quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

CARTA A ÍRIS


O que mais me entristece, hoje, Íris? A HIPOCRISIA! É como os discursos moralistas, na maioria das vezes inócuos, carecendo de proposições práticas e efectivas. Prostitui-se, em cada dia, o idílio mais lindo do sonho, fazendo do voto de confiança e de civismo um voto de morte e tragédia. Todavia, o papel do avô não é ensinar-te o caminho, mas ajudar-te a encontrar uma estrada, com valores e confiança suficientes para seres capaz de dizer NÃO, quando um comportamento te parecer errado ou perigoso. Porém, quero dizer-te que teria um grande desgosto se um dia te soubesse Skinhead, neo-nazi ou algo do género. Colhe da vida todas as coisas, as boas e as más. São dela parte integrante. Cultiva os bons amigos, não alimentes o rancor. Não fujas nem te acobardes com as contrariedades. Serás capaz de as enfrentar. Já revelas, sempre revelaste, um voluntarismo próprio e escorreita rebeldia. Hão-de levar-te aonde a tua vontade quiser.


Do meu Amigo Fernando Egídio, Sociólogo, li um texto que recomendo. Foi publicado na edição de Natal do DN-Madeira. Um texto que merece ser mastigado linha a linha, cruzado entre parágrafos e compaginado com os tempos de caos que vivemos. A carta a Íris, sua neta, talvez a todas as netas(os), conduz-nos a muitas interrogações face a uma desordem onde somos chamados a ser, apenas, actores-observadores. O Fernando fala, subtilmente, das tertúlias ao LUAR. No fundo, ele que também conspirou contra a ditadura, perante essa desordem, ele que é um Homem de paz, porventura questiona-se se não é tempo de uma resposta, adaptada aos novos tempos, de uma nova Liga de Unidade e Acção Revolucionária, na esteira do movimento político, fundado em Paris, em Junho de 1967, através do português Palma Inácio. Ele aborda a hipocrisia, o sofrimento, a pobreza e a fome, e insta a neta dizendo-lhe que o "papel do avô não é ensinar-te o caminho, mas ajudar-te a encontrar uma estrada, com valores e confiança suficientes para seres capaz de dizer NÃO, quando um comportamento te parecer errado ou perigoso".
Ontem telefonei-lhe para lhe dar parabéns pelo texto. Conversámos um pouco e pedi-lhe que permitisse a publicação do texto neste espaço. Aqui fica. Um abraço Fernando.
Íris:

