aeroporto estratégico em termos europeus e um comboio de alta-velocidade para transporte de passageiros, e, principalmente, de mercadorias. A linha férrea a unir as duas capitais, Lisboa/Madrid, é parte integrante deste projecto. A EU apoiava e incentivava este plano de aproveitamento geográfico do país para a criação de mais-valias. Com o chumbo do Pec. 4 tudo isto se desmoronou. O chumbo do Pec. 4 foi uma tragédia para o país, que havemos de pagar bem caro, ou melhor, já estamos a pagar. 
Não é possível um país desenvolver-se sem empresas fortes e saudáveis. Sócrates tentou incentivar vários “cluters” que pudessem ser o motor da economia. O que se passou com os computadores “Magalhães” foi vergonhoso e exemplar. Toda a gente ridicularizou uma iniciativa que distribuiu um milhão e oitocentos mil computadores por um estrato social que não os poderia comprar a preço normal. Hoje o J. P. Sá Couto só consegue vender computadores no estrangeiro. É o país que temos…)   Diferente disso é a crença actual de que a dívida virtuosa – a que é aplicada no crescimento sustentado da economia e assegura retorno – não é essencial e que a única coisa que agora interessa é poupar dinheiro seja como for, sufocando o país de impostos e abdicando de qualquer investimento público que garanta algum futuro. Doentia é esta crença de que governar bem é empobrecer o país. Doente é um governante que aconselha os jovens a largarem a “zona de conforto do desemprego” e emigrarem. Doente é um governo que, confrontado com mais de 700.000 desempregados e 16.000 novos cada mês, acha que o que importa é reduzir o montante, a duração e a cobertura do subsídio de desemprego. Doente é um governo que, tendo desistido do projecto de transformar Portugal num país pioneiro dos automóveis eléctricos, vê a Nissan abandonar, consequentemente, o projecto de fábrica de baterias de Aveiro, e encolhe os ombros, dizendo que era mais um dos “projectos no papel do engº Sócrates”. Doente é um governo que acredita poder salvar as finanças públicas matando a economia.
O fantasma do engº Sócrates pode servir para o prof. Freitas do Amaral mostrar mais uma vez de que massa é feito, pode servir para uns pobres secretários de Estado se armarem em estadistas ou para os jornais populistas instigarem a execução sumária do homem. Pode servir para reescrever a história de acordo com a urgência actual, pode servir para apagar o cadastro e as memórias inconvenientes e serve, certamente, para desresponsabilizar todos e cada um: somos uns coitadinhos, que subitamente nos achámos devedores de 160.000 milhões de euros que ninguém, excepto o engº Sócrates, sabe em que foram gastos. Ninguém sabe?”
Miguel Sousa Tavares
«Expresso», 17 de Dezembro de 2011
Nota: Texto remetido pelo meu Amigo Gil França. Os sublinhados não são do autor do artigo. 

6 comentários:

José R Santos disse...

Amigo, até 2008 foi um vê se te havias na desorçamentação...
Que se acumulou na dívida que hoje nos pesa nos termos que se vêm...
Na prática, um défice disfarçado e curto e toda a despesa directa à dívida. Muitos anos vamos ter que penar para pagar esse desvario. O homem, agora, estuda Filosofia em Paris. Fica tudo dito.
Estorinhas de branquear já todos conhecemos.

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu cometário.
Desde logo o texto não me pertence. É de Miguel Sousa Tavares. Por isso nem o comentei, apenas publiquei.
Todos os governos têm os seus pecados, maiores ou menores. A história do Primeiro-Ministro Cavaco começa a ser conhecida. A de Santana Lopes e Durão... são alguns exemplos.
E se José Sócrates não está imune a pecados, alguns significativos, não podemos ignorar a verdade do texto de MST. Basta os primeiros parágrafos. E também sabemos que a crise foi avassaladora e toda a Europa está a sofrer as consequências de uma situação que não foi antecipada, ou melhor, prognosticada pelos economistas.
Muitos sabiam que o rumo que o Mundo estava a tomar só poderia dar nesta situação. Agora, cruxificar um político, apenas este, quando a situação foi e é mais externa que interna, penso que não é nem justo nem correto.

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Embora eu considere o MST um jornalista acima da média e tenha apreciado muitos dos seus trabalhos jornalísticos e literários, reconheço-lhe algumas falhas graves que lhe tiram muita credibilidade.
Começa por se apresentar com demasiada arrogância, como se fosse detentor da verdade universal. Permite-se fazer julgamentos, o que em jornalismo não é lá muito ético. Mais ainda, quando não sabe, alinha pelo facilitismo, veiculando a "verdade" que está na moda e assim não correr o risco de grandes reprovações. Já o vi demasiadas vezes a pontificar sobre assuntos que ignora e, consequentemente, a dizer asneiras. No seu discurso revela ter inimigos de estimação (caso dos EUA) que, façam o que fizerem, são sempre alvo da sua condenação.
Enfim, MST, como a maioria das pessoas, está na sua profissão a tratar da sua vidinha e faz o que pode para melhorar a sua posição.

José R Santos disse...

A situação não é característica por ser externa. Quanto muito o é por ser geral... ou generalizada aos países desenvolvidos.
Todos penaram no mesmo erro. Só isso.
Quando uma quadrilha de ladrões consome o seu roubo, o facto de todos terem cometido o crime não isenta qualquer um das suas culpas.

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário, Coronel Vouga. Em abstrato a sua leitura parece-me correcta. No que concerne a este artigo em concreto, alguns aspectos são interessantes, pois permite recuperar a história e, cada um, refletir de acordo com as suas convicções e leituras.
Um abraço.

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário (J. R. Santos). Achei curiosa a parte final do seu texto. De facto, estamos à mercê de políticos muito fracos em toda a Europa. Na Europa e no Mundo! Estamos perante uma crise de liderança. Outra coisa é a cruxificação daqueles que foram apanhados na onda. Mas compreendo o seu comentário.