segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

ANO NOVO VIDA VELHA


Não poderei dizer, ano novo vida nova, porque o que aí vem de atropelos aos direitos das pessoas, nos mais variados campos, pressupõe dizer ano novo vida velha. Estamos, infelizmente, a regressar aos tempos da pobreza e de em cada mês faltar mais mês. São os senhores deste mundo, de rostos tapados, todavia influentes e determinados, segundo os seus interesses, na condução da vida de milhões. Senhores que têm discípulos por todo o lado e que determinam, pelos mais variados meios, desde o que comer, ao que vestir e até em quem votar! Engordam a todos os níveis de análise, enquanto uma maioria vai ficando na pele e osso e sem futuro. Mas a experiência da vida velha poderá, em 2013, colocá-los no sítio, pois como já alguém disse, a "revolta dos escravos" anda por aí. Entretanto, neste último dia de 2012, oiçamos música, "conduzida" por uma criança de sete anos, no pressuposto que é nelas que devemos acreditar num mundo com uma nova ordem.

 

domingo, 30 de dezembro de 2012

TRETA, SENHOR DEPUTADO, TRETA!


O Orçamento de Estado (OE) é gravoso para a Região, implica, não sei por quantos anos, a perda quase total de Autonomia, e agora vem o Deputado com a historieta da LFR como se os órgãos de governo próprio da Região estivessem em condições de negociar seja lá o que for. As palavras não são minhas, são de um candidato do PSD-M nas últimas eleições internas social-democratas, que Jardim nem dinheiro tem para comprar uma cortina! E é verdade. Estão lisos, sobretudo pela falta de credibilidade política, por toda a inversão de prioridades, por terem "escondido" a verdadeira factura da Região e por terem deixado acumular 6,3 mil milhões de dívidas. Daí que, a sede própria para dizer não às políticas do governo da república teria sido o da negociação e discussão do Orçamento de Estado, porque agora vão ter de engolir a Lei das Finanças Regionais com um ou outro acerto marginal equivalente a migalhas. E vão ter de "conformar-se"! É, portanto, de uma gargalhada política dizer que "estamos em total desacordo" com uma eventual "redução de dotações financeiras". Mas esta gente que governa e que representa a Região, porventura, dispõe de alguma credibilidade e respeitabilidade que os leve a dizer seja o que for? Valerá, doravante, a velha estratégia da chantagem para alcançar mais uns cobres? Senhor Deputado Guilherme Silva, o seu discurso é de paleio muito barato, é apenas fumo!
 
 
O Deputado Guilherme Silva (PSD) assume atitudes políticas que a única coisa que desperta é um sentido de pena ou lamento. As suas posições políticas são do tipo conforme, isto é, o seu discurso político oscila, não tem linha de rumo visível, na maioria das vezes é envolto na demagogia barata e numa pressuposta luta pelos interesses da Madeira apenas para consumo interno. O exemplo mais recente é o da contradição entre a aprovação do Orçamento de Estado para 2013 e a ameaça ao voto contra a Lei das Finanças Regionais (LFR), quando, no todo ou em parte, esta última compagina-se com o OE.
O Orçamento de Estado (OE) é gravoso para a Região, implica, não sei por quantos anos, a perda quase total de Autonomia, e agora vem o Deputado com a historieta da LFR como se os órgãos de governo próprio da Região estivessem em condições de negociar seja lá o que for. As palavras não são minhas, são de um candidato do PSD-M nas últimas eleições internas social-democratas, que Jardim nem dinheiro tem para comprar uma cortina! E é verdade. Há facturas por todo o lado, empresários desesperados, insolvências e falências, milhares no desemprego e em crescimento acelerado, estão lisos, sobretudo pela falta de credibilidade política, por toda a inversão de prioridades, por terem "escondido" a verdadeira factura da Região e por terem deixado acumular 6,3 mil milhões de dívidas. Daí que, a sede própria para dizer não às políticas do governo da república teria sido o da negociação e discussão do Orçamento de Estado, porque agora vão ter de engolir a Lei das Finanças Regionais com um ou outro acerto marginal equivalente a migalhas. E vão ter de "conformar-se"! É, portanto, de uma gargalhada política dizer que "estamos em total desacordo" com uma eventual "redução de dotações financeiras". Mas esta gente que governa e que representa a Região, porventura, dispõe de alguma credibilidade e respeitabilidade que os leve a dizer seja o que for? Valerá, doravante, a velha estratégia da chantagem para alcançar mais uns cobres? Senhor Deputado Guilherme Silva, o seu discurso é de paleio muito barato, é apenas fumo!
E neste quadro junta-se o CDS/PP que, fazendo parte da coligação, ainda ontem, na Madeira, o Deputado Rui Barreto tentou ensaiar uma demarcação ao que aí vem, porque o CDS, depreende-se na peça do DN-Madeira, "não foi ouvido a propósito da Lei das Finanças Regionais". Trata-se da velha história, já aqui contada, do prédio que ruiu e que, cimento, areia e ferro, chamados ao juiz, os dois primeiros justificaram serem de primeiríssima qualidade e o ferro ter assumido não ter culpas no sucedido, simplesmente porque nem lá estava! Vamos lá ser politicamente sérios, se fazem parte de uma coligação de governo, toda a estrutura política tem de ser responsabilizada por maiores que sejam os desconfortos internos e no seio da coligação. Estão todos no mesmo barco político e, portanto, ninguém pode querer esquivar-se lavando as mãos dos cortes financeiros que, inevitavelmente, vão acontecer. 
Não há madeirense ou porto-santense que não deseje o melhor para a sua terra. Mas neste processo a História é para ser conhecida, o desbaratar de dinheiros públicos que aqui aconteceram e que conduziram a Madeira a um estado de falência e de perda da sua Autonomia, obviamente que tem rostos e responsáveis. E a primeira atitude, neste momento, que seria lógica e diferenciadora de uma forma de estar na política, era o CDS/PP saltar do barco que afunda e não a de paninhos quentes, ao jeito de estou mas não estou! Aos olhos do comum dos eleitores acabam por iguais ou, então, este casamento ter todos os contornos da conveniência política.
Não conheço a Lei, apenas estou a guiar-me pelo que li e que não gostei. Hei-de lê-la e hei-de ter uma opinião. Aquela, por exemplo, da comparação entre as verbas para os Açores e as destinadas à Madeira há muito que, do meu ponto de vista, não faz sentido. Querer, sensivelmente, o mesmo volume de transferências para as duas regiões nunca me pareceu sério, independentemente da cor política de quem tem maioria parlamentar em cada uma das regiões. Os números da população residente não são muito diferentes, por outro lado, os Açores dispõem de nove ilhas habitadas dispersas por 600 quilómetros, enquanto a Madeira tem duas que distam cerca de 50 quilómetros. Só por aqui, independentemente de outros importantes factores, numa análise fina a todas as variáveis que implicam a Administração de duas ilhas em relação a nove, trazer para o centro do debate a questão açoriana, pessoalmente considero politicamente ridícula. Mas, enfim, talvez uma visita guiada pelas nove ilhas esbatecesse as análises tendencialemente enganosas, para não dizer demagógicas.
A procissão ainda nem ao adro saiu. O que se sabe são registos gerais que merecem ser estudados e amadurecidos relativamente às implicações na Região. Apesar disso, não venha do Deputado Guilherme Silva atirar poeira para os olhos, armar-se em forte e com ameaças de voto contra, quando todos sabemos que a Região está submissa, de joelhos, com a corda no pescoço e que, devido a uma exacerbada luta e de ofensas ao longo de anos, os de lá, hoje, riem-se e impõem o que querem e entendem. Lamentavelmente é assim. Poderíamos ser respeitados e tidos em conta, mas não somos, infelizmente!
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 29 de dezembro de 2012

A LEI DAS FINANÇAS REGIONAIS E O SILÊNCIO ESTRATÉGICO


O que é preocupante é que estamos todos entregues nas mãos de gente politicamente manipuladora, incompetente e que se servem dos lugares para se perpetuarem no poder. Fazem política não pelo bem comum, mas pelos interesses político-partidários que se escondem por detrás do biombo das aparências. Mas este silêncio tem uma outra leitura. Sustento que é estratégico. Ele sabe que os próximos meses serão muito graves para os bolsos dos portugueses, sabe que a economia continuará a resvalar, que as receitas não vão chegar para cobrir as necessidades, as de lá e as de cá, e que, sendo o quadro muito negro, dentro de algum tempo, não muito, esta dupla Passos Coelho/Paulo Portas cairá. Será, então, altura de, novamente, deitar a cabeça de fora e barafustar no sentido de reclamar outra lei para manter as loucuras de sempre. Tentará comprar os votos dos madeirenses e porto-santenses à custa de uma nova revisão da lei e, concomitantemente, que alguém por lá volte a pagar a factura. Duvido que consiga...
 