Às vezes sinto vontade de escrever para te dizer coisas bonitas ou importantes, para dizer que te amo e vale a pena viver. O avô acha que as palavras escritas demoram mais tempo a morrer. Gosto, também, de escrever sobre uma temática/problemática ou a alguém especial. Talvez guardes esta minha carta e, assim, quando o avô não estiver mais por aqui, poderás sempre matar saudades de quem te escreveu com amor e emoção. Também nunca imaginei grandes coisas acerca de ti, só sabia que ias se bonita e inteligente, porque achava que sendo minha neta e de alguém que eu escolhesse para tua avó não poderias ser de outra maneira. O avô viveu em Paris, conspirou contra a ditadura, frequentou meios científicos, conheceu, entre outros, Sartre, Simone de Beauvoire, Marcuse, François Chatelet, frequentou a livraria Maspero, era colérico, porém, odiava a contradição e a traição e tem saudades das tertúlias ao LUAR. Também pensa que Deus não existe, as religiões são perniciosas e causadoras da grande fatia dos males de que o mundo enferma. Tomando de empréstimo as palavras de Baptista-Bastos : "Vivemos no interior do medo. O medo deixou de ser um sentimento comum à condição, para se transformar numa ideologia e numa arma política."
Vivemos, hoje, num laboratório experimental, onde a imbecilidade se levanta para trabalhar, recebendo por isso um salário que ,ingenuamente, lhe é roubado pelos criminosos, ajudando a pagar a “iluminados”. Salazar e Marcelo Caetano deixaram discípulos. Não conseguimos libertar-nos desta “fatalidade”. Íris, porque delego em ti a responsabilidade futura, não transformes, nem deixes que outros transformem pessoas medíocres em opressores e ditadores, contudo, toma como causas tuas as dos homens verdadeiramente grandes. Porém, queria legar-te um pensamento: "Estranha é a nossa situação aqui na Terra. Cada um de nós vem para uma curta visita, sem saber porquê, contudo, por vezes parecemos adivinhar um objectivo. No entanto, do ponto de vista do quotidiano, há uma coisa que sabemos: que o homem está aqui pelos outros homens – acima de tudo, por aqueles cujos sorrisos e bem-estar depende a nossa própria felicidade." (Albert Einstein)
Sabes, as minhas angústias existenciais foram aumentando, tanto que, hoje, posso exprimi-las em duas palavras: incerteza e confusão. Até quando as crianças nascerão velhas ao abraçarem sonhos impossíveis? Vi o sofrimento das crianças do meu país. Vi sonhos lindos que, mais tarde, viriam despedaçar-se em nome da competitividade, em nome da grande desordem da "ordem" burguesa vigente, em nome dos interesses de poucos – de um verdadeiro apartheid social. Vi muita gente passando frio, pedindo esmola. Vi uma medicina baseada em lucros multinacionais. Vi rostos em que estava inscrita a miséria, o abandono e a solidão.
O que mais me entristece, hoje, Íris? A HIPOCRISIA! É como os discursos moralistas, na maioria das vezes inócuos, carecendo de proposições práticas e efectivas. Prostitui-se, em cada dia, o idílio mais lindo do sonho, fazendo do voto de confiança e de civismo um voto de morte e tragédia. Todavia, o papel do avô não é ensinar-te o caminho, mas ajudar-te a encontrar uma estrada, com valores e confiança suficientes para seres capaz de dizer NÃO, quando um comportamento te parecer errado ou perigoso. Porém, quero dizer-te que teria um grande desgosto se um dia te soubesse Skinhead, neo-nazi ou algo do género. Colhe da vida todas as coisas, as boas e as más. São dela parte integrante. Cultiva os bons amigos, não alimentes o rancor. Não fujas nem te acobardes com as contrariedades. Serás capaz de as enfrentar. Já revelas, sempre revelaste, um voluntarismo próprio e escorreita rebeldia. Hão-de levar-te aonde a tua vontade quiser. Também queria falar-te da Autonomia da Terra que viu o Fernando, como carinhosamente me chamas, nascer.
Íris, o avô tem mais passado que futuro. A autonomia que se vive na Madeira é o sistema mais perverso que alguma vez iluminou o ser humano. Quais foram os resultados? A ilusão, a ignorância e o servilismo nos leigos; e, nuns e noutros, superstição, preconceito e perseguição. Os “faróis” são mais úteis que a Assembleia Legislativa. Todavia, são as máquinas sociais-democratas a querer refundar o fascismo, a repressão e o obscurantismo – o mais fatal exemplo de causas de padecimento que a História da Madeira preservou. Não obstante, a verdadeira guerra é entre o racionalismo e a superstição. A ciência é apenas uma forma de racionalismo, ao passo que o pensamento “social-democrata” é a forma mais comum da superstição. A racionalidade está sob o ataque de uma autonomia bem organizada, politicamente bem relacionada e, sobretudo, bem financiada, cujos representantes eleitos, tanto têm de responder perante os seus eleitores “ignorantes e preconceituosos, como os mais bem informados. Como resposta a estas ameaças, deveria surgir um lobby de defesa da racionalidade. Este “espectáculo” autonómico organizado encheu-me de horror, e não são raras as vezes em que, no exercício da minha cidadania, e enquanto sociólogo, condenei este “Estado” dentro de outro “Estado”. Quase sempre, este estado de coisas me parece simbolizar fé e um reaccionarismo cegos, dogma e intolerância, superstição, exploração, bem como a manutenção de interesses instalados. Nada se causa a si mesmo. Todo o efeito tem uma causa prévia.
Íris, queria que a autonomia, para o nosso bem e do país, morresse de morte matada. Na doçura do teu olhar, vai o avô agora despedir-se. Um dia hás-de ler esta carta. Ao lê-la, vais com certeza, perguntar por ele e procurar saber quem foi este teu avô longínquo. Lembro, ainda, uma frase do meu pai, teu bisavô, há muito falecido, madeirense e vertical: «Não há homens muito ou pouco sérios. Há homens sérios e outras coisas que parecem homens». Por mim, com a idade que tenho, o avô já não precisa nem quer nascer outra vez. Basta-me morrer como tenho vivido. Sério!
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Miguel Ângelo disse...

Li este texto mesmo antes de ser publicado,no DN-Madeira, achei-o com qualidade literária e digno da abordagem de um tema tranversal a toda a sociedade portuguesa: o que será da Íris, e de outras ìris, a médio prazo, que deambulam por este país sem solução à vista?!
Respondam-me com sinceridade...Reflitam?! E digam-me qualquer coisa sobre o assunto...O mote está lançado!

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário.
O debate está aberto. Espero que alguém se interesse.