segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO


"O que me incomoda mais é o mau uso do território. Veja o caso da ilha da Madeira, o que lhe aconteceu" - Siza Vieira, Arquitecto ao Jornal I. E, se outra fosse a disponibilidade financeira, a loucura certamente continuaria um pouco por todo o lado. Eu diria que o cimento para esta gente é o seu "Bllom", quando lhes falta sentem os sintomas da abstinência.
 
Aspiraram tudo!
Há que anos, tantos especialistas e não especialistas dizem o mesmo, que o território da Região Autónoma da Madeira não foi bem usado. Que mandaram os instrumentos de planeamento às malvas! Agora, foi o muito considerado e premiado Arquitecto Siza Vieira que se sentiu "incomodado", mas quantos alertas foram produzidos, em tempo de campanhas eleitorais, em debates e em momentos muitos especiais de tragédia e morte? Quantos programas já foram realizados, quantas análises e documentos foram produzidos, equacionando e divulgando o mau uso do território? Quantos alertas no sentido de não confundirem crescimento com desenvolvimento? Quantos licenciamentos de obras, umas desnecessárias, outras, perigosas, foram equacionadas e, perante as críticas e sugestões, o governo e a generalidade dos autarcas fizeram ouvidos de mercador? Não vou mais longe, olhemos para o aterro junto ao cais da cidade do Funchal, onde o governo quer ali gastar, perigosamente, 18 milhões de euros (fora a derrapagem...), em tempo de crise severa, quando a generalidade dos especialistas dizem constituir um erro que poderá sair muito caro à Região. Trata-se de um exemplo, de uma obra ainda por construir, a tempo de uma reflexão mais sustentada, mas não, a cegueira é total. E, se outra fosse a disponibilidade financeira, a loucura certamente continuaria um pouco por todo o lado. Eu diria que o cimento para esta gente é o seu "Bllom", quando lhes falta sentema abstinência. Aos que equacionaram, de forma técnica e científica as questões do ordenamento, a imagem que resta é que foram todos vilipendiados na praça pública, apelidados de ignorantes e ostracizados. Desde professores universitários a representantes de movimentos associativos, todos levaram pela medida grande. E temos o que temos, uma Região passada ao ferro nivelador da uniformidade face àquilo que nos deveria distinguir pela singularidade, perdida na voragem do lucro fácil.
E a questão que se coloca é esta: afinal, esta gente que governa não viaja, não vê os bons exemplos desde as grandes a pequenas cidades passando pelas localidades? Ou pensam que tudo isto terá de ser Maspalomas ou coisa semelhante? Não questionam e não escutam a voz dos especialistas? Não se interrogam sobre as características de uma terra que "vive" em grande parte do turismo? É, pois, impressionante a leviandade de 36 anos que tornou esta terra, cujo ponto forte deveria assentar na preservação da sua identidade, em uma tendencialmente igual a muitas outras. Salva-se, ainda, a riqueza da paisagem que não conseguiram tomar de assalto e essa maravilhosa obra das levadas (da Madeira Velha). Pessoalmente, choca-me que não tivesse existido bom senso, equilíbrio nas decisões e que a fúria inauguracionista em função dos actos eleitorais tivessem tomado conta do verdadeiro significado da palavra desenvolvimento. Fizeram "coisas", não criaram futuro e, hoje, estamos a pagar bem caro esse descontrolo, no campo da monstruosa dívida e no campo de uma terra que começa a não ser tão apetecível por quem a visita. O monumento criado pela natureza e que dispôs de uma intervenção racional durante muitos anos, nos últimos, esteve entregue nas mãos de uma tal "máfia boazinha" como pediu, em tempos, o presidente do governo regional que fossem para a Madeira os jovens da sua organização partidária. Porque não existem "máfias boazinhas" o estoiro da destruição está aí. Percebe-se, então, por que sempre se atiraram aos homens e mulheres de ciência, que razões sustentaram o facto de não querem outros a reflectir e a opiniar. Percebe-se. Percebem-se as razões porque muitos se agacharam. Qualquer pessoa minimamente atenta, percebe que houve muitos interesses a satisfazer, muitos correligionários a engordar à mesa do orçamento, muita gente agregada na teia do egoísmo e da conta bancária. Ai se houvesse justiça!
Ilustração: Google Imagens.

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