  
Afirmou o secretário regional do Plano e Finanças, Dr. Ventura Garcês: a proposta de Lei das Finanças Regionais "é uma lei um pouco melhor do que a de 2007 e muito aquém da lei que está neste momento em vigor que é de Outubro de 2010". Interessante. Tanto combate contra os socialistas e, agora, pergunto, como é?
Da parte do Presidente do Governo, isto é, daquele que, em 2007, se demitiu, abrindo espaço para eleições antecipadas, constata-se um silêncio que não tem nada de esquisito. Esse silêncio explica duas coisas: primeiro, que é, claramente, o elo mais fraco de todo o processo. Não tem capacidade negocial, ninguém quer dele saber, não é ouvido nem achado para nada que meta dinheirinho público, simplesmente porque colocou a Região de cócoras, através de uma dívida que ninguém sabe como e em que tempo será paga. Uma coisa é o que está escrito no plano de ajustamento financeiro, outra, a capacidade da Região para suportar os encargos que estão por liquidar; em segundo lugar, este silêncio demonstra que a sua demissão em 2007 foi um grande embuste. Nessa altura fica agora claro que gerou uma crise política porque pressentia que o PS-Madeira apresentava resultados eleitorais que poderiam colocar em causa a hegemonia do PSD-Madeira. Recordo que o PS vinha, sucessivamente, a apresentar resultados muito interessantes, casos concretos de dezanove deputados na Assembleia (embora o número de assentos fosse outro), uma igualdade com o PSD-M nos deputados eleitos à Assembleia da República e, finalmente, promissoras percentagens eleitorais nas autarquias. Teve medo desse crescimento e aproveitou a Lei das Finanças Regionais como motivo para desencadear novas eleições, fazer cavalo de batalha de tal lei para vir a ganhar um novo fôlego na liderança regional. E conseguiu. O PS na República e o PS-Madeira foram, na altura, os maus da fita e o povo cedeu à cantilena. Nem precisou de apresentar programa eleitoral. Foi o mesmo de 2004! Hoje, os dados provam que a sua demissão foi um embuste, a avaliar pelo seu silêncio perante uma proposta de lei do PSD/CDS que é, indiscutivelmente, mais gravosa que as anteriores.
O que é preocupante é que estamos todos entregues nas mãos de gente politicamente manipuladora, incompetente e que se servem dos lugares para se perpetuarem no poder. Fazem política não pelo bem comum, mas pelos interesses político-partidários que se escondem por detrás do biombo das aparências. Mas este silêncio tem uma outra leitura. Sustento que é estratégico. Ele sabe que os próximos meses serão muito graves para os bolsos dos portugueses, sabe que a economia continuará a resvalar, que as receitas não vão chegar para cobrir as necessidades, as de lá e as de cá, e que, sendo o quadro muito negro, dentro de algum tempo, não muito, esta dupla Passos Coelho/Paulo Portas cairá. Será, então, altura de, novamente, deitar a cabeça de fora e barafustar no sentido de reclamar outra lei para manter as loucuras de sempre. Tentará comprar os votos dos madeirenses e porto-santenses à custa de uma nova revisão da lei e, concomitantemente, que alguém por lá volte a pagar a factura. Duvido que consiga, simplesmente porque o coligação que hoje governa o país está em maus lençóis, certamente que não ganhará as eleições que vierem a ter lugar e, num quadro destes, repito, duvido que o PS seja sensível a qualquer jogada que pressuponha a perpetuação das loucuras políticas. Em primeiro lugar devem estar os madeirenses e porto-santenses e nunca os interesses de um político que não dorme a pensar na jogada seguinte. 
Ilustração: Google Imagens.  

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

EDUCAÇÃO: MENOS RESPOSTAS E MAIS PERGUNTAS!


"A Educação não é um problema de Economia, mas de Filosofia da Educação" - Elena Theodoropoulo. Duvido que o governo português chegue a esta síntese, fundamentalmente por questões ideológicas. Crato, por exemplo, parece mais interessado num franchising alemão para a Educação; o Pedro, o do facebook e da Laura, está cada vez mais ininteligível, contraditório e previsível; o Víctor, mesmo com os professores a lhe dizerem na cara que dispensam a retribuição que diz querer operar pelo que o país fez por ele, teima em cortar na escola pública e, quanto ao Álvaro, bom, esse deixemo-lo por aí a tentar exportar pastéis de nata.

 
Estou a ler e a "mastigar" as palavras de Elena Theodoropoulo, Professora na Universidade do Mar Egeu (Rodes, Grécia). Recentemente esteve no Porto para falar de Direitos Humanos e Contemporaneidade. Uma entrevista curta mas deliciosa que obriga a regressar atrás para perceber por inteiro, não só o alcance das palavras, mas também as lógicas que fundamentam a Educação nesta desgarrada União Europeia. Em alturas de crise, diz a Professora, como a que vivemos actualmente, a Filosofia poderia "abrir os espíritos e fazer as pessoas pensar de uma maneira independente. Mas isso, infelizmente, esgota-se na retórica". Uma das suas frases que retive, porque corresponde, exactamente, ao que penso é esta: "A Educação não é um problema de Economia, mas de Filosofia da Educação". Esta primorosa síntese deveria ser do conhecimento do matemático Crato, Ministro da Educação, já agora do Primeiro-Ministro Pedro, do Ministro das Finanças Gaspar e daquele senhor que dizem ser Ministro da Economia, um tal Álvaro! Deveriam ficar fechados durante dois dias, apenas para decifrarem aquela frase, em todas as suas variáveis e implicações. Não sei, pelo que têm feito, se conseguiriam chegar a uma conclusão que servisse de ponto de partida para uma mudança nos seus comportamentos políticos em função dos interesses futuros de Portugal. Mas, como ajuda, deixava-lhes um sobrescrito, para ser aberto apenas no segundo dia, com a seguinte mensagem: "A mudança deve provir do direito a pensar e da liberdade de pensar diferentemente até às próprias origens, às próprias raízes. É preciso pensar não apenas ao nível da superfície. É preciso ousar, conforme Lorca dizia, mergulhar até ao ponto mais sombrio do grito".
Depois desses dois dias sujeitava-os a uma única questão: Então, que futuro para a Educação em Portugal? A resposta, com estas ou outras palavras, teria, obrigatoriamente, de tender para esta leitura: "O que devemos esperar da Educação é que sendo capaz de alterar conceitos, os valores, os referenciais, possa representar um papel transformador, um papel inovador na sociedade. Se há uma crise de sentido, nós não podemos responder a essa crise com respostas pré-fabricadas. Nós perdemos a nossa juventude porque todas as respostas já estavam respondidas. O défice não está tanto nas respostas, mas nas questões".
Ora, duvido que chegassem a esta síntese, fundamentalmente por questões ideológicas. Crato, por exemplo, parece mais interessado num franchising alemão para a Educação; o Pedro, o do facebook e da Laura, está cada vez mais ininteligível, contraditório e previsível; o Víctor, mesmo com os professores a lhe dizerem na cara que dispensam a retribuição que diz querer operar pelo que o país fez por ele, teima em cortar na escola pública e, quanto ao Álvaro, bom, esse deixemo-lo por aí a tentar exportar pastéis de nata. O problema é que vamos pagar muito caro este amadorismo, esta impreparação para governar, sobretudo pela falta de dimensão que apresentam. Eles não sabem (e porventura não querem) que "a solução da escola do presente não está na restauração da escola do passado, nem nas mudanças cirúrgicas que, apesar de parecerem muito modernas, não entendem toda a interdependência das alterações necessárias para que uma escola se torne espaço de inclusão, de equidade, de cidadania e de solidariedade" - Professor David Rodrigues. Não sabem como fazer, quais os caminhos a percorrer, por isso, tal como sublinhou Elena Theodoropoulo, existe um défice nas questões, nas formulações, porque a resposta é sempre a mesma. Ou, então, com assume o Professor José Pacheco: "(...) é preocupante o modo como a Educação vem sendo (mal)tratada por sucessivos (des)governos. Será através da Educação que o País progredirá, é bem verdade, mas não através desta Educação." Por aqui, na Região, os mentores políticos saberão o que isto quer dizer? Regressarei a este tema.
Ilustração: Revista A Página da Educação, edição de Inverno, 2012.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

CARTA A ÍRIS


O que mais me entristece, hoje, Íris? A HIPOCRISIA! É como os discursos moralistas, na maioria das vezes inócuos, carecendo de proposições práticas e efectivas. Prostitui-se, em cada dia, o idílio mais lindo do sonho, fazendo do voto de confiança e de civismo um voto de morte e tragédia. Todavia, o papel do avô não é ensinar-te o caminho, mas ajudar-te a encontrar uma estrada, com valores e confiança suficientes para seres capaz de dizer NÃO, quando um comportamento te parecer errado ou perigoso. Porém, quero dizer-te que teria um grande desgosto se um dia te soubesse Skinhead, neo-nazi ou algo do género. Colhe da vida todas as coisas, as boas e as más. São dela parte integrante. Cultiva os bons amigos, não alimentes o rancor. Não fujas nem te acobardes com as contrariedades. Serás capaz de as enfrentar. Já revelas, sempre revelaste, um voluntarismo próprio e escorreita rebeldia. Hão-de levar-te aonde a tua vontade quiser.


