terça-feira, 3 de julho de 2012

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA EM RODA LIVRE


Não aceito, por isso, a vergonhosa intervenção da força policial, como a foto demonstra, que apenas ajudou à contínua descredibilização da Assembleia e ao crescimento de uma vontade de vingança sobre quem está na causa dos problemas. Eu receio que a situação descambe por ausência de bom senso e por falta de inteligência política. A Assembleia é apenas mais um elemento a juntar ao descontentamento. A maioria não pode esquecer-se que tem os dias contados, porque está em evidente declínio, não pode esquecer-se que há muita gente a passar mal, desde empresários a desempregados, que a fome está a alastrar e a pobreza a atingir proporções inimagináveis. Tudo isto pode constituir uma bomba com explosão iminente e, depois, pode acontecer aquilo que ninguém deseja: a instabilidade social, o confronto e a caça às bruxas. Não quero ver isso na minha terra. A vergonha daquela PREMEDITADA intervenção policial não pode passar em claro. Há aqui responsabilidades a apurar, umas directas e outras indirectas. O Senhor Presidente da República tem o dever de pronunciar-se (...)


Eu que sou pela ordem, perante isto,
apenas uma palavra relativamente à actuação
da polícia a mando da Assembleia:
VERGONHA.
Espero que o Presidente da República
assuma uma posição clara e inequívoca.
O que se passou naquela sessão partidária, dita solene, no Dia da Região, no interior daquela tenda montada em S. Vicente, foi deprimente e cataloga bem o estado a que chegou o primeiro órgão de governo próprio. Não falo sequer das intervenções, que cada vez mais parecem pensadas e concretizadas à imagem da União Nacional ou de uma qualquer reunião de um comité central de qualquer coisa, onde as figurinhas aparecem todas sentadas, alinhadas e com palmas em simultâneo, mas falo do que lá se passou com Deputados eleitos pelo povo, corridos de forma VIOLENTA pela Brigada de Intervenção Rápida da PSP. É este o quadro que me interessa analisar.
Interessa-me as causas e não as consequências. Interessa-me perceber os motivos que estão na origem e atacá-los, por forma a que cenas daquela natureza não aconteçam. E as causas encontram-se no modelo claramente partidário que a maioria PSD fez aprovar e que configura a sessão organizada pela Assembleia Legislativa da Madeira. Sejamos claros: não comemoram o 25 de Abril para que os Deputados da oposição não possam falar, para que não se escute a voz de uma significativa parte da população eleitora; no Dia da Região, transformaram a sessão que deveria ser de todos os madeirenses, numa sessão abusivamente partidária, sectária, intencionalmente manipuladora das consciências, repugnante à luz dos princípios que emergem da Democracia. Essa é causa maior que conduziu, pela segunda vez consecutiva, a uma situação que nada teve de solene. No plano pessoal obviamente que nunca teria, se fosse Deputado, o comportamento político do Deputado José Manuel Coelho. Prefiro ignorar os que pensam ser donos da Autonomia e lamento, em 2011, ter participado naquela sessão fantoche. Fi-lo porque essa foi a decisão que emanou da direcção política do PS. Hoje lamento a minha presença. E bem estiveram vários partidos que, este ano, não participaram na sessão. E assim deverão continuar enquanto se mantiver este modelo. 
Dizia eu que não seria capaz de uma atitude como a do Deputado Coelho. Mas admito que, POLITICAMENTE, a contestação àquela sessão que é, fundamentalmente, dos DEPUTADOS e não dos convidados, seja feita presencialmente e em alto e bom som. Ora, prevendo-se o extremar de posições, penso que, em devido tempo (a Assembleia teve um ano para corrigir o processo), o bom senso deveria ter prevalecido entre a maioria política PSD que aprovou as características daquela sessão. E o bom senso determinaria, uma sessão comemorativa onde TODOS os grupos e representações partidárias pudessem participar. Tão simples quanto isto. Bastaria que deixassem à porta da Assembleia o quero, posso e mando, assumissem que a democracia envolve um conceito de participação e aceitassem o princípio que a verdade é múltipla. Ninguém é dono dela. A complementar tudo isto, o pedido aos deputados para a assunção da diferença, demonstrando elegância nas intervenções, no quadro da pluralidade do pensamento político, sempre na perspectiva da dignificação da imagem pública da Assembleia.
Aquelas são as causas, as consequências são as conhecidas. Não aceito, por isso, a vergonhosa e revoltante intervenção da força policial, como a foto demonstra, que apenas ajudou à contínua descredibilização da Assembleia e ao crescimento de uma vontade de vingança sobre quem está na causa dos problemas. Eu receio que a situação descambe por ausência de bom senso e por falta de inteligência política. A Assembleia é apenas mais um elemento a juntar ao descontentamento. A maioria não pode esquecer-se que tem os dias contados, porque está em evidente declínio, não pode esquecer-se que há muita gente a passar mal, desde empresários a desempregados, que a fome está a alastrar e a pobreza a atingir proporções inimagináveis. Tudo isto pode constituir uma bomba com explosão iminente e, depois, pode acontecer aquilo que ninguém deseja: a instabilidade social, o confronto e a caça às bruxas. Não quero ver isso na minha terra.
A vergonha daquela PREMEDITADA intervenção policial não pode passar em claro. Há aqui responsabilidades a apurar, umas directas e outras indirectas. O Senhor Presidente da República tem o dever de pronunciar-se, remetendo à Assembleia uma MENSAGEM e exercer o seu magistério de influência no sentido da correção das causas. É tempo de deixar de assobiar para o lado. O Presidente da República lembrar-se-á, certamente, dos "secos e molhados" quando era primeiro-ministro. Quando mandou a polícia atacar a polícia. Está nas suas mãos evitar que os secos de ontem (entenda-se, hoje, Assembleia e Governo da Madeira) passem aqui à situação de molhados, porque o cumprimento de uma ordem pode ter limites.
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

A propósito dos resultados conseguidos por Coelho nas presidenciais do ano passado, inseri aqui um comentário dizendo mais ou menos isto: os partidos da oposição terão de meditar sobre o assunto e o panorama político madeirense nunca mais será o mesmo.
Com efeito, apesar dos resultados "coelhistas" não serem brilhantes nas últimas eleições para a ARL, Coelho soube dar "a volta ao texto" e criar um novo estilo de oposição que, a meu ver, está a dar excelentes resultados. Pelo menos, para lá de as broncas governamentais terem passado a ser notícia no Continente, Jardim deixou de poder passear-se à vontade nos seus domínios e só sai à rua com forte escolta policial. O que já não é pouco.

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário.
É evidente que este estilo de oposição retira dividendos políticos. Preferia que outro fosse o caminho, capaz de romper com este estado de pouca-vergonha governativa.
Manhosamente, esta manhã, o PSD fez aprovar um diploma que concede benefícios aos deputados que passem à condição de independentes. Ora, sendo conhecidas as tensas relações do PTP regional com a estrutura nacional(!), a aprovação deste diploma pode significar, repito, pode, o apoio do PSD (que engole em seco diversas situações) a outras estruturas políticas com vocação de poder, retirando-lhes votos necessários. E assim o regime eterniza-se, porque esses votos não saem do PSD, mas dos partidos, eventualmente à esquerda.
Tudo isto é muito complexo e, de certa forma, tenebroso!