terça-feira, 17 de janeiro de 2012

ACTUAR NAS CAUSAS PARA PREVENIR CONSEQUÊNCIAS


É evidente que, mesmo em um quadro de normalidade e de respeito, qualquer parlamento não está isento de comportamentos deselegantes e abusivos. Os deputados não são propriamente meninos de coro. O problema é que aquilo que deveria ser exceção tornou-se regra, agora agravada pelo número de deputados de uma força política. E se se verificou um aumento do número de deputados apenas de protesto, logo poder-se-á dizer que esse número resulta da imagem que o parlamento e o governo têm junto dos eleitores.Tudo isto é muito triste. A tempestade resulta dos ventos semeados. Pena tenho dos funcionários da Assembleia, por quem nutro consideração e estima, que se vêem envolvidos, porque empurrados, para uma briga que não é sua. De resto, não é sua função.


É óbvio que ninguém, com um mínimo de bom senso e de respeito por si próprio, no caso específico dos deputados, respeito pelos eleitores que representam e pela dignidade que devem ao primeiro órgão de governo próprio, ninguém, repito, aceita as cenas desta manhã no parlamento da Madeira. Acabo de seguir a reportagem da RTP e, uma vez mais, fiquei chocado. Ao ponto a que isto chegou, interroguei-me. Péssimo exemplo para os mais jovens da nossa sociedade, continuada degradação da imagem do parlamento, vulgarização da importância da actividade política dos deputados, enfim, um parlamento que, literalmente, bateu no fundo. A dignidade, o respeito e a sua imagem pública, é minha convicção, só serão devolvidos quando a configuração parlamentar for diferente. E para isso necessário se torna que o povo tome consciência que assim não pode ser e que, portanto, com o poder do voto, altere este quadro absolutamente degradante. Fica pois clara a minha total repulsa pelos comportamentos marginais que não ajudam o debate político, a democracia e a consolidação da Autonomia.
Porém, a par da veemente condenação, necessário se torna olhar para as causas dos comportamentos. Dir-se-á que nada justifica, mesmo quando existe um somatório de situações criadas que potenciam certos comportamentos. Aceito este ponto de vista, até porque eu, por exemplo, nunca seria capaz de enveredar por tais caminhos. Prefiro a utilização da arma da palavra, oral ou escrita, do que baixar ao nível da provocação e do confronto. Mas tenho de convir que outros se manifestam de forma diversa. E aqui é que se coloca o núcleo da questão que sintetizo em uma simples frase: quais as causas que provocaram, nos últimos anos, a desrespeitabilidade do parlamento, a degradação do pensamento político e o número de deputados de uma força política apenas de protesto? A questão penso ser esta. É na resposta a esta questão que se encontram, em minha opinião, as razões mais substantivas que contribuem para aquilo que é hoje o parlamento regional. Um parlamento, anos a fio, marcado pela obediência cega ao partido da maioria; um parlamento que tudo chumba; um parlamento que não abre espaços de debate sério e profundo; um parlamento considerado pelo próprio presidente do governo como uma "casa de loucos"; um parlamento cuja maioria rejeita a presença nos debates do presidente do governo e dos secretários regionais; um parlamento que, neste momento de grande aflição económica, financeira e social, atira para longe o debate sobre as situações muito graves que a todos diz respeito; um parlamento cuja maioria altera o regimento sempre que a oposição descobre uma forma de "furar" as regras que a maioria impõe; um parlamento que conduz um partido a gozá-lo, distribuindo, à sua porta, € 20,00 aos pensionistas, retirados da subvenção parlamentar, como forma de chamar à atenção para o que se está a passar no sector da saúde; um parlamento que chumba comissões de inquérito e que, naquelas que por norma regimental é obrigado a desenvolver, brinca com elas e conclui sempre o que interessa à maioria e não ao esclarecimento da verdade política; um parlamento que reúne cada vez menos vezes, pergunto, se estas não serão causas que potenciam comportamentos inaceitáveis?
É evidente que, mesmo em um quadro de normalidade e de respeito, qualquer parlamento não está isento de comportamentos deselegantes e abusivos. Os deputados não são propriamente meninos de coro. O problema é que aquilo que deveria ser exceção tornou-se regra, agora agravada pelo número de deputados de uma força política. E se se verificou um aumento do número de deputados apenas de protesto (tendo em consideração que o protagonista é o mesmo), logo poder-se-á dizer que esse número resulta da imagem que o parlamento e o governo têm junto dos eleitores.
Tudo isto é muito triste. A tempestade resulta dos ventos semeados. Pena tenho dos funcionários da Assembleia, por quem nutro consideração e estima, que se vêem envolvidos, porque empurrados, para uma briga que não é sua. De resto, não é sua função. Perante um momento daqueles não compete aos funcionários reporem a normalidade. É à Mesa que compete suspender os trabalhos, reunir os líderes dos grupos parlamentares e encontrar as adequadas soluções. O problema é que, lamentavelmente, tudo isto vem em crescendo, pelo que, estou certo, a população será confrontada com novos episódios.
Ilustração: Google Imagens.

1 comentário:

Pica-Miolos II disse...

Senhor Professor
Tal como numa moeda não é possível dissociar a cara da coroa, no jardinismo o contraponto da indecência é o espalhafato.
Derrotada uma...desaparece o outro.