Do meu Amigo Fernando Egídio, Sociólogo, li um texto que recomendo. Foi publicado na edição de Natal do DN-Madeira. Um texto que merece ser mastigado linha a linha, cruzado entre parágrafos e compaginado com os tempos de caos que vivemos. A carta a Íris, sua neta, talvez a todas as netas(os), conduz-nos a muitas interrogações face a uma desordem onde somos chamados a ser, apenas, actores-observadores. O Fernando fala, subtilmente, das tertúlias ao LUAR. No fundo, ele que também conspirou contra a ditadura, perante essa desordem, ele que é um Homem de paz, porventura questiona-se se não é tempo de uma resposta, adaptada aos novos tempos, de uma nova Liga de Unidade e Acção Revolucionária, na esteira do movimento político, fundado em Paris, em Junho de 1967, através do português Palma Inácio. Ele aborda a hipocrisia, o sofrimento, a pobreza e a fome, e insta a neta dizendo-lhe que o "papel do avô não é ensinar-te o caminho, mas ajudar-te a encontrar uma estrada, com valores e confiança suficientes para seres capaz de dizer NÃO, quando um comportamento te parecer errado ou perigoso".
Ontem telefonei-lhe para lhe dar parabéns pelo texto. Conversámos um pouco e pedi-lhe que permitisse a publicação do texto neste espaço. Aqui fica. Um abraço Fernando.
Íris:

Às vezes sinto vontade de escrever para te dizer coisas bonitas ou importantes, para dizer que te amo e vale a pena viver. O avô acha que as palavras escritas demoram mais tempo a morrer. Gosto, também, de escrever sobre uma temática/problemática ou a alguém especial. Talvez guardes esta minha carta e, assim, quando o avô não estiver mais por aqui, poderás sempre matar saudades de quem te escreveu com amor e emoção. Também nunca imaginei grandes coisas acerca de ti, só sabia que ias se bonita e inteligente, porque achava que sendo minha neta e de alguém que eu escolhesse para tua avó não poderias ser de outra maneira. O avô viveu em Paris, conspirou contra a ditadura, frequentou meios científicos, conheceu, entre outros, Sartre, Simone de Beauvoire, Marcuse, François Chatelet, frequentou a livraria Maspero, era colérico, porém, odiava a contradição e a traição e tem saudades das tertúlias ao LUAR. Também pensa que Deus não existe, as religiões são perniciosas e causadoras da grande fatia dos males de que o mundo enferma. Tomando de empréstimo as palavras de Baptista-Bastos : "Vivemos no interior do medo. O medo deixou de ser um sentimento comum à condição, para se transformar numa ideologia e numa arma política."
Vivemos, hoje, num laboratório experimental, onde a imbecilidade se levanta para trabalhar, recebendo por isso um salário que ,ingenuamente, lhe é roubado pelos criminosos, ajudando a pagar a “iluminados”. Salazar e Marcelo Caetano deixaram discípulos. Não conseguimos libertar-nos desta “fatalidade”. Íris, porque delego em ti a responsabilidade futura, não transformes, nem deixes que outros transformem pessoas medíocres em opressores e ditadores, contudo, toma como causas tuas as dos homens verdadeiramente grandes. Porém, queria legar-te um pensamento: "Estranha é a nossa situação aqui na Terra. Cada um de nós vem para uma curta visita, sem saber porquê, contudo, por vezes parecemos adivinhar um objectivo. No entanto, do ponto de vista do quotidiano, há uma coisa que sabemos: que o homem está aqui pelos outros homens – acima de tudo, por aqueles cujos sorrisos e bem-estar depende a nossa própria felicidade." (Albert Einstein)
Sabes, as minhas angústias existenciais foram aumentando, tanto que, hoje, posso exprimi-las em duas palavras: incerteza e confusão. Até quando as crianças nascerão velhas ao abraçarem sonhos impossíveis? Vi o sofrimento das crianças do meu país. Vi sonhos lindos que, mais tarde, viriam despedaçar-se em nome da competitividade, em nome da grande desordem da "ordem" burguesa vigente, em nome dos interesses de poucos – de um verdadeiro apartheid social. Vi muita gente passando frio, pedindo esmola. Vi uma medicina baseada em lucros multinacionais. Vi rostos em que estava inscrita a miséria, o abandono e a solidão.
O que mais me entristece, hoje, Íris? A HIPOCRISIA! É como os discursos moralistas, na maioria das vezes inócuos, carecendo de proposições práticas e efectivas. Prostitui-se, em cada dia, o idílio mais lindo do sonho, fazendo do voto de confiança e de civismo um voto de morte e tragédia. Todavia, o papel do avô não é ensinar-te o caminho, mas ajudar-te a encontrar uma estrada, com valores e confiança suficientes para seres capaz de dizer NÃO, quando um comportamento te parecer errado ou perigoso. Porém, quero dizer-te que teria um grande desgosto se um dia te soubesse Skinhead, neo-nazi ou algo do género. Colhe da vida todas as coisas, as boas e as más. São dela parte integrante. Cultiva os bons amigos, não alimentes o rancor. Não fujas nem te acobardes com as contrariedades. Serás capaz de as enfrentar. Já revelas, sempre revelaste, um voluntarismo próprio e escorreita rebeldia. Hão-de levar-te aonde a tua vontade quiser. Também queria falar-te da Autonomia da Terra que viu o Fernando, como carinhosamente me chamas, nascer.
Íris, o avô tem mais passado que futuro. A autonomia que se vive na Madeira é o sistema mais perverso que alguma vez iluminou o ser humano. Quais foram os resultados? A ilusão, a ignorância e o servilismo nos leigos; e, nuns e noutros, superstição, preconceito e perseguição. Os “faróis” são mais úteis que a Assembleia Legislativa. Todavia, são as máquinas sociais-democratas a querer refundar o fascismo, a repressão e o obscurantismo – o mais fatal exemplo de causas de padecimento que a História da Madeira preservou. Não obstante, a verdadeira guerra é entre o racionalismo e a superstição. A ciência é apenas uma forma de racionalismo, ao passo que o pensamento “social-democrata” é a forma mais comum da superstição. A racionalidade está sob o ataque de uma autonomia bem organizada, politicamente bem relacionada e, sobretudo, bem financiada, cujos representantes eleitos, tanto têm de responder perante os seus eleitores “ignorantes e preconceituosos, como os mais bem informados. Como resposta a estas ameaças, deveria surgir um lobby de defesa da racionalidade. Este “espectáculo” autonómico organizado encheu-me de horror, e não são raras as vezes em que, no exercício da minha cidadania, e enquanto sociólogo, condenei este “Estado” dentro de outro “Estado”. Quase sempre, este estado de coisas me parece simbolizar fé e um reaccionarismo cegos, dogma e intolerância, superstição, exploração, bem como a manutenção de interesses instalados. Nada se causa a si mesmo. Todo o efeito tem uma causa prévia.
Íris, queria que a autonomia, para o nosso bem e do país, morresse de morte matada. Na doçura do teu olhar, vai o avô agora despedir-se. Um dia hás-de ler esta carta. Ao lê-la, vais com certeza, perguntar por ele e procurar saber quem foi este teu avô longínquo. Lembro, ainda, uma frase do meu pai, teu bisavô, há muito falecido, madeirense e vertical: «Não há homens muito ou pouco sérios. Há homens sérios e outras coisas que parecem homens». Por mim, com a idade que tenho, o avô já não precisa nem quer nascer outra vez. Basta-me morrer como tenho vivido. Sério!
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

MISSA DO GALO E OUTRAS MISSAS


Os fiéis saem "confortados" com a Palavra e dir-se-á que levam a "receita" para casa. Estive tentado a descer as escadas de acesso à Igreja do Colégio, "espetar" vinte euros em exemplares do Diário de Notícias, colocar ali ao lado do JM e esperar pela reacção. Bem me apeteceu, mas não o fiz. Prefiro ajudar quem precisa e da forma que posso. Agora, que é um descaramento, lá isso é. Na Madeira, um pouco por todo o lado, esta cena multiplica-se, tal como em qualquer regime ditatorial, o "jornal oficial", o jornal do regime é distribuído como forma de propaganda, com a anuência da Igreja. E a questão é esta: como pode um sacerdote, na Homilía, dissertar sobre uma série de aspectos de interesse colectivo, como pode apelar à solidariedade, quando, ali mesmo, na porta, os vendilhões servem-se do templo para vender a sua vergonhosa propaganda, paga pelos próprios fiéis através dos impostos?
 
Vendilhões do Templo
Eram 23:20 horas na noite de Natal. Entrei na Igreja do Colégio com a minha família. Logo ali, como primeira imagem, uma mesa com dezenas de jornais da edição de Natal do Jornal da Madeira. Fotografei. Logo atrás um prospecto com São João Evangelista na capa. Não como protector das letras escritas, obviamente.
Senti uma enorme repulsa, por três motivos essenciais: primeiro, o continuado descaramento do Senhor Bispo em permitir que ali, na casa que não tem partido político (dizem), o Jornal seja entregue aos fiéis, gratuitamente, no quadro da propaganda oficial, isto é, no quadro da promoção partidária do PSD-Madeira; segundo, porque aquele jornal é pago através dos impostos dos madeirenses e porto-santenses (51 milhões de euros nos últimos vinte anos), numa época difícil e onde todos apelam à solidariedade e o Senhor Bispo, particularmente, à caridade; terceiro, porque fora do espaço da igreja, na rua, sobre o passeio, o habitual ardina do DN-Madeira, sofrendo a desleal concorrência, lutava por vender por setenta cêntimos um produto fruto de muito trabalho que não é subsidiodependente.
Quando era muito jovem, à saída da Missa, vezes várias recebi um santinho; agora entregam o Jornal da Madeira. Os fiéis saem "confortados" com a Palavra e dir-se-á que levam a "receita" para casa. Estive tentado a descer as escadas de acesso à Igreja do Colégio, "espetar" vinte euros em exemplares do Diário de Notícias, colocar ali ao lado do JM e esperar pela reacção. Bem me apeteceu, mas não o fiz. Prefiro ajudar quem precisa e da forma que posso. Agora, que é um descaramento, lá isso é.
Na Madeira, um pouco por todo o lado, esta cena multiplica-se, tal como em qualquer regime ditatorial, o "jornal oficial", o jornal do regime, é distribuído como forma de propaganda, aqui com a anuência da Igreja. E a questão é esta: como pode um sacerdote, na Homilía, dissertar sobre uma série de aspectos de interesse colectivo, como pode apelar à solidariedade, quando, ali mesmo, na porta, à sua frente e nas costas dos fiéis, os vendilhões servem-se do templo para vender a sua vergonhosa propaganda, paga pelos próprios fiéis através dos seus impostos? Uma pessoa minimamente atenta será que é capaz de aceitar e de tolerar esta gritante incoerência? Ora, esta situação, tolerada pela hierarquia da Igreja, hierarquia que assobia para o lado, transporta o sinal de uma hierarquia claramente partidária, ao serviço de um poder que espezinha, que gera o desemprego e a pobreza, e perante ele mostra-se incapaz de impôr o que emerge da Palavra.
Curioso é que o Estatuto Editorial do JM assume o seguinte: "O JORNAL DA MADEIRA é um Diário de perspectiva cristã aberta a um são pluralismo ideológico, na fidelidade ao Evangelho e no amor da Verdade, visando a formação humana plena, que desperte os Homens para as suas responsabilidades e para a sua participação na construção do mundo contemporâneo, pelo que não está enfeudado a qualquer partido político, antes desenvolvendo uma visão crítica das realidades".
Não suporto esta hipocrisia que testemunha uma Igreja de joelhos perante o poder político-partidário. Mas, enfim...
Ilustração: Arquivo próprio.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

