sábado, 8 de setembro de 2012

PERDOAI-LHES SENHOR...


Genericamente, uma parte da população docente está amorfa e alheia ao debate das ideias, outra tem medo, resguarda-se, pelo que, os que têm coragem de pertencer a um sindicato que lutem, "eles é que sabem disso", já ouvi algures. Sentisse o poder regional que a classe docente era um corpo sólido e, porventura, a pouca-vergonha desta dispensa de centenas de contratados não se verificaria. A mentira e a aldrabice não vingariam e, talvez, outro fosse o caminho do sistema educativo regional. Não faz qualquer sentido, se não através da mentira e da aldrabice, que tendo sido, no ano lectivo anterior, muito superior a necessidade de professores, de um momento para o outro mandem pela borda fora profissionais do ensino que tanta falta fazem. Não bate certo. Apresentem-se ali, frente à Secretaria, e manifestem a sua indignação. Não há outro caminho, até porque diz a sabedoria popular que "quanto mais se mexe na porcaria, mais ela enjoa". Há que mexer neste sistema que tresanda, enjoar aquela gente que não sabe o que faz e, talvez por aí, a situação possa vir a ser melhorada.
 
Professores à porta do Instituto de Emprego da Madeira
Sejamos claros: os professores também são culpados pela situação que atravessam. Não pelo facto do Estado ter o dever de atribuir trabalho a todos quantos se licenciam para o exercício da docência. Não é isso que está em causa. O Estado tem apenas o dever de definir, na escola pública, um enquadramento organizacional que possibilite uma adequada resposta às necessidades de formação. O problema é que os governos, enquanto operadores desse enquadramento, na ausência de uma visão de futuro, não só não consideram a Educação prioritária como, por extensão, põem e dispõem, a seu bel-prazer, daqueles que abraçaram a nobre via do ensino. É vê-los percorrer o País de lés-a-lés, anos a fio, ontem no Algarve, hoje numa recôndita escola do Minho ou, então, para ganharem um ano de serviço, deixando tudo, a família, rumam à Madeira ou aos Açores. Cheguei a ter um colega que, a meio do ano, por substituição, veio do Continente até à Madeira para cumprir um horário de quatro horas semanais.
Mas, como dizia, os professores também são culpados. Ao contrário do que acontece no Continente, onde se manifestam ruidosamente e reivindicam, em conjunto com os sindicatos, a defesa da sua classe, no fundo aquilo que é justo, aqui, na Região, temos um corpo docente, permitam-me a frontalidade, manso, obediente, sereno demais para o meu gosto e para os interesses dos próprios. É ver as percentagens de participação em greves por causas justíssimas, é ver o esforço do principal sindicato (SPM) para conseguir reunir numa concentração 100 ou 200 professores de um universo que já foi de 7000, quatro mil dos quais sindicalizados! A dificuldade que é fazê-los arrancar de alguma comodidade tornada rotina, para o espaço da reflexão profissional e da luta por um sistema educativo melhor. Os professores falham aí. A prova é que um dia "convocaram-me", via sms, para uma manifestação. Compareci. Estavam lá quatro professores e a colega que me enviou a mensagem não compareceu. Mais. Cruzei-me, já tem muito tempo, com uma colega que, a propósito da avaliação de desempenho, me disse: "não se preocupe, ele vai resolver". Referia-se, naturalmente, ao presidente do governo regional. Na altura havia um jogador do Sporting muito badalado e, por isso, respondi-lhe: "colega, o Liedson resolve, mas isso é no futebol. Ele não é o Liedson da política". Bom, e a verdade é que não resolveu esse problema como nada resolve em outros sectores. Tampouco conhece o sistema educativo e os dramas vividos nas escolas em todos os espaços de análise. Nem resolve o pagamento de cerca de cinco milhões de euros que a Região deve aos professores que ascenderam na carreira por mérito próprio!
Serve isto para dizer que, genericamente, uma parte da população docente está amorfa e alheia ao debate das ideias, outra tem medo, resguarda-se, pelo que, os que têm coragem de pertencer a um sindicato que lutem, "eles é que sabem disso", já ouvi algures. Sentisse o poder regional que a classe docente era um corpo sólido e, porventura, a pouca-vergonha desta dispensa de centenas de contratados não se verificaria. A mentira e a aldrabice não vingariam e, talvez, outro fosse o caminho do sistema educativo regional. Não faz qualquer sentido, se não através da mentira e da aldrabice, que tendo sido, no ano lectivo anterior, muito superior a necessidade de professores, de um momento para o outro mandem pela borda fora profissionais do ensino que tanta falta fazem. Não bate certo. Apresentem-se ali, frente à Secretaria, e manifestem a sua indignação. Não há outro caminho, até porque diz a sabedoria popular que "quanto mais se mexe na porcaria, mais ela enjoa". Há que mexer neste sistema que tresanda, enjoar aquela gente que não sabe o que faz e, talvez por aí, a situação possa vir a melhorar. No Continente, o governo PSD/CDS deixou 43.000 professores à porta da escola. Por aqui, com os serviços regionalizados, a lógica é a mesma. Cuidado, agora, nem os efectivos estão seguros!
Ilustração: Site do SPM.

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