sábado, 28 de janeiro de 2012

A TRAGÉDIA ANUNCIADA


A procissão das dificuldades ainda não saiu do adro. Os pobres ficarão ainda mais pobres. A classe média tenderá para a pobreza engrossando a fileira dos dependentes do Rendimento Social de Inserção e dos apoios das instituições de solidariedade social, não apenas para combater as necessidades primárias, mas para satisfazer compromissos de pagamento da habitação, créditos e outros. A emigração disparará. Centenas de funcionários públicos verão os seus postos de trabalho ameaçados. As filas no Instituto de Emprego aumentarão exponencialmente sem que tenham possibilidade de resposta aos pedidos de emprego. A saúde e a educação entrarão numa fase de total angústia e de colapso. O sector farmacêutico será atingido com morte anunciada para muitas farmácias. E o pior de tudo isto é a natural agitação social que se seguirá pelo crescimento do desespero no seio das famílias. E perante tudo isto não se vê vivalma no partido deste senhor a dizer-lhe basta.


Olhei para aquele painel de governantes e neles vi, nos rostos, estampada a imagem da derrota, do fracasso, do desastre das suas políticas e do medo sobre o próximo futuro. Vi caras comprometidas, incomodadas e derrotadas, sempre que o realizador aproximava os planos. Fácies que espelhavam a "morte" da Autonomia. Ao centro, um homem que de tanto repetir a mentira convence-se que está a falar a verdade. Um homem incapaz de perceber que de nada valerá se glorificar da "obra" quando tem um povo a caminho da miséria. Um homem incapaz de reconhecer que outro deveria ter sido o caminho, que a cimentização da Região teria custos a prazo mais ou menos curto, que o grande investimento teria de ser na política educativa, nas famílias, nas empresas, na mentalidade e no paradigma económico. Um homem incapaz de reconhecer que a ofensa a tudo e a todos, a crítica, a fuga ao debate, a mentira permanente, a ocultação da verdade, a ostracização da oposição, tudo isso só traria consequências e com juros. Visivelmente gasto e cansado, abatido pelo peso das circunstâncias, ainda assim, mostrou-se, ontem, um homem incapaz de olhar para o presente e de perceber que o que está aí à porta é muito grave para toda a população. A cegueira pelo poder é tal, que mais me pareceu um homem em profunda dependência e apavorado face a uma saída de cena que tem todos os ingredientes para ser dramática no plano pessoal e político. Um homem "orgulhoso do trabalho feito", disse, porta estandarte da sua política, que passa ao lado do inferno que hoje oferece aos madeirenses, como se o bem-estar do povo pudesse ser medido através do consumo de cimento, de alcatrão e dos quilómetros de vias construídas. E é este homem cego pelo poder que, mesmo com as "calças na mão" e "vergado às exigências" de Lisboa, tem o atrevimento de falar da oposição, designando-a de "incompetente" e "detratora" e mais, que a culpa de tudo isto é dos "socialistas". Como se, alguma vez, os socialistas tivessem governado a Região! Curiosamente, foram os socialistas, em Lisboa, por mais de uma vez, que lhe puxaram as calças para cima. Lembro-me, por exemplo, dos 110 milhões de contos do governo do Engº António Guterres que ajudaram a colocar, quase a zero, o taxímetro das contas regionais. É este homem que não reconhece o erro e o dramatismo da situação dos madeirenses e porto-santenses, em todos os setores e áreas da governação, que ontem falou aos madeirenses. Foi uma intervenção patética, sem uma única palavra para as grandes mudanças a operar na economia para que seja possível gerar crescimento, sem uma única palavra para os desempregados, para os empresários, para as escolas e para os professores, para os profissionais de saúde, nada, apenas assisti a uma hora de um jogador de uma equipa goleada, remetendo-se à defesa e tentando chutar para longe e para fora a bola da incapacidade para jogar limpo e de forma credível.
A procissão das dificuldades ainda não saiu do adro. Os pobres ficarão ainda mais pobres. A classe média tenderá para a pobreza engrossando a fileira dos dependentes do Rendimento Social de Inserção e dos apoios das instituições de solidariedade social, não apenas para combater as necessidades primárias, mas para satisfazer compromissos de pagamento da habitação, créditos e outros. A emigração disparará. Centenas de funcionários públicos verão os seus postos de trabalho ameaçados. As filas no Instituto de Emprego aumentarão exponencialmente sem que tenham possibilidade de resposta aos pedidos de emprego. A saúde e a educação entrarão numa fase de total angústia e de colapso. O sector farmacêutico será atingido com morte anunciada para muitas farmácias. E o pior de tudo isto é a natural agitação social que se seguirá pelo crescimento do desespero no seio das famílias. E perante tudo isto não se vê vivalma no partido deste senhor a dizer-lhe basta. Continuam em uma esquisita proteção e amenizando o dramatismo, certamente com receio de perderem os pequenos poderes e benesses que desfrutam. Aquelas caras que ontem vi, eles próprios deveriam visionar a conferência de imprensa para perceberem que a tragédia tem rostos identificados e que outros da mesma família política não são a solução, simplesmente porque foram sempre cúmplices desta mesma tragédia.
Ilustração: Google Imagens.

5 comentários:

António Trancoso disse...

Meu Caro Amigo
Simplesmente DEPRIMENTE!
Assistiu-se à Rendição Incondicional da Autonomia, como se fora o corolário de muitas "vitórias" eleitorais!!!
Permita-se-me,aqui,uma palavra dirigida aos senhores jornalistas que deram cobertura àquela farsa:
Para quando responderem à letra à arrogância e à grosseria de um ditadorzeco idiota, que os trata como lacaios,pondo e dispondo, de dedo em riste,da capacidade e do dever deontológico de colocar,livre e incondicionalmente,as questões que entenderem como pertinentes?
Um Jornalista,no exercício das suas funções,é muito mais que um vulgar cidadão;é o elo que permite a reflexão da Opinião Pública. E, esta,é,ou deveria ser,muito mais importante que um qualquer indigitado (pago por todos nós)para gerir com Correcção e Bom-senso o património de todos.
Um abraço.

João André Escórcio disse...

Caríssimo,
Oxalá que a sua mensagem fosse lida e assumida por todos os que têm a importante missão de informar.
Um abraço.

Vilhão Burro disse...

Senhor Professor
Tenho feito um grande esforço para libertar-me do labéu que o meu sobrenome implica,e,daí,o seu desejo que a "mensagem" do seu amigo,sr.Trancoso,"fosse lida e assumida (...)",por associação de ideias,me levasse a reler uma outra Mensagem; a do Fernando Pessoa.
Permita-me que,aqui,reproduza um seu notável poema,estabelecendo a leitura interior com as seguintes correspondências:
Adamastor-O ditador cá do sítio; D.João II- A Liberdade Democrática;
O Homem do Leme - O Jornalista.
"O MOSTRENGO
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Um bom Domingo para o Senhor Professor.

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Não deixa de ser caricato o facto de antigamente, quando as coisas lhe corriam de feição, Jardim aparecer sempre só, em toda a sua glória. Era o único importante e mais ninguém se podia aproximar, para o seu brilho ser ainda maior.
Agora, com as caçças na mão, vergado como uma vide podre, aparece acompanhado dos seus mais directos apaniguados.
Que diferença!
Lá diz o ditado: "perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha".

João André Escórcio disse...

Caríssimo,
Ele deu um sinal do tipo: vou para o fundo, mas vocês vão comigo. Daí a cara de funeral dos restantes...