VÉSPERA DE NATAL


Vejo pobres, assisto aos sinais de solidariedade para que a quadra seja menos mal, todavia, questiono-me: por quanto tempo o disfarce acontecerá? Até ao final do ano? Talvez. E depois? Quem os acode, quem manterá a subsistência de muitos que se nada tinham, agora pior. Refiro-me aos desempregados sem direito a subsídio, aos casais desesperados, às crianças que matam a fome na escola, aos idosos tratados de forma menos digna, onde o caso Atalaia é, apenas, um episódio, num mundo de solidão, aos jovens estudantes universitários sem dinheiro para propinas e outros encargos. Quem os acode? Não sei e não vejo saída com políticos destes cujo único verbo que sabem conjugar é o "roubar". Não sei, desmanchada a lapinha, a árvore de Natal, consumidas algumas iguarias, depois do fogo de artífício e desligadas as iluminações, no regresso à realidade, como será.

 
Há, em mim, uma complexa mistura de sentimentos. Coisa estranha, desde que me conheço! Venho a acumulá-los desde há uns dias. Sinto a felicidade da família reunida, a felicidade dos momentos de Natal, as canções de Natal que o leitor de cd's reproduz, gerando um ambiente de fundo agradável, mas, em tudo isto, há um mas...! Não consigo ultrapassar o que andam a fazer ao Povo português. Felizmente tenho o essencial apesar de todos os roubos que andam a fazer, mas há milhões que não têm. Insensível, o Primeiro-Ministro virá dizer que estamos no caminho certo e o Presidente da República cumprirá o número de falar para nada dizer. A mistura de sentimentos de que falo desenvolvem-se neste espaço, aguçado, aqui e ali, entre as notícias que vão surgindo e a hipocrisia de certos senhores quando trocam cumprimentos de Natal.
Ainda anteontem segui um trabalho jornalístico na SIC, sobre a vergonha chamada BPN, que todos nós estamos a pagar, vergonha que envolve gentinha da política. Foi um desfilar de nomes, de números assustadores e de claríssimas falcatruas que revoltam o mais sereno humano. E nós, dizem eles, é que vivemos acima das nossas possibilidades. Fomos nós, os peões, dizem, que construimos a bomba, a mentira, a falência do sistema financeiro e, por isso mesmo, temos de pagar com língua de palmo, através da espoliação dos mais elementares direitos individuais.
Vejo pobres, assisto aos sinais de solidariedade para que a quadra seja menos má, todavia, questiono-me: por quanto tempo o disfarce acontecerá? Até ao final do ano? Talvez. E depois? Quem os acode, quem manterá a subsistência de muitos que se nada tinham, agora pior. Refiro-me aos desempregados sem direito a subsídio, aos casais desesperados, às crianças que matam a fome na escola, aos idosos tratados de forma menos digna, onde o caso Atalaia é, apenas, um episódio, num mundo de solidão, aos jovens estudantes universitários sem dinheiro para propinas e outros encargos. Quem os acode? Não sei e não vejo saída com políticos destes cujo único verbo que sabem conjugar é o "roubar". Não sei, desmanchada a lapinha, a árvore de Natal, consumidas algumas iguarias, depois do fogo de artífício e desligadas as iluminações, no regresso à realidade, como será.
Hoje, é véspera de Natal. E a palavra Natal poderia, hoje, na nossa comunidade de 260.000 pessoas, ser sinónima de felicidade e de esperança. Poderia, se outro caminho tivesse sido percorrido, se quem governa fosse, politicamente, pessoa de bem, pessoa que seguisse a Palavra, a Mensagem, no essencial, quem governa assumisse essa complexa mistura de sentimentos que me invade. O nosso pequeno mundo seria bem melhor. Estou certo.
Apesar de tudo, Feliz Natal para todos quantos por aqui passarem.
Ilustração: Google Imagens.

domingo, 23 de dezembro de 2012

COM MÁGOA, LHE DIGO...


É bonito falar "dos valores de partilha, união, solidariedade, coesão e humanismo", mas como assumir estes valores quando o poder comporta-se de forma contrária, quando os governos não são inclusivos, antes são abertamente exclusivos através das medidas que toma, desde o poder que o Senhor representa na Madeira até o poder que por aqui inferniza e vegeta há 36 anos? As tradições, ao contrário do que sublinhou, não são um marco da força colectiva que une os madeirenses e porto-santenses", constituindo um "exemplo que deve inspirar, ainda mais, de forma a enfrentar os problemas reais e concretos". As tradições não resolvem problema algum, não aglutinam e não inspiram a fuga da frente do bulldozer político que esmaga e tritura. A tradição cultural vive-se, sente-se, estimula-se quando há esperança, quando existe um mínimo de felicidade estampado no rosto das pessoas. A tradição fica a um canto, embora nunca esquecida, porque é cultura enraizada, quando milhares de famílias sofrem na pele a dor de se encontrarem, ainda, no segundo patamar da pirâmide de Maslow.

 
Senhor Representante da República para a Madeira, quanto o Senhor está enganado! A quadra natalícia não se assemelha ao Carnaval carioca, onde dizem que "a vida são dois dias e o carnaval três". Há, portanto, que aproveitar.
"Esta quadra de convívio fraterno dá-nos força para a travessia do nosso quotidiano, por vezes, difícil e inquietante", disse. Olhe que não dá. Nem para os três dias milhares de pessoas desta nossa terra têm o mínimo, quanto mais para suportar os outros 362 de 2013! Isto não tem nada de exagero, apenas a verdade, dura e crua consubstanciada nos indicadores e na vivência real. O Natal, Senhor Representante, não deve ser construído com palavras bonitas, mas ocas e descontextualizadas da realidade económica, financeira e social. Não é Cristão. Pergunto-lhe, mas como pode um povo ser "engenhoso" e "resiliente" se não tem os instrumentos necessários para sair do sufoco, quando, diariamente, lhe cortam as pernas, subtraindo direitos, salários, subsídios, 13º mês e de Natal, impostos sobre impostos e quando o governo da Madeira, culpado primeiro da situação a que os madeirenses e porto-santenses chegaram, os meteu num colete de forças, melhor dizendo, de desemprego e de pobreza gritante?
É bonito falar "dos valores de partilha, união, solidariedade, coesão e humanismo", mas como assumir estes valores quando o poder comporta-se de forma contrária, quando os governos não são inclusivos, antes são abertamente exclusivos através das medidas que toma, desde o poder que o Senhor representa na Madeira até o poder que por aqui inferniza e vegeta há 36 anos? As tradições, ao contrário do que sublinhou, não são um marco da força colectiva que une os madeirenses e porto-santenses", constituindo um "exemplo que deve inspirar, ainda mais, de forma a enfrentar os problemas reais e concretos". As tradições não resolvem problema algum, não aglutinam e não inspiram a fuga da frente do bulldozer político que esmaga e tritura. A tradição cultural vive-se, sente-se, estimula-se quando há esperança, quando existe um mínimo de dignidade e de felicidade estampado no rosto das pessoas. A tradição fica a um canto, embora nunca esquecida, porque é cultura enraizada, quando milhares de famílias sofrem na pele a dor de se encontrarem, ainda, no segundo patamar da pirâmide de Maslow.
E o Senhor sabe que é assim, pela idade, pela formação, pela cultura e por ser madeirense. Por isso, esperava ler uma mensagem política contextualizada com o momento que se vive. O cargo de Representante da República é POLÍTICO, pelo que qualquer mensagem não deve ser de teor semelhante à do Senhor Bispo, ou de circunstância entre os que a "sorte" na vida bafejou. E podia fazê-la, pois não há nada na Constituição, nem o quadro institucional o impede, delicadamente, de chamar os bois pelo nome, isto é, de tocar nas feridas que sangram, enquanto político distante (não partidário) mas atento, actuante, influente, que levasse as pessoas a acreditar que pode haver um amanhã de esperança. Custa dizê-lo, obviamente que sim, pois eu conheço as teias do sistema. Mas não há alternativa a quem se predispôs ser uma espécie de fiel da balança. Custa muito não estar alinhado com o Presidente do Governo, obviamente que sim. Mas não resta alternativa a quem não confunde amizades pessoais com o dever das instituições pressupostamente democráticas. O problema reside aqui, o que me leva a dizer que os madeirenses e porto-santenses em vez de um, têm dois problemas (para além de todos os outros): o primeiro, o histórico silêncio do Presidente da República, que vê mas não vê, que está em Belém, mas não está, que se diz em reflexão e que actua com prudência, mas que nunca se dirigiu à Assembleia, ao que aqui se passa de desvirtuamento da Democracia; o segundo, é o Senhor Representante da República, nomeado pelo Senhor Presidente da República, que vivendo entre nós e, certamente, conhecendo os problemas do sul ao norte e do Porto-Santo ao Porto Moniz, não assume, através de alguns sinais, a necessidade de corrigir o leme desta desgraçada governação regional. O povo está, assim, entregue a si próprio, sujeito a uma maioria subtilmente déspota, sem ninguém para onde se vire e sinta alguma defesa face às suas angústias.
Tenho pena que assim seja. A nossa terra poderia ser um exemplo europeu, um exemplo nacional, de crescimento e desenvolvimento sustentáveis, de educação exemplar, de cultura, numa saúde, de acesso e sucesso invejáveis, de um tecido empresarial robusto, de emprego baseado nessa pujança, de contas públicas equilibradas. Poderia, mas não é, infelizmente. E isto está aos olhos de todos, que o nosso grande drama foi ter tido pessoas a governar sem qualquer preparação, que fizeram da política um emprego para a vida, e que se mantêm no poder graças a uma engrenagem perfeita que contou com o silêncio e o medo de muita gente. Lamento, mas o que acabo de escrever é o que me vai no coração.
Ilustração: Google Imagens.

