sábado, 21 de julho de 2012

TAL COMO OS CHAPÉUS... PARECERES HÁ MUITOS!


O próprio ministro veio ao Funchal, participou num briefing e, logo depois, assumiu que não faz sentido a utilização de meios aéreos no combate aos fogos. Não me parece que tenha solicitado o resumo de um qualquer estudo. Falou pela boca dos outros e com um ar convincente. Ora, esta forma de actuação acaba por não causar estranheza. Se olharmos para o comportamento político do governo regional da Madeira, o sentimento que fica é o de uma navegação (leia-se governação) à vista. Se em tantos sectores e áreas de actividade política foram incapazes de governar através dos instrumentos de planeamento necessários ao crescimento e desenvolvimento sustentáveis, pergunto, o que esperar do governo em matéria de cultura de segurança? O que esperar de um presidente do governo que, expressão sua, diz que temos de conviver com o perigo!

 
O assunto tem barbas: sim ou não à utilização, na Madeira, de meios aéreos no combate aos fogos. Lembro-me de uma discussão deste assunto na Câmara do Funchal, quando por lá passei como Vereador. Na altura, um dos argumentos, para além das justificações técnicas, baseava-se no facto de serem meios muito dispendiosos. Tenho presente ter perguntado sobre o que era mais caro: combater de imediato nas zonas onde a sua utilização fosse possível, embora com elevados encargos, ou esperar 15, 20 ou mais anos pela reflorestação. Bom, certo é que até hoje, pelo que se depreende, continuam a não existir estudos, repito, ESTUDOS, que determinem a sua eficácia e o seu custo-benefício. E quanto a PARECERES há muitos, desde os sérios e cientificamente fundamentados, àqueles cujo texto é elaborado à medida dos interesses de quem os paga. O que se exige é um ESTUDO e não um parecer ainda por cima vago. Tanto assim é que, ainda ontem, a edição do DN-M deu a conhecer a posição de alguns pilotos de empresas especialistas contrária ao parecer hoje enunciado, sendo elucidativa a entrevista com Fernando Curto, presidente ANBP, também de sinal contrário. Eu que nada percebo em matéria de segurança deixo para quem saiba. Só que não vou em PARECERES solicitados pelo governo. Enquanto cidadão, tenho o direito de ser informado e esclarecido sobre as zonas onde é possível a sua utilização e as desaconselháveis. Disso não abdico. Trata-se de segurança. A Câmara continua com muitas dúvidas sobre o assunto, a Protecção Civil denuncia fragilidades e há ainda outros que dão a entender que falam pela boca dos outros. O próprio ministro veio ao Funchal, participou num briefing e, logo depois, assumiu que não faz sentido a utilização de tais meios aéreos. Não me parece que tenha solicitado o resumo de um qualquer estudo. Falou pela boca dos outros e com um ar convincente, grave e solene, como se dominasse a questão. Pura balela.
Ora, esta forma de actuação acaba por não causar estranheza. Se olharmos para o comportamento político do governo regional da Madeira, o sentimento que fica é o de uma navegação (leia-se governação) à vista. Se em tantos sectores e áreas de actividade política foram incapazes de governar através dos instrumentos de planeamento, necessários ao crescimento e desenvolvimento sustentáveis, pergunto, o que esperar do governo em matéria de segurança? Pareceres... O que esperar de um presidente do governo que, expressão sua, diz que temos de conviver com o perigo! Não tenho ilusões sobre esta matéria, pois nem os sucessivos desastres, refiro-me a aluviões e incêndios, serviram de alerta, de campainha de alarme para a necessidade de redobrados cuidados com a segurança. Pelo contrário, todos quantos de uma forma científica alertaram foram vilipendiados pela afiada língua dos governantes. O programa "Pedras que Falam", do Engenheiro João Batista, emitido pela RTP-Madeira, demonstrou à saciedade os erros de planeamento e a total ausência de respeito pela segurança das pessoas e bens. E o que dizer dos sucessivos alertas, ao longo de muitos anos, do geógrafo e ambientalista Dr. Raimundo Quintal? E os alertas da Quercus? Nem a aluvião de 2010 que causou a morte a quase meia centena de pessoas conseguiu mexer na consciência governativa. Nem os devastadores fogos desse ano serviram para a necessidade de uma profunda reflexão e estudo no que concerne à viabilidade de um combate compaginado com meios áreos. E sendo assim, pergunta-se: poderá a população esperar atitudes adequadas quando o governo não está para essas bandas virado? Resolver-se-ão apenas com pareceres? Que cultura de segurança pode existir no quadro da responsabilidade cívica, quando os governantes se manifestam mais preocupados com o poder pelo poder, com a vaidade, a sobranceria e o controlo de toda a sociedade? Uma vez mais ficou provado que têm de ser postos a andar.
Ilustração: Google Imagens

4 comentários:

Vico D´Aubignac (O Garajau) disse...

Senhor Professor,

Basta o cenário surreal de uma Madeira a ser consumida em mais de 50% pelo fogo: garanto que os aviões e helicopteros viriam; em alternativa, e a crer obstinadamente no estudo de Coimbra, nesse cenário,teriam que nos enviar canoas para escaparmos para as Desertas!
Gente absolutamente ridícula!!

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário.
É verdade que tudo isto é ridículo. Trinta e tal anos depois, quando a História alerta para tantos riscos, continuamos sem uma cultura de segurança. A imagem que fica é a de um governo que corre atrás do prejuizo e que administra a coisa pública com documentos elaborados em cima do joelho. Isto deveria levar-nos a repensar tudo e a colocar tudo em causa.
Um bom fim-de-semana.

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Tanto quanto me foi dado conhecer da parte de pilotos da Força Aérea (como se sabe NÃO é uma instituição para fins lucrativos...), o emprego de meios aéreos no combate a incêndios na Ilha da Madeira, é muito problemático, quer por causa das dificuldades do voo em si, da precisão dos lançamentos e das dificuldades de reabastecimento de água. Em resumo, o que me disseram coincide grosso modo com o parecer de que fala aqui. Ou seja, não sendo a técnica impossível, não compensa em termos de custo/eficácia.
É bom não esquecer que há muitos interesses da parte dos potenciais fornecedores desses serviços que, naturalmente, prometem tudo e mais alguma coisa.
Mesmo no Portugal continental o emprego de meios aéreos não tem sido cristalino e foram verificadas muitas irregularidades, nomeadamente nos contratos e, inclusivamente, na utilização de helicópteros em passeios turísticos com os amigalhaços, como aconteceu há poucos anos na região do Douro.
Pessoalmente, custa-me a perceber porque é que essas missões e respectivos meios não são cometidos à Força Aérea. Para mim é um grande mistério...

João André Escórcio disse...

Caríssimo, a questão é essa, porque não existem estudos, acabamos por ficar confrontados com opiniões. Já me disseram isso, mas também já me disseram o contrário e com um exemplo: é diferente ir para um vale com um helicóptero ou outro aparelho, relativamente a apagar um fogo na Ponta do Pargo ou no Paul da Serra.
Enfim... como referi no meu texto, eu que nada disso percebo e, ainda por cima, como o meu Caro salientou e bem, há empresas pouco cristalinas nos procedimentos, continuo a pensar que se justifica um sério estudo que coloque um ponto final nesta matéria. Eu gostaria de saber as possibilidades de utilização e o custo/benefício.
Mas, ainda mais importante, certamente que é a PREVENÇÃO e uma CULTURA DE SEGURANÇA que não existe.