segunda-feira, 1 de abril de 2013

DESPORTO: "NÃO ESPERAVA TANTAS DIFICULDADES"


Deduz-se daqui que o problema é mais do dinheirinho na conta do que propriamente de projecto político. E quando sublinha: "(...) todos têm consciência das dificuldades e terão de perceber também que o Governo não pretende prejudicar os clubes. Se pudesse resolver todos os problemas amanhã, com certeza que o faria. Ninguém pode duvidar da sua boa vontade e boa-fé", eu contraponho, boa-fé? Qual boa-fé quando assumiram contratos-programa que sabiam não poderem concretizar e daí os significativos atrasados de alguns anos nas transferências acordadas? As dificuldades não são de agora, não surgiram com as consequências do "Plano de Ajustamento", são sobretudo de pensamento sério e honesto de quem governou e governa os sistemas educativo e desportivo, resultam de interesses meramente políticos e eleitoralistas, de obras que nunca deveriam ter sido concretizadas e de apoios que deveriam ser mais bem pensados. 


"Não esperava tantas dificuldades", resumiu o Professor João Santos, Director Regional do Desporto e Juventude, a propósito da actual situação de todo o associativismo desportivo (e não só) na Região Autónoma da Madeira. Trata-se de uma declaração política sem qualquer sentido de verdade. E porquê? Simplesmente porque o actual Director Regional está há muitos anos no sistema, integrou-o no plano do desempenho técnico e integrou-o no plano do dirigismo. E porque não o considero uma pessoa distraída, sabia ao que ia. Ao aceitar, presumo que não tinha qualquer dúvida, desde as graves distorções conceptuais do sistema até à monumental dívida acumulada, desde fornecedores em geral até aos contratos-programa assinados com o associativismo. Daí que aquela declaração, em síntese, só possa ter o significado de muita coisa, eu diria, esquisita, que foi encontrar e que a entrevista não denuncia. E, se assim é, deveria ser mais claro. Não me parece correcto colocar em causa os seus antecessores, sobre os quais muito escrevi, dizendo por meias palavras aquilo que, eventualmente, se passa. Falta de dinheiro, encargos assumidos e não pagos, dirigentes desportivos aflitos e com os seus nomes menos bem vistos na banca, promessas consecutivamente falhadas, bem, isso corresponde a chover no molhado. As denúncias e os alertas vêm de longe, de muito longe, portanto, as "dificuldades", consequência do monstro que alimentaram, só poderiam ser estas que estão aos olhos de todos. 
O que esperava ler era uma outra coisa, não aquilo que foi o IDRAM e, agora, é a Direcção Regional, uma casa que recebe ofícios e emite cheques, mas uma posição de pensamento estruturante sobre os caminhos do futuro. Politicamente, passados todos estes meses, o que um cidadão como eu esperaria era a definição de um conceito que permitisse admitir a presença de um tempo novo. E o que transparece é que o governo e, por extensão, a direcção regional, continuam a correr atrás dos problemas, quando importante seria assumir uma posição clara e inequívoca para o futuro. Passar cheques é, neste processo, o mais simples, naturalmente, desde que as finanças disponibilizem o dinheiro. O problema é outro, o problema é, tendo por base os erros do passado, apresentar um caminho diferente. Aliás, parece-me que está tudo dito quando o director regional fala da "sensibilização aos clubes" para que "tenham a documentação actualizada para que não existam depois dificuldades acrescidas" na libertação do subsídio de apoio. Deduzo daqui que o problema é mais do dinheirinho na conta do que propriamente de projecto político. E quando sublinha: "(...) todos têm consciência das dificuldades e terão de perceber também que o Governo não pretende prejudicar os clubes. Se pudesse resolver todos os problemas amanhã, com certeza que o faria. Ninguém pode duvidar da sua boa vontade e boa-fé", eu contraponho, boa-fé? Qual boa-fé quando assumiram contratos-programa que sabiam não poderem concretizar e daí os significativos atrasados de alguns anos nas transferências? As dificuldades não são de agora, não surgiram com as consequências do "Plano de Ajustamento", são sobretudo de pensamento sério e honesto de quem governou e governa os sistemas educativo e desportivo, resultam de interesses meramente políticos e eleitoralistas, de obras que nunca deveriam ter sido concretizadas e de apoios que deveriam ser mais bem pensados. 
Concordo com uma posição que o texto do DN sublinha: (...) embora o futuro, neste caso, compreenda algo diferente, com o desporto a ter de ser encarado como mais dirigido à promoção da "actividade física para a população" e "menos como um veículo promotor de actividade profissional ou não amadora". Eu diria que se tratou de uma seta no centro do alvo. Só que essa seta tem de ser contextualizada e definida nas suas traves-mestras, através de perguntas tão simples quanto estas: porquê, como e quando? Se assim não for cheira a tiro de pólvora seca, isto é, capaz de constituir um estoiro, enquanto chamada de atenção para o associativismo, mas sem consequências práticas. Porque, na ausência de uma política, o monstro continuará a devorar o seu criador. Se, há trinta e tal anos, tivessem equacionado o que muitos alertaram e que está consubstanciado em documentos vários, certamente que, hoje, o desporto, na Região da Madeira, apresentaria uma taxa de participação, no mínimo, na média dos países da União Europeia e com bons resultados no plano da representação externa. Só que não quiseram ouvir, secundarizaram as posições de muitos dirigentes, técnicos e até de políticos e, portanto, meu Caro João Santos, o que poderei dizer é que existe uma continuada má-fé do governo regional. Hoje estão a colher a tempestade dos ventos que semearam.
Ilustração: Google Imagens.

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