sábado, 22 de dezembro de 2012

ARREPIANTE POBREZA: A DAS FAMÍLIAS E A DOS POLÍTICOS


"Este comportamento vindo do PSD não espanta dado que tem sido o Governo Regional do PSD que, na Região, gastou 51 milhões de euros nos últimos 20 anos no Jornal da Madeira; todavia, no que ao CDS/PP diz respeito, este comportamento revela a habitual bipolaridade e esquizofrenia política do CDS/PP, pois, na Região, têm apregoado aos sete ventos que estão contra a situação do Jornal da Madeira, prometendo aos madeirenses e porto-santenses que vão resolver o problema quando, na hora da verdade, votam contra, como já sucedeu com a legislação aprovada pelo PS no anterior Governo da República, ou, hipocritamente, abstêm-se, revelando cumplicidade com o que constitui um evidente desrespeito aos princípios fundamentais da lei da imprensa, da concorrência e do próprio Estado de Direito."


Olho para isto e sinto-me num país africano
onde as carências não têm fim,
mas onde os senhores do poder ou próximos
fazem fortunas mal explicadas.

Esta foto, editada ontem pelo DN-Madeira, confesso que me tanstornou. Tratou-se de uma distribuição de cabazes de alimentos feita pelo PND. Ali, frente à Assembleia Legislativa da Madeira. Centenas de pessoas em fila, que dobrava para a rua da Alfândega. Impressionante. Dir-se-á que a pobreza e a correspondente fome é muito superior à dignidade das pessoas. Aquilo foi o espelho público da tal "Madeira Nova" que o Dr. Jardim apregoa. Uma situação que não espanta, pois que, um pouco por todo o lado, o mesmo está a acontecer, umas vezes de forma mais recatada, outras, como ontem, com gente, muita gente, sem qualquer problema de assumir, de rosto aberto, a pobreza porque passam. Nunca imaginei que uma situação destas fosse possível na nossa terra, apesar de saber, através da leitura de vários indicadores, que a pobreza está aí, para ficar e por muitos anos, infelizmente. Abraço todos os que têm esse sentimento de ajuda ao próximo. E não venham com essa doentia história que isto é "aproveitamento político". Não, para mim, chama-se solidariedade activa, que corresponde também, é verdade, a uma enorme crítica a este regime político absolutamente irresponsável, decadente e asqueroso.
Mas o mais interessante disto é que, no dia anterior, na Assembleia da República, os parlamentares do PSD e do CDS/PP ao contrário de votarem a favor, abstiveram-se, isto é, lavaram as mãos relativamente a um requerimento apresentado pelo Deputado Dr. Jacinto Serrão, sobre o escandaloso caso do Jornal da Madeira. Um Jornal de propaganda do governo que já levou dos impostos de todos nós, 51 milhões de euros nos últimos 20 anos. Aqui deixo o texto do comunicado que me chegou, para que se fique a saber como é que estes senhores que governam a Madeira e como é que os Deputados da Madeira, na República, tratam os problemas sociais dos madeirenses e porto-santenses.
"1 – Ontem, na Assembleia da República, mais concretamente na Comissão de Ética, Sociedade e Cultura, PSD e CDS/PP mostraram claramente aos madeirenses e porto-santenses a sua indiferença e que não estão preocupados em resolver a escandalosa situação do Jornal da Madeira, já que se abstiveram na votação, aprovada com os votos favoráveis da esquerda, do requerimento apresentado pelo deputado eleito pelo PS-Madeira, Jacinto Serrão, para ouvir a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e a Autoridade da Concorrência (AdC). Refira-se que já em Junho PSD e CDS tinham votado contra uma iniciativa semelhante, igualmente proposta pelo deputado do PS-Madeira. São, em suma, cúmplices do escândalo que constitui o Jornal da Madeira.
2 – Este comportamento vindo do PSD não espanta dado que tem sido o Governo Regional do PSD que, na Região, gastou 51 milhões de euros nos últimos 20 anos no Jornal da Madeira; todavia, no que ao CDS/PP diz respeito, este comportamento revela a habitual bipolaridade e esquizofrenia política do CDS/PP, pois, na Região, têm apregoado aos sete ventos que estão contra a situação do Jornal da Madeira, prometendo aos madeirenses e porto-santenses que vão resolver o problema quando, na hora da verdade, votam contra, como já sucedeu com a legislação aprovada pelo PS no anterior Governo da República, ou, hipocritamente, abstêm-se, revelando cumplicidade com o que constitui um evidente desrespeito aos princípios fundamentais da lei da imprensa, da concorrência e do próprio Estado de Direito.
3 – O PS-Madeira reafirma o seu inquebrantável propósito de resolver esta situação de, na Região Autónoma da Madeira, o Governo Regional continuar a ser proprietário dum matutino, sem, todavia, cumprir as regras do pluralismo nem da leal concorrência, prejudicando deliberadamente outros órgãos de comunicação social de natureza privada. Esta situação além de estar a prejudicar claramente o pluralismo e independência dos meios de comunicação social existentes, na Região, tem inquestionavelmente minado os direitos dos cidadãos à liberdade de informação pela evidente e propositada distorção do mercado, servindo apenas e tão-somente como um instrumento usado pelo Governo Regional e pelo PSD para se perpetuarem no poder.
4 – Além das razões já referidas, o PS-Madeira entende que face ao passivo desproporcionado apresentado pelo Jornal da Madeira, causando recorrente prejuízo à Região, com as respetivas implicações no défice do país, isto justamente numa Região que atravessa uma fase económica e social muito frágil e preocupante, com cortes generalizados em praticamente todos os setores da economia e com muitas famílias a serem flageladas com o desemprego e graves dificuldades financeiras, literalmente a viver uma situação de calamidade social, os milhões de euros gastos anualmente no Jornal da Madeira (só em 2012 foram 5.051.329 milhões de euros) deveriam ser aplicados em apoios sociais que muito ajudariam os madeirenses e porto-santenses mais necessitados e desprotegidos."
Funchal 21 de Dezembro de 2012
Ilustração: DN/Madeira, com a devida vénia.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

MÃOS AO AR... É UM ASSALTO!


Alguma vez um trabalhor teve voz activa no processo de descontos operados? Então as carreiras contributivas não estiveram sujeitas ao rigor da Lei discutida e votada em sede de Assembleia da República ou através de normativos do governo? Então não houve um contrato entre o trabalhor e a Administração e, portanto, uma expectativa criada? E o que é essa história dos reformados com pensões mais elevadas darem ao Estado um "contributo maior"? Se têm uma aposentação acima da média é porque tiveram a possibilidade de estudar, de investir e de desempenhar funções concordantes com a sua formação e, ademais, ao longo da vigência do contrato a justiça fiscal foi feita em sede de IRS. Receberam mais, pagaram mais e pagam hoje mais! Portanto, é uma treta, uma pouca-vergonha, um roubo descarado dizer que os valores auferidos "não correspondem ao valor dos descontos que essas pessoas fizeram" ao longo da sua carreira contributiva. Correspondem, sim. O trabalhador não tem acesso à definição da sua pensão. Apenas entrega os documentos e solicita-a. Tudo é concretizado de acordo com a Lei e se alguns(?) recebem em desconformidade com a Lei, o primeiro-ministro não tem de lançar um anátema sobre todos, apenas tem de mandar investigar os tais que, segundo ele, recebem acima "dos descontos que efectuaram". Se existem casos devem ser investigados.


