terça-feira, 4 de dezembro de 2012

POLITICAMENTE IMPERDOÁVEL DESPERDIÇAR UMA COLIGAÇÃO


Todos têm de perder alguma coisa para que a população ganhe muito. Neste pressuposto, gostaria de ver uma equipa íntegra e com um profundo sentido humanista, respeitadora dos instrumentos de planeamento, defensora de uma identidade própria que tem vindo a ser perdida, que sem folclore político e medidas avulsas assumisse que as pessoas estão em primeiro lugar, que há uma luta prioritária a desenvolver no campo da defesa do emprego, dos empresários, da família e do apoio à educação. Tudo isto sublinhado a um princípio: no Funchal mandam os funchalenses. Não venham outros ditar e impor obras não compaginadas com as prioridades.

O DN, através do Jornalista Jorge de Sousa, convidou-me para tecer algumas considerações sobre as próximas eleições autárquicas no Funchal. Tratou-se de uma conversa agradável que agradeço e que aqui reproduzo. (Foi publicada na edição de hoje).
O que tem feito desde que se afastou do primeiro plano político?Eu estou, embora não estando. Não é preciso estar na primeira fila para intervir. Eduquei-me nesse sentido, da cidadania activa, de olhar o partido como um meio e não como um fim. O exercício da política não pode ser um emprego para a vida, mas um serviço público de contribuição para uma melhor sociedade.
Nem todos seguem esse princípio.Lamento é que a vida não tivesse ensinado algumas pessoas que não existem insubstituíveis, que há sempre outros mais bem preparados do que nós, no plano académico, científico e político. É um problema de cultura, de bom senso e de respeito por si próprios, porque se o partido é um instrumento, não faz sentido que, alguns, a ele se agarrem como lapas.
Admite regressar?Eu nunca saí. Não emigrei. Intervenho é de uma outra forma. As redes sociais, o blogue todos os dias actualizado, politicamente, permitem-me dizer, repito, que estou, embora não estando. Não sinto é a pressão que a política de primeira fila exige. Tenho tempo para outras coisas, para ler, ouvir, cruzar informação, compaginar e produzir.
Teve o melhor resultado da oposição, no Funchal, em 1993. Como foi? O que faltou para ganhar?Foi muito difícil, pois tivemos pela frente o professor Virgílio Pereira (PSD) e o dr. Ricardo Vieira (CDS). O candidato do PSD estava no auge, era parlamentar europeu e tinha um passado na Câmara que lhe granjeou popularidade. O PS apresentou uma excelente equipa com especialistas em cada sector de intervenção.
Eram outros tempos, com outros problemas?O Funchal não tinha os problemas sociais de hoje, era menos assimétrico, não tinha as bolsas de pobreza que hoje tem, embora com gravíssimas desestruturações espaciais nas zonas altas, não tinham ainda sido cometidos insuperáveis erros de planeamento urbanístico, isto é, estávamos numa fase em que era possível corrigir e de-senvolver uma cidade, tornando-a mais uniforme entre o leste e o oeste, o norte e o sul. Tivemos mais de uma centena de reuniões com representantes de todos os sectores e áreas e lembro-me de uma frase do engenheiro Danilo Matos que me marcou: "Tens de procurar fazer uma Câmara como uma grande mesa de diálogo com os cidadãos".
E o que é que falhou?Todas aquelas mensagens passaram e viemos a perder por pouco, talvez porque não fomos bem sucedidos na desejável convergência partidária.
Qual o comentário que lhe merece a proposta de Victor Freitas de uma coligação da oposição no Funchal, nas próximas 'autárquicas'?Há muitos anos que defendo uma estratégia nesse sentido. Em 1993, quando aceitei o convite do dr. Mota Torres, fiz o máximo que pude no sentido de uma convergência interpartidária sob a égide do PS. Hoje, a situação foi colocada de forma diferente, com humildade partidária, o PS abre-se a todas as correntes políticas, convida-as para uma reflexão conjunta, onde o sentido partidário é colocado num segundo plano. Não podemos ignorar o peso de 36 anos de uma força política que gerou uma monumental rede de interesses, tal como não deve ser ignorada a castração do pensamento onde o voto tem tido mais coração do que razão.
Não se vota em consciência?Já deveríamos ter assumido que o voto político não deve ter o mesmo sentimento das cores clubísticas. A escola falhou na abertura da consciência política, na educação para a liberdade e para as opções responsáveis. E passados todos estes anos, mesmo oferecendo excelentes equipas e programas para o governo autárquico, a verdade é que a oposição nunca conseguiu, simplesmente porque as pessoas deixaram-se amarrar à voz dominante geradora de medo. Portanto, creio que uma coligação será bem-vinda.
Uma coligação para ganhar o Funchal?Essa coligação tem possibilidades de vencer com maioria absoluta. O PSD-M está fragmentado e descredibilizado, não só por trinta e seis anos de poder absoluto, mas também pelas fragilidades internas que são, todos os dias, do domínio público. Estranho, mas é o resultado da sondagem, que ainda existam 41% de tendência de voto no PSD! Certo é que o PS está em claro crescimento e o CDS-PP em queda, enquanto se verifica uma expressão eleitoral muito interessante entre todos os outros.
A coligação é o único caminho para os partidos da oposição?Os partidos políticos estão 'condenados' a entenderem-se no sentido da apresentação de uma candidatura aberta à sociedade. Será muito mau para a população do Funchal que, à luz do presente estudo de opinião, não se verifique um entendimento de convergência. Considero politicamente imperdoável que os partidos desperdicem esta oportunidade.
Essa 'obrigação' é compreendida pelos partidos?A questão coloca-se a dois níveis: ou querem manter uma história de 36 anos de poder absoluto, entregando de bandeja ao PSD-M mais quatro anos de liderança autárquica, ou abdicam de interesses partidários menores e conjugam esforços no sentido do necessário, eu diria, imprescindível arejamento político que só uma mudança poderá ser portadora.
Não terá de haver cedências?Todos têm de perder alguma coisa para que a população ganhe muito. Neste pressuposto, gostaria de ver uma equipa íntegra e com um profundo sentido humanista, respeitadora dos instrumentos de planeamento, defensora de uma identidade própria que tem vindo a ser perdida, que sem folclore político e medidas avulsas assumisse que as pessoas estão em primeiro lugar, que há uma luta prioritária a de-senvolver no campo da defesa do emprego, dos empresários, da família e do apoio à educação. Tudo isto sublinhado a um princípio: no Funchal mandam os funchalenses. Não venham outros ditar e impor obras não compaginadas com as prioridades.
O PSD-M, sem Miguel Albuquerque, é mais fraco?Com ou sem Albuquerque é frágil para os cidadãos. O PSD está há 36 anos na autarquia do Funchal e o Dr. Albuquerque há quase vinte! Ambos estão fragilizados por múltiplas razões. Eu sou contra os insubstituíveis e todos sabemos que o livrinho dos princípios da mentalidade partidária não se apagam, tal como um apagador o faz às palavras num quadro preto.
A solução é uma ruptura?Todo este tempo gerou cumplicidades, interesses, linhas de actuação política cristalizadas, rotinas, a mesma resposta para todos os problemas e limitações na inovação e na criatividade. O Funchal tem de romper com isto, tem de arejar politicamente se todos nós quisermos criar futuro. A questão partidária tem de ser suplantada pelo interesse colectivo e esta é a melhor oportunidade de sempre.
Ilustração: Arquivo próprio.

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