sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

COMAM SOPA


A Assembleia Legislativa da Madeira, uma vez mais, foi desprestigiada. O que ali aconteceu não foi uma sessão política, uma intervenção para dizer aos madeirenses e portosantenses como vamos viver em 2013, como é que o governo, legitimamente eleito, pensa enfrentar a economia, as finanças, todos os sistemas, desde a educação à saúde, como é que o governo pensa enfrentar o desemprego, a angústia dos empresários, o drama das famílias, enfim, o problema gravíssimo que está aos olhos de todos. Não, importante foi passar pelos problemas como gato sobre brasas, colocando o acento tónico no supérfluo, naquilo que é marginal, no ataque e ofensa a este e àquele, algumas vezes de forma desprezível, como a de um deputado "atracar de popa"! Como é óbvio, uma intervenção daquelas seria impossível de acontecer em qualquer outro hemiciclo. Um presidente tem de dar-se ao respeito e se, politicamente, tem a responsabilidade de governar uma Região, não pode, em circunstância alguma, fazer baixar o nível. Foi o discurso da sopinha azeda, feita há 36 anos, congelada e, todos os anos servida fria aos madeirenses e portosantenses.

 
Um Parlamento faz-de-conta!
A Região Autónoma da Madeira ficou a saber que o presidente do governo come uma sopinha ao jantar. E que lhe faz muito bem, disse! Tratou-se de uma revelação de carácter pessoal e opcional. Se teve uma subliminar intenção política, não sei, isto é, na crise, povo da Madeira, comam sopa! Se houver dinheiro para os legumes, digo eu. Ou então, se aquela não foi a intenção, a revelação acabou por ser o que de mais importante teve aquela espécie de discurso que martirizou os deputados e os espectadores durante cento e cinco minutos. Estive sempre à espera que a RTP-M desse por finda a emissão em directo face ao descalabro da intervenção, mas não, a ocupação dos meios durou todo o tempo. E valeu a pena, porque quem assistiu teve a oportunidade de verificar, uma vez mais, a decadência, o homem político que se nunca acertou, agora, está pior, pois não há disparo que não saia ao lado do alvo. Tratou-se, a bem dizer, de uma sopinha de letras que formaram palavras encostadas umas às outras, todavia, sem nexo, porque descontextualizadas e sem um fio condutor. Aquelas duas horas deveriam ser vistas pelos parlamentares europeus, pelos parlamentares na Assembleia da República, como castigo, pelo Presidente da República e até, legendado, pelos parlamentares da Assembleia Legislativa dos Açores.
A Assembleia Legislativa da Madeira, uma vez mais, foi desprestigiada. O que ali aconteceu não foi uma sessão política, uma intervenção para dizer aos madeirenses e portosantenses como vamos viver em 2013, como é que o governo, legitimamente eleito, pensa enfrentar a economia, as finanças, todos os sistemas, desde a educação à saúde, como é que o governo pensa enfrentar o desemprego, a angústia dos empresários, o drama das famílias, enfim, o problema gravíssimo que está aos olhos de todos. Não, importante foi passar pelos problemas como gato sobre brasas, atirando para os outros responsabilidades próprias, colocando o acento tónico no supérfluo, naquilo que é marginal, no ataque e ofensa a este e àquele, algumas vezes de forma desprezível, como a de um deputado atracar de popa! 
Como é óbvio, uma intervenção daquelas seria impossível de acontecer em qualquer outro hemiciclo. Um presidente tem de dar-se ao respeito e se, politicamente, tem a responsabilidade de governar uma Região, não pode, em circunstância alguma, fazer baixar o nível. Ele está ali para dar a conhecer os fundamentos da política que seguirá. Mas, não, fugiu ao debate nos dias anteriores para não ser confrontado com a oposição e, no último dia, a solo e sem tempo limite (que vergonha um regimento permitir que fale por tempo indeterminado) sobe à tribuna para o discurso do zero absoluto. Não estou a exagerar. Após a votação tive um afazer da minha vida pessoal e cruzei-me com uma pessoa que respeito pela idade, pela verticalidade na vida, pessoa ainda ligada à Educação. Disse-me: "duas horas de vómito". De chofre, confesso que não percebi, mas logo depois, pelo contexto da breve conversa, associei aquelas palavras ao discurso que terminara minutos antes na Assembleia.
Sinto pena daqueles deputados da maioria que são obrigados a aplaudirem uma intervenção reles, sem nada de substantivo, por vezes indigna, deputados que se vergam como plasticinas, rendidos a um lugarzinho, àquele metro quadrado que é o espaço da mesa e da cadeira onde se sentam. Deveriam ter presente que a dignidade política (e não só) não se vende. Que tal como o anúncio publicitário, há uma linha que separa a dignidade na vida política da subjugação, da submissão e do medo. Por causa de € 1.900,00 por mês (líquidos) dir-se-á que é uma venda a retalho. E de tanto se retalharem já nem conta dão que se vendem aos bocados. A este propósito convinha uma passagem por Luis de Stau Monteiro - Angústia para o Jantar.
A Madeira merece outra dignidade, outro Parlamento (com P maiúsculo) enquanto primeiro órgão de governo próprio. A Assembleia há muito deixou de ser uma instituição credível e respeitada. Funciona, porque tem de funcionar, agora, no quadro de uma Região sem Autonomia, de joelhos, de mão estendida, sujeita a uma dupla austeridade, pelas loucuras políticas de um homem que, no seu discurso, não assumiu as suas responsabilidades e que não soube, humildemente, dizer como pretende solucionar os dramas, lançando, concomitantemente, uma palavra de alguma esperança. Foi o discurso da sopinha azeda, feita há 36 anos, congelada e, todos os anos servida fria aos madeirenses e portosantenses.
Ilustração: Google Imagens.

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