quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O QUE ELE QUIS DIZER FOI QUE SE "LIXEM" OS PORTUGUESES


E por aqui, nesta Região que poderia ser de mil encantos? Temos a vergonha e a austeridade a dobrar. Não temos uma região de mil encantos, mas uma região de mil enganos. Gente que assumiu "que se lixe a Autonomia" porque o que interessa é a eleição seguinte, o controlo da sociedade, alimentar a ganância dos grupos económicos que, por seu turno, ajudam na sobrevivência política. Confundiram a palavra cimento com a palavra homem; crescimento com desenvolvimento; políticos com estadistas; acesso com sucesso na educação; investimento no associativismo com subjugação e liberdade com ditadura legitimada pelo voto.


Museu Nacional da Noruega
O norueguês Eduard Munch pintou, em um momento de profunda tristeza, angústia e dor pessoal em função das suas vivências familiares, um quadro a que deu o título de "O Grito" (O Desespero - 1895). Julgo que existem quatro pinturas, uma delas contemplei-a no Museu Nacional da Noruega, na cidade de Oslo. Em Maio deste ano, um dos quadros, pertencente a uma colecção particular, foi vendido por 91 milhões de euros, o que diz bem do valor desta obra do movimento expressionista. Mas não é nem o pintor nem do movimento que dá o mote a este texto, mas sim o simbolismo do grito, do desespero que invade milhares de madeirenses. Há, na minha perspectiva, uma aproximação entre o desespero de Munch e o quadro da vida real dos portugueses em geral e dos madeirenses em particular.
De facto, lendo ou escutando a comunicação social, observando os dados gerais e específicos da actual conjuntura, apetece soltar um grito perante o silêncio de uma sociedade sofredora, em desespero, sem força para enfrentar gente política insensível, matreira, mentirosa e aldrabona. Ouvir um primeiro ministro assumir: "não vamos anunciar pacotes de austeridade a seguir a pacotes de austeridade" e comparar com o que todos os dias acontece; ouvi-lo dizer que "está-nos a sair do lombo" ou, então, "que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal", bom, sobretudo estas últimas expressões destinam-se a situar tacticamente o discurso,  colocar-se ao lado do povo atraves de palavras simples, mas escondendo a verdade sobre o caminho que está a ser seguido. E esse caminho é o do "empobrecimento", claro e inequívoco, e da venda a retalho dos grandes sectores estratégicos nacionais. O que o primeiro ministro quis dizer é que se lixem os portugueses, porque a agenda oculta ao serviço da ideologia dominante dos grandes senhores da economia e das finanças da Europa e no Mundo estão em primeiríssimo lugar. Trata-se de um discurso primário, eu diria, politicamente reles e repugnante, porque assente no desmantelamento do Estado, na tendencial fragilização do povo que, por razões de subsistência quase primária, acaba por se demitir, prescindindo dos direitos, e ter de aceitar tudo, isto é, que lhe roubem no salário, que lhe exturcam os subsídios de férias e de Natal, que penalizem no IVA, no IRS, no IMI, imponham a precariedade e um código de trabalho perverso, impostos e mais impostos e, com uma distinta lata assumam "que nos está a sair do lombo". Do lombo de quem? Dos grandes ou dos pequenos? Da banca ou dos depositantes? Das grandes empresas e grupos económicos ou das pequenas e médias empresas? Um nojo, senhor primeiro ministro de uma coligação PSD/CDS, que parece vomitar ódio perante quem pouco ou nada tem. Aos poucos, esta gente está a colocar de joelhos um povo inteiro. Raios os partam! 
E por aqui, nesta Região que poderia ser de mil encantos? Temos a vergonha e a austeridade a dobrar. Não temos uma região de mil encantos, mas uma região de mil enganos. Gente que assumiu "que se lixe a Autonomia" porque o que interessa é a eleição seguinte, o controlo da sociedade, alimentar a ganância dos grupos económicos que, por seu turno, ajudam na sobrevivência política. Confundiram a palavra cimento com a palavra homem; crescimento com desenvolvimento; políticos com estadistas; acesso com sucesso na educação; investimento no associativismo com subjugação e liberdade com ditadura legitimada pelo voto. Construíram uma monumental teia e embora presos nos fios tecidos, embora descalços continuam a pavonear-se como se de smoking continuassem vestidos. Tudo com a benção de uma Igreja, genericamente, incapaz de tocar nas feridas que sangram. A Cruz tem que ser suportada mesmo que o peso do desespero seja enorme. A cantoria anda de adro em adro, de edição em edição do JM, apertando os parafusos do sistema que se vão soltando e, enquanto isto, aumentando o desespero à semelhança de Munch. Raios os partam! 
Como acreditar em gente desta que faz da política, lá e cá, um negócio nojento ao serviço dos seus interesses?
Ilustração: Arquivo próprio.

4 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

É como diz. Haverá solução?
A propósito, sugiro-lhe que visite o seguinte blogue: http://alma_lusiada.blogspot.pt
Penso que vale a pena.

João André Escórcio disse...

Caríssimo,
Tem de haver solução. Acredito "no conflito e reprodução". Hoje estamos em evidente conflito de posições que dará lugar, espero, à reprodução de um quadro político diferente e portador de futuro.

Anónimo disse...

Os 91 milhões do quadro vale tanto como Cristiano Ronaldo..Será um preço justo??

João André Escórcio disse...

Caro "Anónimo",
Compreendo a sua interrogação, mas é evidente que não sou, digamos, um avaliador de arte. Deixo para quem saiba. Referi-me, apenas, à simbologia de "O Grito" no actual contexto político.
Agora, relativamente ao desporto profissional, há valores de mercado que são "pornográficos". Enquanto que no primeiro caso é uma pessoa ou instituição particular a adquirir, no segundo, directa ou indirectamente, todos nós estamos a pagar.
Mas, enfim, na sua interrogação, será que quis dizer que o quadro valeria mais? É uma hipótese que não descortinei.
Obrigado.