segunda-feira, 20 de agosto de 2012

INFELIZMENTE, A IGREJA ESTÁ COMPROMETIDA


Ora, quando o Doutor José Tolentino Mendonça diz: "(...) A Igreja não está imediatamente comprometida com nenhum tipo de regime ou governo", eu que aqui vivo e sendo o entrevistado, curiosamente, nascido em Machico, tal asserção deixou-me triste. Não quero entrar em uma reflexão à escala global, pois o que domino nessa matéria talvez seja demasiado frágil perante os argumentos do Padre Tolentino Mendonça. Mas entro numa reflexão à escala local e, aí, questiono se haverá, face aos factos, alguma dúvida sobre o compromisso político, repito, político, entre a Igreja local, a dos madeirenses e portosantenses, e o poder político vigente. Existe, Senhor Padre Tolentino Mendonça, de forma visível e sensível, espelhado num contrato em que cada uma das instituições sabe como se deve comportar perante a outra. Desde sempre, sem recuar muito no tempo, desde o Bispo Francisco Santana, Teodoro de Faria até António Carrilho. Os três últimos personificam a "venda" da Igreja de Cristo aos interesses políticos e partidários. Apenas dois entre muitos exemplos: aquela vergonha que se chama Jornal da Madeira e o caso do Padre Martins Júnior, também nascido em Machico.

 
Tenho a maior consideração e respeito pela figura do escritor, poeta, professor universitário e Padre Doutor José Tolentino Mendonça. Quem sou eu para dele falar. A imagem que retenho é de um intelectual de primeira água, com um percurso absolutamente irrepreensível. Conheci-o nos anos 90. Lembro-me, em 1993, termos tido um agradabilíssimo almoço, a meu convite, onde demoradamente falámos, em abstracto, de política, das cidades, das sociedades e dos homens. Guardo esse momento como de suculenta aprendizagem, face às abordagens então feitas e a profundidade de cada uma das suas frases e de cada uma das suas palavras. Foi um encontro onde assumi que temos dois ouvidos e uma boca, para alguma coisa! Interessava-me ouvir e beber conhecimento. Discretamente, anotei, pelo sentido intemporal das palavras, várias passagens do nosso diálogo, entre outras, estas: "há desumanidade nos direitos do Homem; não há uma dimensão económica à luz de objectivos culturais" (...) "não há um projecto colectivo que dinamize e aglutine o conjunto do corpo social". Passaram-se quase vinte anos e voltei a ler o que então registei, estas duas frases e esmiucei-as nas suas causas, palavra a palavra ou conceito a conceito. Por que tudo continua assim, vinte anos depois!
Bom, isto para dizer que o Padre Doutor Tolentino Mendonça, figura da Igreja e da cultura constitui para mim uma referência. Os livros, artigos e prémios com que foi distinguido, demonstram o seu valor intelectual. Ainda em 2012, pela Revista do jornal Expresso, foi considerado uma das 100 figuras portuguesas mais influentes. Mas isso não obsta que a minha consideração e estima pessoal me iniba de tecer um comentário, marginal, é certo, perante tão importante entrevista publicada na edição de ontem do Diário de Notícias de Lisboa. Particularmente, no que se refere a uma determinada declaração que, sinceramente, tive de reler, contextualizar para perceber se a minha primeira interpretação era ou não abusiva. Ora, quando o Doutor José Tolentino Mendonça diz: "(...) A Igreja não está imediatamente comprometida com nenhum tipo de regime ou governo", eu que aqui vivo e sendo o entrevistado, curiosamente, nascido em Machico, tal asserção deixou-me triste. Não quero entrar em uma reflexão à escala global sobre o posicionamento da Igreja, em termos abstractos, pois o que domino nessa matéria talvez seja demasiado frágil perante os argumentos do Padre Tolentino Mendonça. Mas entro numa reflexão à escala local e, aí, questiono se haverá, factualmente, alguma dúvida sobre o compromisso político, repito, político, entre a Igreja local, a dos madeirenses e portosantenses, e o poder político vigente. Existe, Senhor Padre Tolentino Mendonça, de forma visível e sensível, espelhado num contrato em que cada uma das instituições sabe como se comportar perante a outra. Desde sempre, sem recuar muito no tempo, desde o Bispo Francisco Santana, Teodoro de Faria até António Carrilho. Os três últimos personificam a "venda" da Igreja de Cristo aos interesses políticos e partidários. Apenas dois entre muitos exemplos: aquela vergonha que se chama Jornal da Madeira e o caso do Padre Martins Júnior, também nascido em Machico. Mas podia falar de outras graves fraquezas da Igreja madeirense que colocam em causa a independência, a separação de poderes no quadro do respeito mútuo. Eu sei que há muitos milhões em jogo na construção de novos templos e que quem paga a parte de leão obriga a outra a ajoelhar-se. Eu sei, mas então não se pode dizer que a Igreja não está comprometida. Está e prova-se com factos. Excluo, naturalmente, todos os apoios no quadro do notável serviço da Igreja relativamente ao combate à fome e à miséria, bem como no âmbito do sistema educativo. Pese embora seja avesso à "caridadezinha", porque parto do princípio que  compete aos governos organizar a sociedade no sentido do seu esbatimento. A pobreza não é uma fatalidade.
Por aqui fico, com todo o respeito que tenho por esta prestigiante figura madeirense, com quem aprendi e aprendo.
Ilustração: Google Imagens.

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