segunda-feira, 24 de setembro de 2012

SEM TRABALHO, SEM SUBSÍDIO E SEM VIDA!


Li o texto e várias vezes levantei os olhos para fixar-me nas expressivas fotos que acompanham o trabalho jornalístico. Constrange e deixa com um nó na garganta qualquer pessoa com um mínimo de sentimento. Bruno já fez tudo na vida, sublinha a jornalista: "fui auxiliar de acção médica, trabalhei numa fábrica, fui operário da construção civil, pintor, ajudante de distribuição, empregado de mesa, vigilante... e outras coisas". Muitas vezes sem contrato. Pagavam-lhe a dinheiro e sem recibo. Vive em casa dos pais, com € 36,00 do abono de família da filha. A história de um outro casal, desempregados, com três filhos: "não pagamos a renda há seis meses". Vivem com € 282,00, provenientes do abono de família e de € 177,00 do Rendimento Social de Inserção. Já venderam tudo o que poderia ter algum valor. Ao ler este texto que apenas traduz uma ínfima parte dos dramas que, de forma galopante, atinge milhões de portugueses, senti a martelar a cabeça a estúpida frase do Ministro da Administração Interna, Miguel Macedo (PSD): Portugal não pode ser "um país de muitas cigarras e poucas formigas". Disse, para dentro, um palavrão.

  
E diz o Presidente do Governo
Regional que o Conselho de Estado
constituiu uma "esperança"
"Sem trabalho, sem subsídio e sem vida" é o título de um trabalho da jornalista Joana Pereira Bastos, no último semanário Expresso. O texto começa assim: "Isabel toma banho de água fria, Regina e Luís deixaram  de conseguir pagar a renda há seis meses, Bruno já nem vai à rua beber café. Estão desempregados, mas não recebem apoio. Sem rendimentos dependem exclusivamente de familiares ou de instituições de solidariedade para sobreviverem. E estão longe se ser caso raro. Até são a maioria: 57% dos quase 827.000 desempregados contabilizados pelo Instituto Nacional de Estatística não recebem subsídio de desemprego. Contas feitas cerca de 470.000 portugueses estão nesta situação (...)".
A leitura atenta das duas páginas (20 e 21), são dramáticas. Li o texto e várias vezes levantei os olhos para fixar-me nas expressivas fotos que acompanham o trabalho jornalístico. Constrange e deixa com um nó na garganta qualquer pessoa com um mínimo de sentimento. Bruno já fez tudo na vida, sublinha a jornalista: "fui auxiliar de acção médica, trabalhei numa fábrica, fui operário da construção civil, pintor, ajudante de distribuição, empregado de mesa, vigilante... e outras coisas". Muitas vezes sem contrato. Pagavam-lhe a dinheiro e sem recibo. Vive em casa dos pais, com € 36,00 do abono de família da filha. A história de um outro casal, desempregados, com três filhos: "não pagamos a renda há seis meses".  Vivem com € 282,00, provenientes do abono de família e de € 177,00 do Rendimento Social de Inserção. Já venderam tudo o que poderia ter algum valor.
Ao ler este texto que apenas traduz uma ínfima parte dos dramas que, de forma galopante, atinge milhões de portugueses, senti a martelar a cabeça a estúpida frase do Ministro da Administração Interna, Miguel Macedo: Portugal não pode ser "um país de muitas cigarras e poucas formigas". Disse, para dentro, um palavrão. Que lata, que insensibilidade, que ausência de conhecimento do país real, que falta de humanidade, como se este povo, na sua maioria não fosse um povo trabalhador, como se a desgraça que temos em mãos pudesse ser obra dos trabalhadores, dos mais humildes à classe social dita média, como se tivessem sido eles os tais que viveram acima das suas possibilidades. O ministro foi assobiado e nem tempo teve para descerrar a lápide à entrada do quartel de bombeiros. Se lá estivesse teria feito coro com os manifestantes. Ele e outros deste governo, pergunto, que princípios e valores defendem, de onde vieram e para onde vão? Sinceramente, um nojo.
E se lá é assim, por aqui, torna-se quase impossível escrever sobre esta gente que nos governa e se governa há 36 anos. Já foi tudo denunciado, afora o que se esconde nos dossiês classificados de reservado ou secreto. Por mais voltas que se dê à imaginação, olho para este naipe de governantes e sinto espelhado nos seus rostos a mentira, a falta de vergonha, a incapacidade, a intolerância, o apego ao poder, a gestão dos interesses pessoais e de grupo partidário. Rua, deve ser a palavra de ordem.
Ilustração: Semanário Expresso. Foto de Tiago Miranda.

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