segunda-feira, 3 de setembro de 2012

NA CERVEJA ESTÁ A VERDADE


Isto acontece a quem perdeu a noção do seu tempo, que há um para estar e um para partir e que, se assim é em todas as actividades da vida, no exercício da política mais sensível é tal pressuposto. Só que a engrenagem é enorme, os interesses assentam em uma monumental rede que, mesmo não querendo, acaba por se tornar escravo de si próprio. Para além de um qualquer percalço na saúde, sempre de lamentar, o pior que pode acontecer a um político é não ter essa noção de tempo, no fundo quando o exercício da política não é entendido como um serviço público à comunidade, mas como um emprego ou como uma empresa onde é patrão. Que este incidente lhe dê para pensar, o que não acredito. Até disse, no discurso, que "o futuro está garantido"... Mas qual futuro? O dos empresários em situação de falência, o dos 23.000 desempregados? O dos professores, arquitectos, advogados e engenheiros que têm de emigrar? Não respondeu, apenas disse uma frase feita e descontextualizada!
 
 
Obviamente que não aprovo por dois motivos, um sério, outro com algum humor: em primeiro lugar, mesmo que  a figura institucional não mereça, repito, institucional, deve ser respeitada. Eu não suporto determinadas figuras no espaço regional e nacional, figuras que, politicamente, muito mal fizeram e fazem à população, mas seria incapaz de um gesto daqueles. Prefiro escrever, dizer o que penso, desgastá-lo através das palavras (se tal é possível), participar seja onde for, desde que o objecto vise manifestar contra a sua política. Preferia que o cidadão em causa lhe tivesse dirigido umas palavras duras à sua passagem como manifestação de desagrado perante a sua política; em segundo lugar, com quase trinta graus, não se desperdiça uma cerveja geladinha. Neste caso foram dois prejuízos: não matou a sede e terá problemas na tal Justiça forte com os fracos e fraca com os fortes.
Mas o gesto tem um significado político, mesmo que para o cidadão em causa aquela não tivesse sido a primeira cerveja do dia ("in vino veritas", neste caso, na cerveja!) O gesto quer dizer que há gente descontente que, no actual contexto, precisa de estar com alguns vapores para ter vontade de dizer a verdade. E ela saiu. 
Quando, não há muito, vergavam-se ao senhorio da tal "Madeira-Nova", aplaudiam-no e tiravam o chapéu à sua passagem, hoje, ou fazem silêncio, ou deixam-no quase só no adro ou atiram-lhe cerveja. Sinais dos tempos, de gente que sente que foi enganada pela palavra e pelos actos, que anda a sentir na pele o tresloucado "desenvolvimento" gerador de dívidas, de desemprego e de austeridade a dobrar. Esse povo, mesmo que humilde, perdeu-lhe o respeito, tal como os antigos colonos perante os senhorios. E antes que subisse ao palco (quem pagou o palco e que razões sustentam a existência de um discurso) para mais umas alarvidades e para remeter para os outros as culpas da sua governação, o cidadão, cansado da falta de lucidez, perdeu o "amor" ao valor de uma "beer" e toma lá isto. Aliás, após aquela cena no Porto da Cruz, os trezentos comentários no online do DN não deixam margem para dúvidas do cansaço de muita gente sobre a triste figura política que lidera esta Região.
Ora, isto acontece a quem perdeu a noção do seu tempo, que há um para estar e um para partir e que se assim é em todas as actividades da vida, no exercício da política mais sensível é tal pressuposto. Só que a engrenagem é enorme, os interesses assentam em uma monumental rede que, mesmo não querendo, acaba por se tornar escravo de si próprio. Para além de um qualquer percalço na saúde, sempre de lamentar, o pior que pode acontecer a um político é não ter essa noção de tempo, no fundo quando o exercício da política não é entendido como um serviço público à comunidade, mas como um emprego ou como uma empresa onde é patrão.
Que este incidente lhe dê para pensar, o que não acredito! Até disse, no discurso, que "o futuro está garantido"... Mas qual futuro? O dos empresários em situação de falência, o dos 23.000 desempregados? O dos professores, arquitectos, advogados e engenheiros que têm de emigrar? Não respondeu, apenas disse uma frase feita e descontextualizada.
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Anónimo disse...

Infelizmente Professor, palavras não desgastam os DITADORES!
Viva o PND (o único partido que tem a noção que os ditadores não se derrubam apenas com palavras) e o Sr. Brazão!
Brazão! Brazão! Brazão! Estamos contigo!!
Revolta da cerveja, já!!!!

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário.
É verdade que não se derrubam apenas com palavras. Por isso, sublinhei que "na cerveja está a verdade".
Estou convencido que aquela cervejinha dará, ainda, muito que falar...