quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

HISTÓRIAS DE POBREZA QUE SE MULTIPLICAM


Registei esta parte do diálogo: "minha mulher não recebe desde Abril, nem salários nem os subsídios de Natal e de férias. Não sei o que fazer". Entretanto, avancei, lá ficaram, mas esta parte do diálogo consumiu-me o pensamento: ora, admitindo que chegou a receber o mês de Abril, incluindo os subsídios, aquela trabalhadora tem, neste momento, dez meses de atrasos na liquidação das contrapartidas pelo trabalho que desempenha. Imaginemos que aufere o salário mínimo e, neste caso, deverá rondar, julgo eu, um valor em dívida de cerca de quatro mil euros. E aqui colocam-se três grandes questões: por um lado, o significado de quatro mil euros para quem pouco tem, se em presença tivermos os actuais custos de vida; por outro, se uma empresa não tem como pagar mensalmente, deixando atrasar montantes daquela natureza, como poderá recuperar e satisfazer os encargos assumidos; finalmente, o que leva uma trabalhadora a se deixar ficar numa empresa que não tem possibilidades de pagar: o medo do desemprego com direito a um subsídio limitado no tempo? o despedimento, por justa causa, sem outras oportunidades no mercado de trabalho? Enfim, não sou especialista nestas questões, importante para mim é o quadro em que tudo isto se desenvolve, onde existe receio, pânico e uma atitude de resignação na esperança que tudo se recomponha.



Conto, exactamente, o que se passou. Estava eu numa quase interminável fila para entregar, nos serviços da ADSE, recibos visando a comparticipação nos encargos de saúde e, mesmo ali ao lado, dois cidadãos, tinham ambos aí à volta dos trinta, trinta e cinco anos, conversavam sobre a sua situação de vida. Falavam em voz baixa mas sem a menor preocupação pelo ambiente em seu redor. Não pude deixar de ouvir o que diziam. Registei esta parte do diálogo: "minha mulher não recebe desde Abril, nem salários nem os subsídios de Natal e de férias. Não sei o que fazer". Entretanto, avancei, lá ficaram, mas esta parte do diálogo consumiu-me o pensamento: ora, admitindo que chegou a receber o mês de Abril, incluindo os subsídios, aquela trabalhadora tem, neste momento, dez meses de atrasos na liquidação das contrapartidas pelo trabalho que desempenha. Imaginemos que aufere o salário mínimo e, neste caso, deverá rondar, julgo eu, um valor em dívida de cerca de quatro mil euros. E aqui colocam-se três grandes questões: por um lado, o significado de quatro mil euros para quem pouco tem, se em presença tivermos os actuais custos de vida; por outro, se uma empresa não tem como pagar mensalmente, deixando atrasar montantes daquela natureza, como poderá recuperar e satisfazer os encargos assumidos; finalmente, o que leva uma trabalhadora a se deixar ficar numa empresa que não tem possibilidades de pagar: o medo do desemprego com direito a um subsídio limitado no tempo? o despedimento, por justa causa, sem outras oportunidades no mercado de trabalho? Enfim, não sou especialista nestas questões, importante para mim é o quadro em que tudo isto se desenvolve, onde existe receio, pânico e uma atitude de resignação na esperança que tudo se recomponha. 

Nos meus pensamentos, enquanto não chegou o momento de entregar os famigerados papéis, considerei também, que a citada trabalhadora poderia ser parceira de negócio com o marido. É uma hipótese. Mas aí o problema mantém-se, coitado, neste caso, dos empresários, sem dinheiro para os encargos permanentes. Um sufoco, certamente. Ora, este caso, multiplica-se por aí não sei por quantas vezes. Há gente desesperada, essa tal gente que nunca viveu acima das suas possibilidades como, de forma politicamente desonesta, querem fazer crer, gente com a sua vida arruinada, que olha em redor e não vê saída a não ser a da aventura da emigração. Gente que olha para estes governantes, perdoem-me a expressão, da trampa, que de olhos abertos não conseguem ver ou não querem ver o permanente resvalar do país em geral e da região em particular, para uma situação de completa ruína ao nível empresarial e das famílias. Cada dia que se passa vejo o quadro social mais negro, em alguns casos sem retorno, e todos nós entregues não a políticos de mão cheia, mas a gente reles, egoísta, subserviente a grandes interesses e claramente incompetente. 
E quando se trata de discutir os assuntos em sede de Comissão Especializada de Saúde e Assuntos Sociais, como ontem aconteceu, os deputados do PSD-M faltaram em bloco à reunião, porventura com o receio em abordar as seis propostas da responsabilidade do Deputado Edgar Silva. Quando contactada, a deputada Rafaela Fernandes (PSD), segundo o DN, disse não haver comentários a fazer. Tenha, politicamente, vergonha Senhora Deputada, digo-lhe eu, pois todos os assuntos devem ser merecedores de discussão, por maiores que sejam os desconfortos políticos e mesmo que, no final, como sempre fazem, votem contra as propostas. Afinal, foi eleita para quê? Para fugir aos assuntos delicados? A Senhora e todos os outros? É por estas e por outras que tudo isto está assim e que o Povo já não os consegue tolerar. Mais cedo do que pensa estará sentada, se estiver, no lugar da oposição. Não se esqueça!
Ilustração: Google Imagens.

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