segunda-feira, 13 de agosto de 2012

LONDRES 2012 - OU MUDAMOS OU NÃO SAÍMOS DA CEPA TORTA


Colocam-se quatro questões centrais: desde logo, se a opção é pelo Desporto Educativo Escolar ou, teimosamente, o País continuará na Educação Física tradicional, embora com algumas pinturas de fresco, mas assente em pressupostos que a história do processo já demonstrou se encontrar completamente desadequado dos novos tempos; em segundo lugar o que se pretende do sector federado, mormente, se a sua actividade se centra no desenvolvimento da qualidade ou, por razões várias, continua apostado na quantidade; em terceiro lugar, que níveis de formação técnico-científica são necessários; finalmente, quais as prioridades, tipos e montantes dos apoios, escalonados no tempo, e que sistema de controlo acompanha o processo.

Terminou a primeira parte dos Jogos Olímpicos de Londres. Seguem-se os Jogos Paralímpicos (de 29 de Agosto a 9 de Setembro de 2012) aliás, também do máximo interesse. Desta primeira ronda, a mais visível e mais universal, para Portugal fica o registo de uma presença no pódium (medalha de prata) e um conjunto de importantes diplomas em função de outras tantas presenças em finais. Não vou aqui fazer um balanço à prestação dos portugueses, pois isso implicaria conhecer todo o processo, apenas pretendo tecer algumas considerações de natureza causal para um certo sabor amargo que os Jogos continuam, infelizmente, a trazer a todos nós. Não porque os Jogos se esgotem na luta pelas medalhas, mas porque, globalmente, há uma causa (ou mais) que subjaz a um certo desencanto. Porque faz parte do nosso orgulho enquanto povo sentirmo-nos representados ao mais alto nível e ali vermos subir a bandeira de todos nós ao som do Hino, projectado que fica o significado daquele esforço traduzido em glória. Estar entre os melhores constitui uma sensação indiscritível, para os atletas, para os treinadores, para os dirigentes e para todos nós, mas atingir o pódium é sublime. Compreende-se.
Mas em função do desencanto, a questão que se coloca é a de determinar, afinal, qual a caminho seguro que pode conduzir à glória: se através de um conjunto de opções estratégicas, onde cabe uma rigorosa definição de prioridades assentes em correctas estruturas de apoio, ou, na desorganização, do tipo "seja o que Deus quiser", esperando que alguma coisa acabe por cair na rede. A primeira, penso ser pacífico, é a opção que qualquer governo sensato deve procurar implementar. A presença nos Jogos, independentemente das medalhas, faz-se a doze, dezasseis anos. Entre três a quatro ciclos olímpicos. Não se pode chegar ao ano dos Jogos com a certeza que não os merecemos. Ora, é a partir da resposta à pergunta "onde queremos chegar" que devemos responder a duas outras perguntas: "onde estou" e que "caminho tenho de percorrer para lá chegar". O planeamento torna-se, assim, a chave do sucesso. Não que esse percurso conduza, inevitavelmente, às medalhas, mas é o sentido que deve ser percorrido para que as hipóteses de glória sejam maiores.
E aqui colocam-se quatro questões centrais: desde logo, se a opção é pelo Desporto Educativo Escolar ou, teimosamente, o País continuará na Educação Física tradicional, embora com algumas pinturas de fresco, mas assente em pressupostos que a história do processo já demonstrou se encontrar completamente desadequado dos novos tempos; em segundo lugar o que se pretende do sector federado, mormente, se a sua actividade se centra no desenvolvimento da qualidade ou, por razões várias, continua apostado na quantidade; em terceiro lugar, que níveis de formação técnico-científica são necessários; finalmente, quais as prioridades, tipos e montantes dos apoios, escalonados no tempo, e que sistema de controlo acompanha o processo.
Tudo isto tem, obviamente, muito que se lhe diga em termos conceptuais e organizacionais, mas este não é o momento para os desenvolver. Uma coisa é certa, na improvisação e manutenção dos erros, não poderão ser esperados no futuro outros resultados que não os do passado. Isto é, mais diploma menos diploma, mais medalha menos medalha. Ora, quando a Educação Desportiva curricular não existe e o Desporto Escolar é atirado para um lugar cada vez mais secundário, impossibilitando a descoberta de talentos, obviamente que, daqui a quatro anos, voltaremos chorar, não pela emoção do pódium, da bandeira e do hino, mas por aquilo que não fizemos.
É o próprio Presidente do Comité Olímpico, Comandante Vicente Moura que assume: "O sistema desportivo está obsoleto (...) há uma incapacidade em criar os meios para pôr a juventude e os portugueses a praticarem desporto". Lamentou que existam pouco mais de 400.000 federados em Portugal, muitos dos quais "nem praticam desporto", e disse que se está em "fim de ciclo" e voltou a defender uma "mudança de paradigma", para que os resultados desportivos não continuem a definhar, com reflexos disso mesmo no Rio de Janeiro. Entre as várias propostas, defendeu uma reformulação do Projeto de Esperanças Olímpicas, com bolsas pagas diretamente aos atletas e não às federações, que o COP pague diretamente as verbas aos treinadores, para evitar situações como a que se verifica com Mark Emke no remo, que haja maior controlo da ação das federações, com critérios mais exigentes para a atribuição de apoios, a implementação de um Programa de Deteção de Talentos, uma política mais efetiva do IPDJ no apoio ao "desporto de base" e uma efetiva promoção do desporto escolar (Lusa).A cerimónia de encerramento de ontem à noite demonstrou, aliás, as nossas fragilidades, depois de nove séculos de História. Podemos ser um território pequeno mas, certamente, podíamos ser muito melhores do que somos.
Ilustração: RTP hd - em directo.

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