 Não tenho paciência para aturar este "sujeito" investido na função de Primeiro-Ministro. Perdi o respeito intitucional, repito, institucional, que os detentores de altos cargos políticos devem merecer, independentemente do partido político a que pertençam. Passos Coelho, perdoem-me os leitores, é um sujeitinho sem pingo de vergonha na cara. Não há dia que não surja mais uma novidade, mais um ataque às pessoas, mais um aviltamento, mais um roubo, tudo, mas tudo, assente na meia-verdade (pior que uma mentira) da "recuperação" do País. Todos os dias afundam-no, os indicadores são muito claros, mas todos os dias seguem o mesmo rumo, como se outro caminho não existisse, como se todos nós tivéssemos de seguir a sacrossanta cartilha imposta por uma Europa decrépita, vergada, desorientada e submissa a outras engrenagens tendencialmente mafiosas.
Domingo último li e ouvi o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, defender a necessidade de os reformados com pensões mais elevadas darem ao Estado um "contributo maior", o que na sua opinião não viola a Constituição da República. Em Penela, o primeiro-ministro considerou que alguns reformados e pensionistas "descontaram para ter reformas, mas não para terem aquelas reformas", acrescentando que tais pensões elevadas "não correspondem ao valor dos descontos que essas pessoas fizeram" ao longo da sua carreira contributiva. "As pessoas recebem com certeza aquilo que a lei atribui no pagamento das pensões, o que não significa que estejam a receber na proporção dos descontos que efectuaram". Mas, então, como é? Alguma vez um trabalhor teve voz activa no processo de descontos operados? Então as carreiras contributivas não estiveram sujeitas ao rigor da Lei discutida e votada em sede de Assembleia da República ou através de normativos do governo? Então não houve um contrato entre o trabalhor e a Administração e, portanto, uma expectativa criada? E o que é essa história dos reformados com pensões mais elevadas darem ao Estado um "contributo maior"? Se têm uma aposentação acima da média é porque tiveram a possibilidade de estudar, de investir e de desempenhar funções concordantes com a sua formação, sobretudo académica e científica e, ademais, ao longo da vigência do contrato a justiça fiscal foi feita em sede de IRS. Receberam mais, pagaram mais e pagam hoje mais! Portanto, é uma treta, uma pouca-vergonha, um roubo descarado dizer que os valores auferidos "não correspondem ao valor dos descontos que essas pessoas fizeram" ao longo da sua carreira contributiva. Correspondem, sim. O trabalhador não tem acesso à definição da sua pensão. Apenas entrega os documentos e solicita-a. Tudo é concretizado de acordo com a Lei e se alguns(?) recebem em desconformidade com a Lei, o primeiro-ministro não tem de lançar um anátema sobre todos, apenas tem de mandar investigar os tais que, segundo ele, recebem acima "dos descontos que efectuaram". Se existem casos devem ser investigados.
Ora, ele nem conta se deu que colocou em causa a seriedade das prestigiadas instituições como a Caixa Geral de Aposentações e a Caixa Nacional de Pensões. Para além disso, parece-me notório que aquele sujeitinho que um dia disse que tínhamos todos de "empobrecer", continua na senda do roubo aos direitos adquiridos, prescrevendo para o passado quando a lei deve prescrever para o futuro. Parece um aspirador! Só este ano, de uma assentada, o governo fará baixar os valores definidos nas pensões, entre 3,5 e 10%; retirará mais 3,5% de taxa suplementar e agravará, em sede de IRS, o desconto habitual por via do estabelecimento de novos escalões. Acresce, ainda, que no mês de Janeiro os pensionistas vão receber o mesmo que em Dezembro, mas, em Fevereiro, retroactivamente, vão retirar os descontos de Janeiro e de Fevereiro. Para muitos pensionistas vai ser lindo! Raios o partam! Mas tudo isto a propósito de pensões acima da média ou elevadas. E os cortes que os outros vão sofrer quando têm pensões de miséria? Há gente, certamente, a cumprir pena de prisão por um pequeno delito! E isto o que é?
Ilustração: Google Imagens.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

EMPURRAR OS PROBLEMAS COM A BARRIGA


Este homem que diz governar a Região é, de facto, um irresponsável político. Fizesse ele na sua casa, na sua família, o que tem feito na administração desta terra e, certamente, o Banco de Portugal já o tinha em lista negra, já lhe tinham retirado o livro de cheques e, provavelmente, já tinha sentado o rabinho no banco dos réus. Mas, com os dinheiros públicos é o que se vê e sabe: é gastar à grande e à francesa, é viver como se o saco dos dinheiros europeus, nacionais e o dos impostos dos madeirenses e porto-santenses não tivesse limitações. E quando elas surgem, aí vai ele, empurrando com a barriga, "prà frente sempre", culpabilizando os outros pelo seu próprio desnorte.


Pela boca morre o peixe!
Era já público e notório, mas agora dito na primeira pessoa torna-se mais grave e ridículo: "Gosto de empurrar as dificuldades com a barriga e ir sempre em frente" - Presidente do Governo Regional da Madeira.
Estas palavras foram ditas ontem frente ao Corpo Consular acreditado na Madeira. Muitos, se não todos, devem ter ficado incrédulos, ou talvez não, perante tamanha barbaridade discursiva, jamais admissível sequer num presidente de um clube de bairro. Incrédulos porque muitos deles sabem, nos países que representam, o que significam as palavras rigor, prioridade, auto-sustentação, interacção, integração, optimização dos meios, no fundo, o que significam as palavras planeamento e responsabilidade civil e criminal. Perante tais figuras, o Dr. Jardim disse exactamente ao contrário do que mandam os imperativos da governação. Daquela maneira acabou por justificar o desastre económico, financeiro, social e cultural da Região, consubstanciado nos vários e preocupantes indicadores, do desemprego à pobreza, do sistema empresarial aos direitos sociais.
Dir-se-á que tanto empurrou que hoje caímos em um colossal buraco que levará muitos anos para tapá-lo no sentido de devolver a dignidade à população. Ontem, a este propósito, li um incisivo comentário no online do DN-Madeira, assinado por amsf: "
Gosto de empurrar as dificuldades com a barriga e ir sempre em frente". Aquilo que crítico à classe política este "palhaço" exibe com orgulho! Esta gente não tem as mínimas noções de economia, esta gente é irresponsável e não tem noção disso e tem todos os incentivos para o ser pois o eleitorado não fica atrás na sua ignorância e irresponsabilidade". Assino por baixo o essencial da mensagem.
Aquele homem que diz governar a Região é, de facto, um irresponsável político. Fizesse ele na sua casa, na sua família, o que tem feito na administração desta terra e, certamente, o Banco de Portugal já o tinha em lista negra, já lhe tinham retirado o livro de cheques e, provavelmente, já tinha sentado o rabinho no banco dos réus. Mas, com os dinheiros públicos é o que se vê e sabe: é gastar à grande e à francesa, é viver como se o saco dos dinheiros europeus, nacionais e o dos impostos dos madeirenses e porto-santenses não tivesse limitações. E quando elas surgem, aí vai ele, empurrando com a barriga, "prà frente sempre", culpabilizando os outros pelo seu próprio desnorte.
Na política, ou melhor, na chefia de um governo, ser governante, não basta um palácio ou uma quinta, um gabinete, um staff e uma tesoura para cortar fitas. Implica muito mais do que isso. Implica profundos conhecimentos de economia e finanças, um grande domínio dos vários sectores sociais e produtivos, sentido democrático, aguçada capacidade prospectiva e bom senso na decisão. Ora, aquilo que, politicamente, o presidente do governo apresenta contraria o leque essencial do que deve ser portador um governante. A frase dita ontem explica, ou melhor, constitui uma síntese perfeita do que ele é e do que a Madeira há muito deveria ter dispensado. É por isso que todos vamos sofrer. Todos menos alguns, os da teia, os do clã, os que estão sentados à mesa do orçamento. Quem fala daquela maneira deve ter calo no umbigo, porque o mundo gira à sua volta!
Ilustração: Google Imagens.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

COM QUE ENTÃO... EXISTEM CLUBES E ASSOCIAÇÕES A MAIS!


O Povo começa a perceber as palavras de Chico Buarque: “Aqui na terra tão jogando futebol; Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll; Uns dias chove, noutros dias bate sol; Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta (…)”. Pois é, tudo por uma questão de ausência de planeamento, de bom senso e respeito pela coisa pública. Alguns exemplos: na Região Autónoma da Madeira existem 37 campos de futebol, um por cada sete mil habitantes. O Funchal dispõe de dois estádios, financiados em mais de 80 milhões de euros. Foram investidos 60 milhões de euros nas dezassete piscinas construídas nos últimos dez anos. A opção política determinou projetos estandardizados, mas “de luxo, com sofisticados sistemas de ventilação, aquecimento a gás e tratamento de água inovador, em alguns casos” (DN-Madeira de 09.06.11); outra peça jornalística sublinha que, em apenas 6018 dias, um clube geriu 65 milhões de Euros de financiamento público e, em 2009, cada atleta desse clube custou à Região mais do dobro do que o governo investiu por aluno nas escolas. Só mais uns dados do imenso rosário faraónico: há dias, o Instituto do Desporto da Região (IDRAM), cessou as suas funções com 52 milhões de euros de encargos assumidos e não pagos e, nos últimos dez anos, movimentou mais de 310 milhões de euros. As Sociedades Anónimas Desportivas (SAD’s) estão falidas, as piscinas não funcionam por atrasos na liquidação das faturas de gás e gasóleo, a esmagadora maioria dos clubes (176) e associações (25), dependentes do financiamento público, estão em colapso, face aos atrasos, que chegam a quatro anos, das transferências acordadas para as 63 modalidades desportivas. Isto é, o “monstro” criado engoliu o criador.
 
