quinta-feira, 15 de março de 2012

UM GOVERNO QUE VÊ O FILME AO CONTRÁRIO



Olho para aquele naipe de governantes e interrogo-me: como é possível aturar estas figuras, com discursos repetitivos, que fogem às questões, que citam Einstein com um desplante e insensibilidade social arrepiante, que não trazem nada de novo e que apenas querem manter o poder. Isto tem de ter um fim, mesmo que os muros sejam muito altos. Esta acomodação, estes silêncios enervantes, este discurso de hoje do presidente do governo que foi mais do mesmo, esta monumental mentira política que foi construída, esta pobreza que cresce, este desemprego que não pára, então tudo isto não terá de ter um fim? Terá concerteza! O filme, mesmo sem legendas, será compreendido por todos, mesmo por aqueles que agitam bandeiras naqueles jantares à borla.


Shakespeare: words, words, words, nothing, but words.
Um orçamento criminoso de um governo insensível ao quadro dramático com o qual a Madeira se confronta. Quem o desenhou e quem o aprovou em sede de governo e quem o aprovou em sede de plenário da Assembleia, assume, também o epíteto de criminoso político. É impressionante como tentaram dar a volta à realidade, a avaliar pela forma como os discursos foram produzidos pelos secretários e esta manhã pelo presidente do governo, com cambalhotas e aterradores números de ilusionismo, como se todos não estivessemos a ver o filme. Não tenho a certeza de já aqui ter contado, e se contei foi há muito, pelo que a essa história regresso. Em uma da minhas passagens por Bissau, após uma longa estada no mato, em Guilege de má memória, o clube de oficiais, em Santa Luzia, dispunha de uma piscina e de um extenso relvado. Ao Sábado, colocavam dois grandes mastros nos muros que circundavam o espaço, estendiam uma espécie de tela suficiente para passar um filme. Os militares e famílias, em cadeiras de praia, estendiam-se pelo relvado e assistiam, no meio daquele calor infernal, a uma sessão de cinema. Era agradável. Do lado de fora dos muros, já na tabanca, aglomeravam-se centenas de nativos sentados no chão que seguiam o filme com as imagens, obviamente ao contrário. A maioria não sabia ler e, portanto, pouco interessava se tinha ou não legendas e se as imagens eram seguidas inversamente ao que nós, confortavelmente, víamos. Em síntese, eles viam o filme!
Ora, na Assembleia, com o devido respeito pelo Órgão, o que lá se passou deixa transparecer a sessão de cinema na Guiné-Bissau. O Plano e Orçamento para 2012 foi aprovado, embora com 23 deputados a dizerem muito mal do filme, mas fora daquela "tabanca" em jeito de hemiciclo, a ideia que fica (os tempos mais próximos o dirão) é que temos uma população que olha para aquilo e pouco ralada está com as legendas ou se as figuras se movimentam da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. Sabem que estão a seguir uma coboiada, mas o enredo da história e se o xerife tem razão ou não, para já denunciam que não estão para aí virados. Mas vão estar. Não levará muito tempo e poderão saltar o muro para verem o filme tal qual foi produzido. E responsabilizará o produdor-realizador. É difícil essa movimentação, eu sei, até porque ao longo de trinta e tal anos, construíram muros muito altos, com muitos arames e colocaram, por todo o lado, muitos seguranças ou válvulas de segurança. 
A verdade é que, ainda hoje, olhei para aquele naipe de governantes e interroguei-me: como é possível aturar estas figuras, com discursos repetitivos, que fogem às questões, que citam Einstein com um desplante e insensibilidade social arrepiante, que não trazem nada de novo e que apenas querem manter o poder? Isto tem de ter um fim, mesmo que os muros sejam muito altos. Esta acomodação, estes silêncios enervantes, este discurso de hoje do presidente do governo que foi mais do mesmo, esta monumental mentira política que foi construída, esta pobreza que cresce, este desemprego que não pára, então tudo isto não terá de ter um fim? Terá concerteza! O filme, mesmo sem legendas, será compreendido por uma outra maioria, mesmo por aqueles que agitam milhares de bandeiras naqueles jantares à borla.
Os discursos desta manhã dos dois representantes do PSD (do líder do grupo parlamentar, senhor Jaime Ramos e do Presidente do Governo, Dr. Alberto João Jardim), foram muito claros quanto à ausência de respostas para os problemas que a Madeira tem para resolver. Do líder do grupo parlamentar do PSD retive as seguintes palavras-chave: covardes, vendilhões do templo, corruptos, traidores, comentadores de meia tijela, gente falsa, medíocres, hipócritas, arruaceiros, mercenários, mentirosos, carácter de malvadez, betinhos, mentes colonialistas; do Dr. Jardim, fiquei com a sensação que se tratou de um copy-past, com algumas naturais adaptações, dos discursos dos anos anteriores. Pobre, muito pobre, porque voltado para o passado, para o ataque às pessoas que se lhe opõem e, portanto, sem uma leitura do atual quadro e respetivas saídas da situação que garantam prosperidade para os madeirenses e portosantenses. Um discurso que repete o passado, dele apenas se pode esperar a repetição dos mesmos erros no futuro. Enfim, o governo continua a ver o filme ao contrário! 
Ilustração: Google Imagens.

4 comentários:

Violante Saramago Matos disse...

Lembro-me sempre que minha avó tinha, na sabedoria dos seus muitos anos, uma expressão muito engraçada sempre que eu me queixava de que algumas colegas eram mal educadas. Dizia ela: o boneco, minha filha, o boneco.
E o que era o boneco?
Agarra-se num lenço de assoar (limpo já agora, abre-se e puxa-se pelo centro, ficando, portanto, com as pontas caídas. Depois aperta-se pelo meio, torce-se um bocadinho para se poder aguentar de pé e põe-se em cima da mesa. E deixa-se o malcriado literalmente a falar para o boneco. Podem experimentar. Garanto que o jaiminho subia pelas paredes. Abraço

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Se acontecesse o contrário do que aqui conta é que seria de estranhar.
Eles querem fazer crer que continua na mesma. Mas só se engana quem quer ser enganado.

João André Escórcio disse...

Obrigado, Violante, pelo teu comentário.
Era necessário que toda a oposição, mesmo que de forma pouco elegante, tomasse uma atitude dessas. O Povo tem de perceber que está a ser ludibriado. Até quando suportará?

João André Escórcio disse...

Caríssimo Coronel,
Será que esta gente, refiro-me ao governo, não tem um espelho, ou será, apenas, uma questão de MEDO pela perda dos pequenos poderes que, circunstancialmente, detêm?