sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

EDUARDO CATROGA: EU TENHO UM VALOR DE MERCADO


Nada tenho contra o cidadão Eduardo Catroga, cidadão de 70 anos, e o seu manifesto desejo de continuar activo. É um direito que lhe assiste. E não me incomoda que assuma um qualquer lugar de responsabilidade gestionária. Incomoda-me é que uma empresa lhe pague cerca de seis vezes mais que o Presidente da República. Incomoda-me é a disparidade entre um trabalhador que ganhe € 12.000,00 por ano, precisar de 50 anos para ganhar o que este senhor ganha em um ano apenas. Essa disparidade é que incomoda. Todo o trabalho deve ser remunerado, mas há valores que são obscenos, mesmo quando fundamentados à luz da teoria do "valor de mercado".

Quando foi Ministro ficou conhecido pelo "Cadroga de Ministro!". Hoje tem o desplante de dizer que tem um "valor de mercado". Tal como o Ronaldo, assumiu. Julgo que são seiscentos mil euros por ano! Bom, já sabíamos a paixão deste senhor pelos "mercado(s)", mas não era necessário ser tão descarado. Julgo que deveria ter um pouco de respeito pelos concidadãos ou, então, um espelho para analisar a sua participação no XII Governo Constitucional, o terceiro de Cavaco Silva, à luz desse valor de mercado. Cavaco Silva que, curiosamente, em 2007, o condecorou com a Grã Cruz da Ordem de Cristo. Dir-se-á, tudo em família! Mas, isso, pouco me rala. O que é preocupante e que não favorece a respeitabilidade dos políticos, não é apenas a aproximação a Frei Tomás, mas o descaramento. Ronaldo ganha muitos milhões, é certo. Considero, mesmo na indústria do futebol, que os quantitativos que ele e outros auferem constituem uma afronta e uma ofensa, simplesmente porque o limite do razoável não deve ser ultrapassado. Só que o futebolista CR7 é uma marca que vende ao contrário de Catroga que não acrescenta nada. A EDP vai continuar a facturar muitos milhões com ou sem Catroga, o que significa que este tipo de nomeação(ões) cheira(m), ao comum dos cidadãos, um toma lá dá cá em função de outras fidelidades e colaborações. E aquilo que condenavam nos governos socialistas, agora, é justificado como pessoas de competência ímpar. Estou esclarecido. 
Nada tenho contra o cidadão Eduardo Catroga, cidadão de 70 anos, e o seu manifesto desejo de continuar activo. É um direito que lhe assiste. E não me incomoda que assuma um qualquer lugar de responsabilidade gestionária. Incomoda-me é que uma empresa lhe pague cerca de seis vezes mais do que ganha o Presidente da República. Incomoda-me é a disparidade entre um trabalhador que ganhe € 12.000,00 por ano, precisar de 50 anos para juntar o que este senhor ganha em um ano apenas. Essa disparidade é que me  incomoda. De resto, todo o trabalho deve ser remunerado, mas há valores que são obscenos, mesmo quando fundamentados à luz da teoria do "valor de mercado".
E são estas pessoas que aparecem a falar dos outros, dos malandros que não querem trabalhar, a falar de economia quando, no fundo, nada mais fazem do que arquitetar as linhas dos seus próprios interesses. Mas, aqui, nem Passos, nem Víctor, nem Portas abrem a boca, porque se trata de uma disposição que só à Comissão de Remunerações da EDP diz respeito. Santa hipocrisia.
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Vilhão Burro disse...

Senhor Professor
Essa de "eu tenho um valor de mercado" traz-me tristes recordações!
Eu explico. Na única vez que fui a Lisboa,aconselharam-me ir a um sítio muito selecto,"bem frequentado",onde poderia encontrar gente muito fina e habitué,como o dr.Santana Lopes,denominado Elefante Branco(note-se que isso não tinha nada a ver com os ditos implantados cá da RAM pelo dono). Lá fui,muito curioso e esperançado...Claro está que estas coisas não estão ao alcance de qualquer um, muito menos para o bico de um Burro como eu! É certo que,por lá,vi outros vilhões, bem conhecidos nestas redondezas,mas muito mais habilitados que a minha parca disponibilidade financeira.
De qualquer modo,tentei a minha sorte,estabelecendo,com os meus melhores modos,um relacionamento com um "tratado" nunca por mim visto,a não ser em capas de revista. Conversa puxa conversa,sou confrontado com uma proposta correspondente a quase um ano do meu ordenado!!! Quase sem fala,esbocei uma tentativa de regateio,perfeitamente insucedido e rematado com o argumento(que mais tarde vim a saber ser típico da classe):
Eu tenho um valor de mercado!

João André Escórcio disse...

Excelente. Ri que me fartei, apesar do momento ser terrível!