quinta-feira, 21 de junho de 2012

LAPÓNIA E A CONVERSA IMPOSSÍVEL COM O PAI NATAL


Sabe, Santa Claus, neste momento, onde vivo e reino, todos dispensam brinquedos. Aliás, continuou, estou há 36 anos a brincar com os meus conterrâneos, eles estão fartos de carrinhos da bomba, de plasticinas (uma grande parte já usa, inclusive, na coluna), de bonecos movidos a pilhas, que lá se designam por deputados, enfim, o que eu preciso, de facto, é de um chequezinho de oito mil milhões de euros para colocar aquilo a zero. Evitava estar com maçadas, sacos pesadíssimos, tanto trabalho e desgaste para as suas renas no transporte de tanta tralha que eles não apreciam e estão fartos. O Pai Natal terá escutado, continuou a nossa fonte, com toda a deferência e retorquiu entre os bigodes e barbas: mas, meu caro, que fizeste ao dinheiro que eu, durante anos para lá enviei? Por quem os distribuíste e com que critérios? Dizem-me que uns estão gordíssimos e a maioria muito magra, não é verdade? Meu caro, continuou Sant Claus, o Natal é para todos, a papinha é para todos e por igual, a educação de nível superior não é apenas para alguns privilegiados, ainda por cima dizem-me que aplicaste taxas aos que têm direito à saúde, fechaste escolas e que deixaste as empresas sem cêntimo, não é verdade, e que, ainda por cima, fazes um jogo indecente com um pasquim qualquer? Sabes, enquanto Pai Natal, participo na Festa do nascimento de Cristo, mas não tolero malandragens. É contra os meus princípios...

Notícia de ontem do DN-Madeira, sobre a viagem do presidente do governo regional à Lapónia, ao contrário de qualquer desconfiança ou especulação, inclusive, no valor de oito a dez mil euros que terá custado, julgo que teve a sua razão de ser. Ao estado a que ele levou a Região, penso que só com uma intervenção do Pai Natal. E esta viagem foi no tempo certo. A seis meses do "sapatinho" houve que elencar os pedidos, sintetizá-los por grupos, convertê-los em moeda corrente e entregar a carta, pessoalmente, a Santa Claus. E, pessoalmente, porquê? Simplesmente porque há situações que têm de ser concretizadas olhos nos olhos e com uma explicação que dificilmente seria compreendida de outra forma. Uma carta a explanar os 36 anos de sucessivas maldades e pedidos de desculpa teria, certamente, milhares de páginas, e Santa Claus, como é óbvio, tem muitas para ler face à impiedosa loucura dos "meninos de coro", de Bruxelas a Berlim, entre outras paragens deste conturbado Mundo. Seria mais uma, eventualmente para não ser lida, como são as muitas que lhe chegam sobretudo de África. E nós estamos, geograficamente, num paralelo de África.
E lá foi, segundo o DN, envolto num grande secretismo, até à Lapónia, com algumas escalas para ganhar alento. Dizem-me que o encontro não terá decorrido bem, apesar do viajante ter, insistentemente, sublinhado que tem comido a papa toda e que tem dado muita papa a alguns. Com um olhar meio enviesado, porque há relatórios elaborados, Santa Claus deixou o marfim correr até ao ponto de perguntar-lhe, afinal, a que se devia o facto de viajar de tão longe, a seis meses de distância, para este encontro pessoal?
Segundo fontes próximas do Pai Natal, o viajante, habituado aos salamaleques quando se sente apertado, foi directo ao assunto. De mãos para o céu, num exercício muito semelhante à foto com o Engº Sócrates, lá foi dizendo: sabe, Santa Claus, neste momento, onde vivo e reino, todos dispensam brinquedos. Eu tenho aqui uma lista. Aliás, continuou, estou há 36 anos a brincar com os meus conterrâneos, eles estão fartos de carrinhos da bomba, de plasticinas (uma grande parte já usa, inclusive, na coluna), de bonecos movidos a pilhas, que lá se designam por deputados, enfim, o que eu preciso, de facto, tudo somado, é de um chequezinho de oito mil milhões de euros para colocar aquilo a zero. Evitava estar com maçadas, sacos pesadíssimos, tanto trabalho e desgaste para as suas renas no transporte de tanta tralha que eles não apreciam e estão fartos. O Pai Natal terá escutado, continuou a nossa fonte, com toda a deferência e retorquiu entre os bigodes e barbas: mas, meu caro, que fizeste ao dinheiro que eu, durante anos para lá enviei? Por quem os distribuíste e com que critérios? Dizem-me que uns estão gordíssimos e a maioria muito magra, não é verdade? Meu caro, continuou Santa Claus, o Natal é para todos, a papinha é para todos e por igual, a educação de nível superior não é apenas para alguns privilegiados, ainda por cima dizem-me que aplicaste taxas aos que têm direito à saúde, fechaste escolas e que deixaste as empresas sem cêntimo, não é verdade, e que, ainda por cima, fazes um jogo indecente com um pasquim qualquer que ofende padres? Sabes, enquanto Pai Natal, participo na Festa do nascimento de Cristo, mas não tolero malandragens. É contra os meus princípios...
Pois, replicou o viajante, isso são coisas da maçonaria, eu bem andava desconfiado que andavam a envenenar, a inventar e a escrever, mas quero que saiba que tudo isso é mentira, são facadas nas costas, e por isso mesmo senti a necessidade de aqui vir, pessoalmente, explicar tudo. Eu não digo, Pai Natal, que não houve muitos que engordaram, mas prometo que, a partir de agora, tudo será diferente. Santa Claus retorquiu peremptoriamente: E quantas vezes já disseste isso ao longo dos 36 anos que por lá andas, a brincar, conforme disseste?
Bom, Santa Claus, pelos meus pecadilhos, podem ser seis mil milhões e não falamos mais nisso. Afiançaram-me que o homem das barbas brancas, agastado com a conversa e com a ausência de respostas convincentes, serena e simpaticamente, terá dito, do alto da sua sabedoria e experiência: aconselho-te a passar pela Suíça, regressa ao Funchal e demite-te. A minha bondade tem limites.
Ilustração: Arquivo pessoal e Google Imagens.

2 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Felicito-o por este belo momento de humor. Cáustico mas subtil.
Mas convenhamos que o Grande Timoneiro já não tem outro recurso que não seja o Pai Natal. Só ele lhe pode valer.
E o povo superior/pata-rapada pode assim dormir descansado, porque já há uma nova esperança.
Aguardemos pela quadra natalícia.

João André Escórcio disse...

Muito obrigado pelo comentário e pelas felicitações.
Como sabe, muitas vezes só um toque de humor refinado faz esbater outro tipo de sentimentos.
Um abraço e, uma vez mais, obrigado.