terça-feira, 9 de outubro de 2012

COMO É POSSÍVEL ESTA "ESCRAVATURA" DOS NOVOS TEMPOS?


O problema é que não é apenas a pobre nigeriana que está em causa, mas muitos outros que sofrem em silêncio porque não têm para onde ir. Trata-se, cada vez mais, de uma situação transversal. Situações que fazem lembrar os pobres que se metem numa carrinha, recrutados por mafiosos, com promessas tentadoras, atravessam a fronteira e, afinal, acabam às mãos do trabalho sem horas, penoso e escravo. Os contornos são diferentes, eu sei, mas a analogia é muito semelhante. Confrangedora a história ontem contada que teve uma "cereja em cima deste bolo" putrefacto. A equipa, há dias, foi competir ao nível internacional, e por uma questão de contenção de despesas, pasme-se, o treinador ficou em terra e quem viajou com os atletas foi o presidente do clube. Há coisas fantásticas! 
 
 
Atingiu o grau zero da decência e da responsabilidade. Todos os dias a público vêm notícias de situações que fazem corar de vergonha qualquer pessoa com um mínimo de bom senso. É que não são apenas os clubes e associações desportivas que agonizam pela falta de financiamento por contratos-programa assumidos e não cumpridos. Casos existem com mais de quatro anos de incumprimentos. Há dirigentes com os seus nomes em "lista negra" no Banco de Portugal, ou em vias disso, e existem as situações de atletas e de treinadores que confiaram na palavra dada e, certamente, escrita, e que, hoje, estão claramente encostados à parede, fundamentalmente por salários em atraso.
Ontem, veio a público mais um drama pessoal de uma treinadora nigeriana de ténis de mesa, contratada pela Associação Desportiva da Ponta do Pargo (Calheta/Madeira). Ouvi-a, na RTP, lamentar-se dos salários em atraso e do facto de na casa que habita, pertença, pelo que me apercebi, da Associação, ter sido cortado o fornecimento da energia eléctrica. Ela e o filho têm de socorrer-se dos vizinhos para guardar alguma coisa no frigorífico. Fixei-me na sua cara, no seu semblante transmitindo um misto de sorriso, conformismo e profunda tristeza. Arrepiou-me. Como é possível esta "escravatura" dos novos tempos?
Bom, não vou aqui tecer comentários sobre a actividade porventura meritória, não apenas desportiva, da associação em causa. Não conheço e, portanto, não entro por aí. Mas entro pelos factos conhecidos, onde uma associação desportiva, no extremo oeste da ilha, num concelho com carências até ao céu da boca, envereda por uma representação nacional e internacional, através do ténis-de-mesa, mas com suporte no substancial recrutamento de atletas e de treinadores estrangeiros. Pergunto, para quê e com que objectivo? Para gáudio e promoção pessoal de alguém? Talvez! Por ignorância incentivada por um poder político acéfalo que utiliza o desporto ao serviço da política e não como meio de desenvolvimento? Obviamente! Todavia, sempre há custa do dinheiro de todos e da subsidiodependência. O clube que deveria ser, fundamentalmente, continuador da actividade escolar e veículo de cultura física e desportiva, acaba enredado nas lógicas de uma prática competitiva de rendimento elevado, desvirtuando o sentido real do desporto numa Região pobre, dependente e assimétrica. Desde os anos 80 que muitos sabiam que o resultado seria este, uma vez que, ano após ano, o monstro estava a ser alimentado, sempre com doses acrescidas de alimento (dinheiro público), tornando-se insaciável e indomável. Rebentou, estoirou nas mãos dos seus mentores. Custa-me muito constatar situações destas, como me custa ler uma notícia com um título: clube X venceu o clube Y, com a foto não de um madeirense mas de um qualquer chinês! 
O problema é que não é apenas a pobre nigeriana que está em causa, mas muitos outros que sofrem em silêncio porque não têm para onde ir. Gente que foi enganada. Trata-se, cada vez mais, de uma situação transversal. Situações que fazem lembrar os pobres que se metem numa carrinha, recrutados por mafiosos, com promessas tentadoras, atravessam a fronteira e, afinal, acabam às mãos do trabalho sem horas, penoso e escravo. Os contornos são diferentes, eu sei, mas a analogia é muito semelhante. 
Confrangedora a história ontem contada que teve uma "cereja em cima deste bolo" putrefacto. A equipa, há dias, foi competir ao nível internacional, e por uma questão de contenção de despesas, pasme-se, o treinador ficou em terra e quem viajou com os atletas foi o presidente do clube. Há coisas fantásticas!
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

jv disse...

Caro, vou acompanhando os seus escritos e por vezes penso, como deve ser difícil ser-se lúcido, e ter-se a sensação que não serão muitos os que nos acompanham nesta lucidez,especialmente, quando a evidencia dos factos, nos esmaga

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário.
É por comentários como o seu, sinceros, que todos os dias tento produzir uma reflexão, cada vez mais numa lógica de cidadão preocupado.
Obrigado.