quarta-feira, 29 de maio de 2013

"DEVEM TUDO A JARDIM"


Mas ao contrário do que a deputada Ana Serralha disse, aquele desaguisado entre deputados não é um "um assunto meramente pessoal". É um assunto de regime, de funcionamento da estrutura democrática, de subserviência, de interesses, de alguns queijos que podem estar a ser abocanhados e tudo isto é grave, muito grave, porque o poder político, em circunstância alguma, deve servir para ajudar seja lá quem for. A frase política "devem tudo a Jardim" pode indiciar esquemas de favor e de protecção que, em abstracto, são absolutamente condenáveis. Aliás, a deputada ao dizer aquela frase deveria ser mais concreta, especificando o que devem e porque devem. Aprendi, há muitos anos, o complemento directo: quem deve, deve alguma coisa: deve o quê? Pois bem, nesse documento a remeter ao Tribunal, deveria explicar o que é que esses dois colegas de partido devem a Jardim, por que devem e em que circunstâncias ficaram devedores. A transparência deve estar acima de tudo, para que, politicamente, não subsistam equívocos. 

As tetas do poder!

A deputada Ana Serralha (PSD) assumiu: "Devem tudo a Jardim". Referia-se, depreendi, ao desaguisado entre os deputados Miguel de Sousa e Jaime Ramos e que foi parar à Justiça. Só que aquela frase tem muito que se lhe diga. Pode constituir uma análise pessoal e pode, também, ser sermão de encomenda. Seja como for, aquela declaração  exprime, antes de mais, um sentimento de paizinho que distribui a riqueza e que garante, se se portarem bem, a multiplicação dos pães, por isso mesmo, a quem devem total obediência; exprime que devem estar calados no interior da "máfia boazinha" porque, eventualmente, a tal multiplicação dos pães pode ter tido, em muitas circunstâncias, um empurrãozinho do paizinho a quem tanto devem. Trata-se, portanto, de uma frase que entala o próprio Jardim e que só a História, que um dia terá de ser feita, dará a conhecer os nós e as verdadeiras dependências. Por enquanto, conjectura-se, através dos factos mais ou menos conhecidos. 
"Devem tudo a Jardim" trouxe-me à memória um diálogo que tive, em Casablanca, com um motorista, numa visita por lugares da História e da cultura local. Ele, visivelmente pobre, menos bem vestido e calçado, mas com a fotografia do então rei colada ao pára-brisas (cerca de um quarto da população marroquina, o que significa 8,5 milhões de pessoas, está em risco de pobreza extrema). Puxei pelos seus pensamentos, pela sua, pressupus, triste vida, pelas dificuldades e, a páginas tantas, quando o questionei sobre aquela fotografia do rei, espalhada, também, por todas as instituições públicas de Marrocos, disse-me: "devo-lhe tudo. Eu gosto do rei". Isto é, pobre, quase andrajoso, sem dinheiro para viver com dignidade, na sua opinião, o pouco que tinha ficava a se dever à bondade do rei! Fiquei esclarecido. E esclarecida deve estar a senhora deputada Ana Serralha, embora num outro patamar de riqueza, pois também tudo deve a Jardim, pensará. O barco da governação afunda, há gente que já não diz coisa com coisa, a estrutura despedaça-se, mas devem tudo ao "comandante". Se estão no barco ou no salva-vidas, não sei, a Jardim devem essa bênção de estarem no sítio certo, na hora certa e com a opção certa. Princípios, valores, análise aos erros, ter uma função crítica e livre, alto e párem o baile, porque a obediência tem de estar em primeiríssimo lugar. Isolando o contexto, a deputada, repito, também deve "tudo o que é a Alberto João Jardim". Por extensão, enquanto gestora do lar de idosos do Porto Moniz, deve-o a Jardim. Não há sua competência e dedicação. E os idosos que lá estão, obviamente que têm uma dívida de gratidão a Jardim! Ao ponto a que isto chegou!
O "pastor" pode ser um desastre,
mas todos no rebanho é que é bom!
Regresso ao desaguisado. Ao contrário do que a deputada disse, as alegadas ofensas não são um "um assunto meramente pessoal". É um assunto de regime, de funcionamento da estrutura democrática, de subserviência, de interesses, de alguns queijos que podem estar a ser abocanhados e tudo isto é grave, muito grave, porque o poder político, em circunstância alguma, deve servir para ajudar seja lá quem for. A frase política "devem tudo a Jardim" pode indiciar esquemas de favor e de protecção que, em abstracto, são absolutamente condenáveis. Aliás, a deputada ao dizer aquela frase deveria ser mais concreta, especificando o que devem e porque devem. Aprendi, há muitos anos, o complemento directo: quem deve, deve alguma coisa: deve o quê? Pois bem, nesse documento a remeter ao Tribunal, deverá explicitar o que é que esses dois colegas de partido devem a Jardim, por que devem e em que circunstâncias ficaram devedores. A transparência deve estar acima de tudo, para que, politicamente, não subsistam equívocos. E mais: quando é assumido que os deputados desavindos "(...) deviam pensar mais no que podem dar à Madeira do que naquilo que a Madeira lhes pode dar", parece-me de dedução óbvia que há muito por esclarecer, se o poder tem sido uma máquina ao serviço de interesses particulares, se a riqueza de uns e de outros fica a dever-se a Jardim ou se, politicamente, a Madeira pouco conta relativamente à conta bancária dos protagonistas. Tudo isto deveria ser esclarecido, simplesmente porque o povo da Região não deve nada a Jardim, vive do seu trabalho (os que trabalham) e não faz sentido querer inculcar nesta gente a mentalidade do condutor de autocarros com o qual me cruzei em Casablanca.
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Concordo inteiramente consigo.
Lá diz o povo, "a verdade vem sempre à tona da água". Enfim, o que essa senhora disse é uma confissão de incompetência e compadrio.

João André Escórcio disse...

Obrigado, Caríssimo Amigo.
Uma confissão sobretudo de COMPADRIO.
Um abraço.