 
A aldrabice (discursiva) política tem limites!
Com que então... há clubes e associações a mais! Ouvi uma parte da entrevista do Presidente do Governo ao programa "Bola ao Centro", da SIC. A parte que o meu zapping apanhou, mais me pareceu "bola para canto ou para as bananeiras". Tenho um profundo respeito pelos jornalistas, mas pareceu-me uma entrevista mal preparada, sem o conhecimento profundo da realidade da Madeira, de todos os sectores da governação onde o desporto constitui, apenas, uma parcela. A parte que escutei, uns dez a quinze minutos, não tomando a parte pelo todo, para mim bastou, aliás, porque conheço o posicionamento do "chefe" tantas foram as suas declarações ao longo dos anos. E disse esta coisa absolutamente disparatada, que foram criados clubes e associações a mais. Esqueceu-se o dito que o problema nunca foi esse nem é esse. O direito de associação é constitucional, ninguém pode impedir que um grupo de pessoas se junte e, pelas vias que a lei dispõe, crie um clube ou uma associação. O problema é, portanto, outro. Talvez possa pôr no plural, (...) outros. Desde logo, poucos ignoram que a maioria política regional sempre se serviu dos clubes e associações para controlar, localmente, a vida política. Sempre que "cheirou" a eleições para um qualquer clube ou associação, são raros os casos em que o poder não tenha feito um esforço para colocar os "seus". Ele sabe e toda a estrutura política conhece. Depois, uma coisa é a existência de um clube ou associação, repito, enquanto direito constitucional, outra é perceber que ficam logo de mão estendida à espera que o "senhor governo" edifique ou subsidie a construção da sede, subscreva contratos-programa subsidiodependentes, pague deslocações ao nível nacional, pague a atletas estrangeiros e muita outra coisa que não domino. Estamos, portanto, face a dois aspectos completamente distintos. Ele sabe das quase cinco mil inaugurações que diz ter realizado, naturalmente públicas e privadas, quantos pavilhões, piscinas, campos de futebol, marinas sem sentido inaugurou, muitas nas vésperas de eleições regionais. Ele sabe quantos destacamentos de professores foram autorizados para manter o funcionamento do sistema. Não me parece honesto que agora venha dizer que há clubes e associações a mais. Houve, sim, política a menos e dinheiro a mais e, hoje, confronta-se com um sistema completamente em ruptura, insolvente e insustentável. Eu diria que ele, autor do monstro que criou e alimentou, tem uma gravíssima e significativa crise no associativismo, dentro de uma outra crise maior, a da economia e finanças. Só que ele não consegue ver isto, nem tem alguém que sugira um novo paradigma. Daí que, com o navio da governação completamente adornado, com rombos difíceis de o conduzir para doca seca, ao invés de uma leitura inteligente da situação, veio dizer que esta política é para continuar. Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso político jamais diria uma coisa destas. Só consegue ver a árvore, não a floresta de desencantos e de erros que por aí anda!
Sobre esta matéria ando a estudar, debater e a escrever desde os finais dos anos 70 do século passado. Ainda recentemente, porque sou colaborador da Revista A Página da Educação, editada no Porto e com distribuição nacional e internacional, assinei um artigo na edição 196 (Edição da Primavera) ao qual dei o título "O monstro criado engoliu o criador". Aqui deixo o texto:
"O Povo começa a perceber as palavras de Chico Buarque: “Aqui na terra tão jogando futebol; Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll; Uns dias chove, noutros dias bate sol; Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta (…)”. Pois é, tudo por uma questão de ausência de planeamento, de bom senso e respeito pela coisa pública. Alguns exemplos: na Região Autónoma da Madeira existem 37 campos de futebol, um por cada sete mil habitantes. O Funchal dispõe de dois estádios, financiados em mais de 80 milhões de euros. Foram investidos 60 milhões de euros nas dezassete piscinas construídas nos últimos dez anos. A opção política determinou projetos estandardizados, mas “de luxo, com sofisticados sistemas de ventilação, aquecimento a gás e tratamento de água inovador, em alguns casos” (DN-Madeira de 09.06.11); outra peça jornalística sublinha que, em apenas 6018 dias, um clube geriu 65 milhões de Euros de financiamento público e, em 2009, cada atleta desse clube custou à Região mais do dobro do que o governo investiu por aluno nas escolas. Só mais uns dados do imenso rosário faraónico: há dias, o Instituto do Desporto da Região (IDRAM), cessou as suas funções com 52 milhões de euros de encargos assumidos e não pagos e, nos últimos dez anos, movimentou mais de 310 milhões de euros. As Sociedades Anónimas Desportivas (SAD’s) estão falidas, as piscinas não funcionam por atrasos na liquidação das faturas de gás e gasóleo, a esmagadora maioria dos clubes (176) e associações (25), dependentes do financiamento público, estão em colapso, face aos atrasos, que chegam a quatro anos, das transferências acordadas para as 63 modalidades desportivas. Isto é, o “monstro” criado engoliu o criador.
Era natural que assim acontecesse, por ausência de visão estratégica, inversão de prioridades e criação de expetativas superiores àquelas que eram legítimas esperar em uma região pobre, assimétrica e dependente. Bastaria um pouco de bom senso e que fossem considerados os princípios do planeamento, a necessidade de, a todo o momento, existir um pensamento e controlo sobre o futuro, um processo integrado e multidisciplinar na tomada de decisão. Ora, nada disso aconteceu e o resultado é que 77% da população, entre os 15 e os 65 anos continua distante de qualquer prática física ou desportiva.
Ora, a política desportiva não deve estar centrada no resultado desportivo nacional ou internacional, porque essa não é uma política ao serviço do desenvolvimento, é uma política contra os cidadãos, contra a Escola e contra a cultura. Quando se olha para 19.000 desempregados (já vamos em 23.500), 30% de pobres, escolas condicionadas na ação social e com dívidas acumuladas que impedem o desenvolvimento dos projetos educativos, quando a relação média anual é de € 500.000,00 no desporto escolar para trinta milhões no sector federado, quando o sistema de saúde apresenta mais de 70 milhões de dívidas às farmácias, quando há centenas de empresas em colapso, parece-me óbvia a inversão das prioridades. Pasmo ao ver decisores passando incólumes perante a justiça do voto e a outra Justiça!
Um dedo de bom senso e de inteligência, um mínimo de visão e conjugação de todos os sistemas, um mínimo de estratégia política definidora da prioridade entre o desporto educativo escolar e o desporto associativo bastaria para que outro fosse o percurso. Certamente, hoje, a Madeira não teria piscinas encerradas, não teria tantos estádios de futebol entre outras dispendiosas infraestruturas de reduzida utilização, não teria 16.000 (dizem) praticantes federados, porque os clubes visam a qualidade nunca a quantidade, não teria tantas equipas em um vaivém semanal, não teria mais clubes e associações que freguesias (média de 4), mas teria, com toda a certeza, melhores resultados nas aprendizagens escolares e nas competências gerais, melhor e mais qualificada preparação da juventude, mais educação desportiva nas escolas, melhor sistema educativo, melhor sistema de saúde, um desporto entendido como bem cultural com mais investimento na escola e menores encargos ao nível do movimento associativo. Mas isso implicaria melhor democracia, que os agentes políticos não sofressem de uma gravíssima surdez, que a Assembleia Legislativa não fosse apenas palco para a ofensa, implicaria disponibilidade para ouvir, debater, gerar consensos e investir no caminho mais seguro e adequado às características de uma região com prioridades que estão muito antes do desporto profissional.
É claro que o lóbi do cimento, a fúria inauguracionista, a ambição da medalha ou do título toldou muitas consciências que deveriam se posicionar contra a megalomania eleitoralista. Conclusão: estatelaram-se, caindo do alto, escorregando nas pedras soltas que foram deixando enquanto subiam. Estão, hoje, embrulhados ao jeito de múmias, sem capacidade de decisão e sem um cêntimo no cofre que alimentou, durante anos, a vida inebriante que levaram. A população, essa, ficou dependente de um doloroso plano de reajustamento financeiro. “A coisa aqui tá preta”."
Ora, tantas perguntas que o jornalista poderia ter feito! E que respostas ele daria a todas elas?
Ilustração: Google Imagens.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A FARSA INSTITUCIONAL


E para isso basta um atento olhar pelos factos dos últimos doze meses de Governo, de Assembleia, para o comportamento sonolento da Igreja e para a representação da República na Região. Uns toleram e agacham-se à ausência de democracia na Madeira, outros governam olhando para o povo como súbditos e pata-rapadas, outros falam de caridade e fogem a sete pés de tocar nas feridas que sangram, enfim, chega-se a meados de Dezembro, há uma espécie de apagão nas consciências e, com todos os salamaleques, abraçam-se, fraternalmente, como se nada tivesse acontecido, brindam à prosperidade do regime, mas na mais completa ausência de sentimento Cristão. Ora, se isto não é hipocrisia institucional, então o que será? Aos olhos do povo, esta cena maquinalmente realizada, cheira a bolor, porque lhe falta sinceridade e atitudes condizentes com o significado e pujança de dizer Feliz Natal. Natal, senhores de tais actos, tenham consciência que é muito mais do que Ho Ho Ho!

