sábado, 11 de maio de 2013

CACETADA EM CIMA DE CACETADA


Um governo que não respeita os contratos estabelecidos com os cidadãos não merece ser respeitado. Não há nada, rigorosamente nada, que justifique o saque que, novamente, se preparam para fazer junto dos aposentados da função pública. Ao longo de quarenta ou mais anos foram os sucessivos governos que definiram os impostos e outras contribuições obrigatórias, sem quaisquer hipóteses dos cidadãos reclamarem fosse o que fosse. Têm de descontar e ponto final. Descontaram no pressuposto que, mais tarde, seriam reembolsados segundo um cálculo concordante com os valores entregues. O Estado foi, assim, fiel depositário de um dinheiro que não lhe pertence. O dinheiro entregue pertence aos trabalhadores. Quando a devolução é penalizada, eu diria, sucessivamente penalizada, o governo que tem a responsabilidade de garantir os contratos celebrados, comporta-se como uma máfia às ordens de um "padrinho" que vive em outras paragens. 

Todos de pontaria afinada contra o Povo. 
E foi este Senhor que disse 
que o valor da sua aposentação
não lhe chegava. Imagine-se os outros!


Penso não existir outra leitura possível por maior que seja a bondade da população aposentada. O que já foi perpetrado e o que dizem vir a caminho, sugere que se aplique uma única palavra: ladroagem. Podem os mentores deste empobrecimento forçado não gostar, mas não há outra palavra que caracterize a actual situação. O que dizer, por exemplo, da retroactividade de uma medida que está a ser preparada? Ontem, na Assembleia da República, no decorrer do debate quinzenal, o Primeiro-ministro foi questionado três vezes por António José Seguro (PS) sobre como se iria processar a convergência nas pensões: se se aplicava apenas aos novos pensionistas, ou se seria retroactiva. Passos Coelho confirmou que se aplicaria às pensões que têm uma fórmula de cálculo mais favorável até 2005. Isto é, todos serão, uma vez mais, espoliados. Os que se aposentaram depois de 2005 já levam 10% à cabeça, agora, chegou a vez dos que estão para trás. Obviamente, fora o agravamento do ADSE e de outros subsistemas de saúde, o agravamento geral das tabelas de IRS, respectiva sobretaxa e que incidem sobre o subsídio de Natal, a contribuição extraordinária de solidariedade que também se aplica ao subsídio de Natal. Para não falar dos congelamentos nas carreiras. Todos contra os funcionários públicos.  É cacetada em cima de cacetada, numa pouca-vergonha nunca vista. Ainda ontem, o jornalista Luís Delgado, na SIC, dizia que isto mais parece uma "aldeia de bandoleiros".
A antiga ministra das Finanças, Drª Manuela Ferreira Leite (PSD), perante aquela intenção contra os pensionistas, assumiu que o governo trata-os de forma "cruel" e "desumana". E disse mais: se as medidas que afectam os pensionistas avançarem "cai o Governo de certeza absoluta", pois o "ministro Paulo Portas não tem outra solução na vida", acusando o líder do CDS de recusar a taxa sobre as pensões mas não o corte retroactivo nas pensões, que pode em média ascender a 10% (...) "se assim for, o ministro Paulo Portas não tem outra opção senão ir embora e há uma crise política" (...) "há uma quebra de confiança fatal entre os cidadãos e o governo e há obviamente uma violação de um contrato". Não é a oposição que o afirma, mas uma militante do PSD e ex-ministra das Finanças.
Mas há mais: como entender esta vaga de informações contraditórias relativamente à hipótese (não tão remota quanto isso) de penalização a todos quantos tenham em depósito mais de € 100.000,00? Uns dizem que a situação verificada no Chipre é irrepetível; outros, não descartam essa hipótese. Façamos contas: cem mil euros corresponde a uma poupança mensal de cerca de € 208,00, ou equivalente, ao longo de 40 anos de trabalho. Média que não tem em conta a respectiva capitalização. Sobre tais montantes os depositantes pagaram impostos sobre os juros e os bancos geraram as suas aplicações e lucros. Por outro lado, quem não teve essa possibilidade de poupança, mas que recebeu uma qualquer herança, foi sujeita, obviamente, a encargos que o Estado se encarregou de liquidar. Haverá alguma legitimidade para sacar aos depositantes que, de boa-fé, entregaram o dinheiro ao banco, uma percentagem sobre os valores em depósito? Mas o que é isto? Que ladroagem esta? Que gente indigna nos governa que não olha a meios para atingir os seus fins?
E o Presidente da República, perante isto, continua a dizer que não se afastará "um milímetro" dos interesses de Portugal. Mas quais interesses, quando o que se vê é falências, desemprego, pobreza e economia paralela em crescimento?
NOTA:
O partido liderado por António José Seguro arrecada 36% das intenções de voto numa sondagem realizada de 2 a 8 de Maio, de acordo com o “Expresso”, depois de Passos Coelho anunciar um aumento das horas de trabalho na função pública, a intenção de rescindir com 30 mil funcionários públicos, de ter admitido criar uma nova taxa sobre os pensionistas e de ter anunciado que, a partir do próximo ano, quem se reformar só terá direito à pensão completa aos 66 anos. O PS consegue, desta forma, conquistar intenções de voto que superam o conjunto conseguido por PSD e CDS (34,3%). O partido de Passos Coelho obtém 25,9% das intenções de voto, enquanto o partido de Paulo Portas se fica pelos 8,4%, sendo a força política com menor expressão. A CDU – coligação do PCP com Os Verdes – consegue 12,1% dos votos e o Bloco de Esquerda 8,8%. Desta forma os dois partidos de esquerda arrecadam mais de 20% em conjunto. (Jornal de Negócios)
Ilustração: Google Imagens.

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