quinta-feira, 15 de novembro de 2012

"AI AGOSTINHO, AI AGOSTINHA..."


Os madeirenses querem lá saber da actuação do Ministro dos Negócios Estrangeiros, se ele gosta ou não, como sói dizer-se "de andar com o rabo no ar", de país em país e com o mínimo de crítica e de impopularidade possível. O que os madeirenses querem é saber como sair do "buraco" económico, financeiro e social no qual o meteram depois de 36 anos de poder absoluto; quer saber quais as saídas possíveis para a taxa recorde de 17,5% de desempregados, com toda a probabilidade de ultrapassar os 20% dentro de poucos meses (taxa que não tem em conta quem já emigrou e outras situações); quer saber como resolver os problemas dos vários sistemas, sobretudo o educativo e o de saúde; quer saber como romper com o círculo vicioso da pobreza; quer saber como travar a dupla austeridade que tornará a vida dos madeirenses num inferno; quer saber como pagar a dívida da loucura política (mais de oito mil milhões de euros se contarmos com as parcerias público-privadas) e como resgatar a verdadeira Autonomia; quer saber como inverter o ciclo arrepiante do turismo; quer saber como acabar com o desperdício no Jornal da Madeira, no associativismo, nos assessores e nos serviços sobredimensionados, enfim, são tantos e tantos os problemas para equacionar de uma forma politicamente séria, honesta e profunda e vem um deputado abordar questões que, nem directa nem indirectamente, estão relacionadas com o drama sofrido por famílias e pelas empresas. No contexto em que o deputado falava, a determinada altura assumiu: "é aqui que temos o problema para resolver". Pois, é aqui, só que num outro contexto da abordagem política.
 
 
Muito raramente assisto, via online, aos plenários da Assembleia Legislativa da Madeira. Ontem, porém,  precisei de fazer uma busca e por lá passei. Estava no uso da palavra, com uma longa intervenção, o senhor Deputado do PSD-Madeira, Agostinho Gouveia. Apanhei-o a divagar sobre a política nacional e sobre as questões estratégicas da responsabilidade do Ministério dos Negócios Estrangeiros. O que deveria ter sido feito e não foi! Uma intervenção, a avaliar pela parte que escutei, completamente desajustada da responsabilidade política da Assembleia Legislativa da Madeira. Não discuto as palavras ditas ou os conceitos enunciados sobre política externa. Sei, isso sei, que não me atreveria a entrar por esses meandros onde o meu conhecimento é limitadíssimo. O que julgo perceber não deve ir além da mesa do café e de uma roda de amigos. Mas há quem julgue dominar os assuntos a partir de meia-dúzia de leituras dos semanários. Mas isso pouco me rala. O que para mim é desastroso é essa mania de confundir a Assembleia Legislativa da Madeira com a Assembleia da República. Os discursos que deveriam, prioritariamente, incidir sobre as grandes questões regionais (e não são poucas) pelo menos por parte da maioria política, resvalam, intencionalmente, para outros espaços, como quem, à defesa e sem meios, nem técnicos nem tácticos, acaba por chutar a bola dos problemas para bem longe na expectativa de atenuar culpas próprias.
Ora, os madeirenses querem lá saber da actuação do Ministro dos Negócios Estrangeiros, se ele gosta ou não, como sói dizer-se "de andar com o rabo no ar", de país em país e com o mínimo de crítica e de impopularidade possível. O que os madeirenses querem é saber como sair do "buraco" económico, financeiro e social no qual o meteram depois de 36 anos de poder absoluto; quer saber quais as saídas possíveis para a taxa recorde de 17,5% de desempregados, com toda a probabilidade de ultrapassar os 20% dentro de poucos meses (taxa que não tem em conta quem já emigrou e outras situações); quer saber como resolver os problemas dos vários sistemas, sobretudo o educativo e o de saúde; quer saber como romper com o círculo vicioso da pobreza; quer saber como travar a dupla austeridade que tornará a vida dos madeirenses num inferno; quer saber como pagar a dívida da loucura política (mais de oito mil milhões de euros se contarmos com as parcerias público-privadas) e como resgatar a verdadeira Autonomia; quer saber como inverter o ciclo arrepiante do turismo; quer saber como acabar com o desperdício no Jornal da Madeira, no associativismo, nos assessores e nos serviços sobredimensionados, enfim, são tantos e tantos os problemas para equacionar de uma forma politicamente séria, honesta e profunda e vem um deputado abordar questões que, nem directa nem indirectamente, estão relacionadas com o drama sofrido por famílias e pelas empresas. No contexto em que o deputado falava, a determinada altura assumiu: "é aqui que temos o problema para resolver". Pois, é aqui, só que num outro contexto da abordagem política.
Intervenções como esta que escutei, pelo menos uma parte, são, aliás, constantes na Assembleia. A maioria fala para fora quando tem a Madeira a "arder" em problemas. A culpa é sempre dos outros como se aqui não tivesse havido governo, como se a Região não tivesse órgãos de governo próprio, como se não tivesse recebido milhões, muitos milhões da União Europeia e do Orçamento de Estado, como se isto por aqui tivesse e continuasse a funcionar como "Distrito", como se isto fosse, como disse o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, "uma grande autarquia". Há um intencional jogo negativo, de não assumpção de responsabilidades, de não ser crítico e inovador e assim fazem da Assembleia um espaço menor e distante da credibilidade que deveria ter.
O senhor deputado Agostinho Gouveia, com todo o respeito, fez-me uma vez mais lembrar o sketch da dupla Ivone Silva/Camilo de Oliveira: "Ai Agostinho, Ai Agostinha (...)".
Ilustração: Google Imagens.

4 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

O grande timoneiro, que até sabe governar galáxias, diz que não tem culpa nenhuma do que se está a passar. Segundo ele, o problema está em Lisboa e, por isso, todo jardinal tem de fazer coro com o chefe. Outra coisa não é de esperar dessa gente. Nem com uma morte anunciada conseguem contradizer o papão.

jorge figueira disse...

Este funcionamento da Assembleia existe desde o seu início. Trinta e tal anos passados tornam-se mais evidente as limitações, é óbvio. Talvez tenham acontecido pactos a mais.

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário, Caríssimo Cor. Vouga. Sabe, eu que cada vez mais, talvez porque os anos trazem-nos tolerância, sou capaz de não me aborrecer, chego a um ponto que digo: bendito Coronel Lacerda! É que já não há pachorra!
Um abraço.

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário, Caríssimo Jorge Figueira. As limitações da Assembleia são de uma gravidade extrema. Dali o povo nada pode esperar. Falta-lhe qualidade e sobretudo dimensão democrática. Quando, primeiro, está a defesa do lugar e, só depois, os interesses do Povo, não se pode esperar outra coisa senão o triste filme que a maioria oferece em todas as sessões.