Excelente foto de Teresa Gonçalves/DN.
Sabem para onde estão a olhar.
Só que, depois, esquecem!
Começou o vaivém dos cumprimentos protocolares de Bom Natal. O governo vai à Assembleia, ao Representante e ao Bispo; a Assembleia vai ao Representante da República, ao Bispo e por aí fora. Para a fotografia e cumprimento de um ritual, visitam-se, dizem coisas apropriadas à época e "abraçam-se" efusivamente. Levam o ano inteiro com atitudes políticas contrárias ao espírito natalício e, depois, em romaria lá vão, de canto em canto, mostrar aquilo que nunca têm em conta. Há aqui uma hipocrisia institucional que bole com aquilo que penso sobre o comportamento político sério e o comportamento político desprezível.
Isto pressupõe que não está em causa o acto em si mesmo, a elegância e até o dever de apresentação de cumprimentos. O que está em causa é a hipocrisia de que se reveste o acto. E para isso basta um atento olhar pelos factos dos últimos doze meses de Governo, de Assembleia, para o comportamento sonolento da Igreja e para a representação da República na Região. Uns toleram e agacham-se à ausência de democracia na Madeira, outros governam olhando para o povo como súbditos e pata-rapadas, outros falam de caridade e fogem a sete pés de tocar nas feridas que sangram, enfim, chega-se a meados de Dezembro, há uma espécie de apagão nas consciências e, com todos os salamaleques, abraçam-se, fraternalmente, como se nada tivesse acontecido, brindam à prosperidade do regime, mas na mais completa ausência de sentimento Cristão. Ora, se isto não é hipocrisia institucional, então o que será?
Aos olhos do povo, esta cena maquinalmente realizada, cheira a bolor, porque lhe falta sinceridade e atitudes condizentes com o significado e pujança de dizer Feliz Natal. Natal, senhores de tais actos, tenham consciência que é muito mais do que Ho Ho Ho! Ao dizer "Feliz Natal", para a humanidade, claro, estamos a assumir qualquer coisa como feliz o dia que Jesus nasceu. Importa pois perceber em que medida os governantes contribuem para a felicidade do povo quando em causa estão os pressupostos da Sua Mensagem. Por aqui, então, o que têm feito? Obras, muitas obras físicas, muito poucas ou raras obras no ser humano. É por isso que temos um extenso rol de malfeitorias que provocaram desespero nas famílias por via do desemprego, emigração forçada, educação e saúde tendencialmente pagas, retirada de direitos constitucionais, roubo na carteira dos contribuintes, ignorância, pobreza e dívidas, muitas dívidas que serão pagas, novamente, por todos aqueles que já pagaram pesados impostos. E perante isto, perante actos socialmente criminosos, lá vão "cantando e rindo", desejar Feliz Natal uns aos outros. Com que moral, pergunto?
Ilustração: DN - Teresa Gonçalves, com a devida vénia.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

FÉ E POLÍTICA

 
Não devo colocar na boca do Senhor Bispo o que deve dizer. É um problema seu. Não aceito é que a fé, intencionalmente com letra minúscula, sirva para manter a escravatura dos novos tempos e, a reboque, traga a caridadezinha, o tal resto que sobra da faustosa mesa política dos que dela se servem. O que gostaria de ter ouvido, enquanto cidadão, era uma outra coisa, essa imperiosa necessidade de mudança de comportamentos políticos que, paulatinamente e a prazo, pudessem resolver o problema da pobreza (a todos os níveis) que o Senhor Bispo, certamente, melhor do que eu sabe que não constitui uma fatalidade. As pessoas precisam de resolver os seus problemas enquanto por cá andam, antes da "eternidade", os problemas derivados do trabalho, o problema da educação, da saúde, da cultura, da assistência à família, enquanto direitos constitucionais, porém, diariamente, espezinhados através de discursos elaborados com mel, a par de outros que nada dizem. A Fé é outra coisa, tem outra dimensão. Talvez bom seria para a nossa sociedade que alguns políticos governantes se deixassem iluminar pela Fé! Talvez. Li, um texto do Padre Libânio: "A fé cristã sem as obras é morta, na expressão de São Tiago. Mais: ela acaba por contaminar negativamente a política, sacralizando e acobertando práticas desonestas". Tanto assim é que o presidente do governo regional, com tantas missas a que assiste e procissões em que participa, por imperativo da sua função ao longo de 36 anos de governo e, provavelmente por Fé, os milhões de euros que atribuiu através do Orçamento Regional para novos templos,  teríamos o nosso problema colectivo resolvido. E não está, pelo contrário, agrava-se todos os dias.

Julgo que anteontem, em Santa Cruz, organizado pela Misericórdia local, teve lugar um almoço de Natal que juntou alguns dos mais frágeis do concelho. Misericórdia que desenvolve, segundo julgo saber, um trabalho meritório no citado concelho. Em função do momento, o Senhor Bispo do Funchal teceu algumas considerações. Ouvi-o através da rádio. A páginas tantas falou de Fé e repetiu a lengalenga do costume com duas palavras-chave: Fé e caridade. Ora bem, Senhor D. António Carrilho, separemos as coisas: uma é ter Fé e essa depende de cada um, da sua história de vida, da herança cultural transmitida e dos princípios que orientam as pessoas; outra, é a questão política, económica, financeira, social e cultural. As pessoas não "comem Fé", nem terão emprego facilitado através da Fé. São aspectos muito distintos. A Fé não vai resolver, após o almoço de Natal, os outros 364 dias do ano onde a pobreza e a fome existem ou, por extensão, as dificuldades que a Misericórdia de Santa Cruz encontra para resolver os dramas que lhe batem à porta. O que vai resolver é a política feita por políticos sérios, honestos e com dimensão humanista. Políticos que saibam definir o prioritário do acessório. Se assim não fosse, o presidente do governo regional, com tantas missas a que assiste e procissões em que participa, por imperativo da sua função ao longo de 36 anos de governo e, provavelmente por Fé, os milhões de euros que atribuiu através do Orçamento Regional para novos templos, teríamos o nosso problema colectivo resolvido. E não está, pelo contrário, agrava-se todos os dias. Onde está e qual é então a Fé dos governantes, questiono? Bastará reunir, por exemplo, na Calheta, mil idosos, com a presença de elementos do governo (!) e proporcionar-lhes um jantar muito agradável, simplesmente porque é Natal? Rejeito, então, liminarmente, a Fé como pura recitação, como puro oportunismo, "porque não responde ao ideal cristão". E tanto assim é que, no caso da Madeira, onde uma maioria dos habitantes são pessoas de Fé (a outra), estamos em claríssima tragédia social. Parece-me lógico que conclua que este é um problema político e não de Fé. A organização do todo social, da educação à saúde, do trabalho à família, dependem de medidas políticas, Senhor Bispo, e não da utilização da Fé para escravizar ou gerar ainda mais obscurantismo.
A minha Fé, Senhor Bispo, está na História bonita e profunda de Jesus de Nazaré, nessa Mensagem (de recorte bem político) que um Homem deixou aos Homens e que foi disseminada pelo Mundo. É essa Mensagem de onde decorre o amor, a tolerância, a conduta, a sensibilidade pelos outros que me guia. Concretizá-la, no plano colectivo, depende de medidas políticas e não da existência de Fé, nem das pessoas em geral, nem dos governantes em particular. A Fé no sentido que o Senhor Bispo enquadra transporta-nos para um outro patamar de discussão que não o da solução dos problemas. E quando o Senhor Bispo compagina a Fé com a caridade, no meu humilde e quase nulo conhecimento, inclusive, doutrinário e filosófico, atrevo-me a dizer que me parece incorrer em novo erro. A caridadezinha não tem razão de existir quando uma sociedade está organizada, quando ela se assume como defensora da justiça social, quando ela trava os ímpetos do egoísmo, da ganância e põe termo ao despotismo e às refinadas formas de fazer crer que vivemos em democracia. Não é utopia, mas a realidade. Li, algures, uma interessante explicação sobre a utopia: dizia, alguém, a utopia está no horizonte. Você dá dez passos e o horizonte distancia-se dez passos; percorre cem metros e o horizonte afasta-se cem metros. Bom, questionava-se, para que serve a utopia? Exactamente para isso, para caminhar! Ora, Senhor Bispo, o que nós precisamos é de caminhar e não de afundar cada vez mais este Povo com palavras e expressões que se desviam da realidade e conduzem o povo para o beco de uma Cruz não libertadora.
Quando o número de desempregados volta a subir não há Fé que atenue a desgraça em que mergulham as famílias; quando temos mais de 30.000 que auferem de miseráveis pensões, não há Fé que trave as angústias; quando temos 85.000 pobres, 50% dos quais no quadro da pobreza persistente, não há Fé que resolva o problema; quando temos centenas de empresários em insolvência e em falência, não há Fé que termine com o seu sofrimento. Que Fé pode um cidadão ter quando assiste, por exemplo, ao desperdício anual de mais de três milhões de euros no Jornal da Madeira, quando há paroquianos com FOME? Por aí fora, Senhor D. António Carrilho.
Não devo colocar na boca do Senhor Bispo o que deve dizer. É um problema seu. Não aceito é que a fé, intencionalmente com letra minúscula, sirva para manter a escravatura dos novos tempos e, a reboque, traga a caridadezinha, o tal resto que sobra da faustosa mesa política dos que dela se servem. O que gostaria de ter ouvido, enquanto cidadão, era uma outra coisa, essa imperiosa necessidade de mudança de comportamentos políticos que, paulatinamente e a prazo, pudessem resolver o problema da pobreza (a todos os níveis) que o Senhor Bispo, certamente, melhor do que eu sabe que não constitui uma fatalidade. As pessoas precisam de resolver os seus problemas enquanto por cá andam, os problemas derivados do trabalho, o problema da educação, da saúde, da cultura, da assistência à família, enquanto direitos constitucionais, porém, diariamente, espezinhados através de discursos elaborados com mel, a par de outros que nada dizem. A Fé é outra coisa, tem outra dimensão.
Leio: "talvez bom seria para a nossa sociedade que alguns políticos governantes se deixassem iluminar pela Fé! Talvez. Li, um texto do Padre Libânio: "A fé cristã sem as obras é morta, na expressão de São Tiago. Mais: ela acaba por contaminar negativamente a política, sacralizando e acobertando práticas desonestas". É isto que se verifica, Senhor Bispo, não é verdade?
Ilustração: Google Imagens.