quarta-feira, 1 de agosto de 2012

EXPLIQUEM AO PRESIDENTE PARA QUE ELE NÃO DIGA ASNEIRAS


Depois falou do mar: nós temos mar, nós temos bom tempo, penso que, principalmente, na natação, nos desportos náuticos podíamos ter bons resultados. Ora, convinha que alguém dissesse ao presidente do governo que a natação, afora a competição nas designadas "águas abertas", faz-se em piscinas que, curiosamente, na Madeira, não dispõem de gás para o seu funcionamento! Mas naquela preocupação pelo mar, que também nutro, pergunto, que fez ele, durante 36 anos, pelo acesso ao mar e pela prioridade dos desportos náuticos, relativamente às seis dezenas de modalidades praticadas e apoiadas na Região? Que política desportiva teve no sentido de maximizar o principal estádio desportivo (mar) que não tem sequer encargos de manutenção?


Como é que um político que não soube definir os princípios orientadores dos sistemas educativo e desportivo na Madeira pode ter moral para falar de uma "revisão" do movimento olímpico português e de toda a organização do desporto em Portugal? É como se eu desatasse aqui a escrever sobre energia nuclear. Não sei, não escrevo e não falo. Oiço, quanto muito. Ou, então, no caso de querer fazer uma abordagem, teria de realizar um esforço de profundo estudo, mesmo que de forma autodidacta, para poder, minimamente, tecer considerações com credibilidade. Mas o presidente do governo, que levou o sistema educativo (desporto escolar) e o sistema desportivo (associativismo federado) ao nível da indigência e falência, tal como estivesse no café, numa roda de amigos, manda uns palpites e arvora-se em conhecedor da matéria. Não tem emenda, talvez porque parte do princípio que, amanhã, já ninguém se lembra dos disparates ditos hoje. No encontro de ontem com duas centenas de crianças, melhor teria sido sentá-las junto da arara e contar-lhes uma historiazinha de avô para netos!
Mas tais considerações não têm nada de estranho, quantas vezes já falou de futebol, dos jogadores, treinadores e do rendimento da equipa do Marítimo, por exemplo. É um filme visto, só que, agora, em proporções muito maiores, porque são os JO que estão em causa. Vamos lá, sequencialmente, ao essencial das suas infelizes declarações. Disse: Portugal é "um país pequeno" que está "a competir com países de milhões de pessoas", apontando, a este propósito, o facto de a Madeira ter quatro atletas na competição, o que "é um milagre" (...) "quatro olímpicos em 270 mil pessoas, em proporção, dá mais olímpicos do que os Estados Unidos e a Rússia", declarou. Ora, aqui, cometeu dois erros de ignorância básica: primeiro, o facto de um país ser pequeno não significa que não tenha campeões olímpicos. Há várias formas de lá chegar. Podia aqui apresentar muitos exemplos. Deixo apenas um que tenho em memória, pelo facto de ter conhecido um campeão olímpico, nas olimpíadas de Seoul (1988), quando vivi, por dentro, os Jogos, era eu treinador do olímpico Paulo Camacho. Refiro-me ao Suriname, um país com 163.821 km2 e 570.000 habitantes. Nessa olimpíada, Anthony Nesty, do Suriname (naturalizado), nascido em Trinidad e Tobago, converteu-se no primeiro nadador negro a conseguir uma medalla de ouro olímpica, ao ganhar o grande favorito, o norte americano Matt Biondi, na prova dos 100 m. mariposa, prova que Paulo Camacho também competiu numa das séries. Anthony Nesty treinava nos Estados Unidos! Por isso, expliquem ao presidente que, lá vai, há muito, a tese de Coubertin que apontava para uma alargada base de praticantes para ter um campeão. Simplesmente porque uma coisa é o desporto educativo escolar que deve mobilizar muitos (descoberta de talentos), outra, o alto rendimento, cujo percurso é apenas para alguns talentos e sujeito a um rigoroso planeamento ao nível do percurso do atleta; segundo, refiro-me à contradição das suas palavras quando disse que se trata de um "milagre" a Madeira ter quatro atletas nos JO, quando comparado com os Estados Unidos e com a Rússia ao nível das respectivas populações. Desde logo só se pode comparar coisas comparáveis. É ridículo comparar a Madeira com os Estados Unidos ou com a Rússia. Portugal é que pode ser comparado e, ainda assim, tendo em atenção múltiplas variáveis. Repito, é ridículo! Para além disso evidencia que desconhece que cada modalidade desportiva tem regulamentos próprios de acesso e que existem quotas de participação, inclusive, por disciplina. Os Estados Unidos, por exemplo, hipoteticamente, pode dispôr de 20 atletas com os mínimos olímpicos numa modalidade, mas apenas um ou dois são apurados através de provas realizadas dentro do país.
Depois falou do mar: nós temos mar, nós temos bom tempo, penso que, principalmente, na natação, nos desportos náuticos podíamos ter bons resultados. Ora, convinha que alguém dissesse ao presidente do governo que a natação, afora a competição nas designadas "águas abertas", faz-se em piscinas que, curiosamente, na Madeira, não dispõem de gás para o seu funcionamento! Mas naquela preocupação pelo mar, que também nutro, pergunto, que fez ele, durante 36 anos, pelo acesso ao mar e pela prioridade dos desportos náuticos, relativamente às seis dezenas de modalidades praticadas e apoiadas na Região? Que política desportiva teve no sentido de maximizar o principal estádio desportivo (mar) que não tem sequer encargos de manutenção?
E falou, ainda, do apoio aos atletas de alta competição, dizendo que sem esse apoio não era possível ter atletas nos Jogos Olímpicos". Oh ainda presidente, se o João Rodrigues, o Marcos Freitas, o Alberto Paulo, a Helena Rodrigues, o Emanuel Gonçalves (paralímpicos) e Rodolfo Alves (paralímpicos) estivessem à espera daqueles que deveriam ser os verdadeiros, substanciais e atempados apoios regionais, ao longo da sua exigente preparação, estavam hoje em casa! Uma vez mais, expliquem ao presidente do governo quantos anos de atraso o governo tem nas transferências acordadas através de contratos programa (2007?). Expliquem que não existe nenhuma equipa técnico-científica multidisciplinar (regional) de apoio ao alto rendimento. Expliquem, genericamente, qual a participação do Comité Olímpico, dos clubes e das federações em todo o processo de preparação.  Expliquem que uma grande parte dos praticantes de rendimento elevado não dispõe de segurança após o seu percurso de atleta. Expliquem que os resultados ficam a se dever ao seu grande entusiasmo e amor ao que fazem e não a uma política desportiva devidamente concertada. Expliquem para que ele seja rigoroso. Às vezes é melhor estar calado.
Finalmente, disse estar "um pouco triste com a representação portuguesa". Pois, eu não estou um pouco triste, eu estou é desolado com o trapalhada conceptual, a falta de rigor, a ausência de conhecimento do presidente do governo, responsável primeiro pelo desastre que foi a sua política desportiva, quer no sistema educativo quer no desportivo.
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Jardim sempre soube muito bem governar... os outros!
E é por isso que chegámos a este descalabro.

João André Escórcio disse...

Caríssimo,
Sempre foi assim e por isso mesmo estamos a pagar a factura.