sexta-feira, 3 de maio de 2013

PROCESSO CRIME NO REINO DA NORMAL ANORMALIDADE


O jornalista falou em abstracto, não se dirigiu em concreto a esta ou àquela figura, escreveu o que toda a gente comenta, todavia, cometeu o "crime" de, dizendo não dizendo, tocar nos que ainda se sentem intocáveis. Coisas da paróquia neste reino da anormal anormalidade. Para certos senhores, importante é que os jornalistas façam um biombo de protecção, que resumam a sua actividade aos "casos do dia" e que os acompanhem na perspectiva de divulgarem o que lhes interessa, não o outro lado das coisas, porventura de maior interesse para o povo. Interessa-lhes que divulguem os falsos milhões para "os senhores agricultores", que acompanhem o discurso oficial de que são tudo inventonas o que se passa nos sistemas de saúde e educação, importante é que ignorem as marinas de dinheiro que o mar leva, importante é que teçam louvores à economia, que essa coisa de empresários aflitos é só na cabecinha de alguns, que o desemprego está controlado e o crescimento tudo irá resolver, mais ainda, que falem da "obra" que fica para a História. Nunca, mas nunca, da notável obra do desemprego e da pobreza, da obra da dívida, da dupla austeridade e da obra do desespero porque passam tantas famílias. Escrever sobre essas coisitas de somenos importância, dirão, é coisa rafeira, não de jornalistas, mas de ardinas!




O director e o subdirector do DIÁRIO de Notícias da Madeira foram visados com uma queixa crime. E tudo porque, o jornalista Agostinho Silva assinou ontem um texto, na edição online, onde teceu considerações sobre o último relatório do Tribunal de Contas na Madeira e toda a ebulição que gerou nos meios políticos e do Ministério Público. O Juiz Conselheiro do TC disse o que tinha a dizer, lamentou o facto do Procurador Geral Adjunto, Dr. José Alberto Varela, fazer "obstrução à Justiça" e este acabou por solicitar a sua transferência para Lisboa. Entretanto, a Procuradoria Geral da República mandou abrir um inquérito. Baseado nos dados vindos a público, o citado jornalista desenvolveu apreciações colaterais. Escreveu sobre as comissões de serviço na Região, sobre a presença regular em cocktails e recepções oficiais, nos "infindáveis e stressantes rondas para apresentação de cumprimentos à chegada ou à saída, mais os entediantes votos de Bom Natal e por aí abaixo" e que "do resto do trabalho, se é que há, pouco ou nada se sabe cá fora". Assumiu que, "na penumbra dos gabinetes, alguns actuam como ratos de sacristia, muitas vezes em conluio com o poder dominante que nunca se esquece de convidá-los para os pequenos e os grandes momentos sociais. Coisas que tornam a estada na Madeira muito agradável ao figurão e à sua família". 
O jornalista falou em abstracto, não se dirigiu em concreto a esta ou àquela figura, escreveu o que toda a gente comenta, todavia, cometeu o "crime" de, dizendo não dizendo, tocar nos que ainda se sentem intocáveis. Coisas da paróquia neste reino da anormal anormalidade. Para certos senhores, importante é que os jornalistas façam um biombo de protecção, que resumam a sua actividade aos "casos do dia" e que os acompanhem na perspectiva de divulgarem o que lhes interessa, não o outro lado das coisas, porventura de maior interesse para o povo. Interessa-lhes que divulguem os falsos milhões para "os senhores agricultores", que acompanhem o discurso oficial de que são tudo inventonas o que se passa nos sistemas de saúde e educação, importante é que ignorem as marinas de dinheiro que o mar leva, importante é que teçam louvores à economia, que essa coisa de empresários aflitos é só na cabecinha de alguns, que o desemprego está controlado e o crescimento tudo irá resolver, mais ainda, que falem da "obra" que fica para a História. Nunca da notável obra do desemprego e da pobreza, da obra da dívida e da dupla austeridade, da obra do desespero porque passam tantas famílias. Escrever sobre essas coisitas de somenos importância, dirão, é coisa rafeira, não de jornalistas, mas de ardinas!Só que vão ter que conviver com a crítica. Vão ter de perceber que isto não é um imenso Jornal da Madeira.
Ai que saudades alguns revelam
ter pela Constituição de 1933!
Esquecem-se que estes não são os tempos da Constituição de 1933. Esquecem-se que são passados oitenta anos, pelo meio aconteceu um 25 de Abril e que hoje toda a censura é estúpida. Não vale a pena por aí militarem, porque uma coisa é a escrita que atenta contra a dignidade e o respeito que as pessoas merecem, outra a narração de situações políticas que, ao contrário de enaltecerem os seus actores os coloca numa situação de total fragilidade. Quando as pessoas são ofendidas, alto e parem o baile, aí a Justiça tem de funcionar; quando, politicamente são visadas, resta-lhes o direito de resposta, mesmo quando os textos são abstractos. Uma coisa é dizer que fulano de tal é um ladrão, um gatuno e que vive à custa dos outros; outra coisa é dizer que temos um governo "ladrão", que vive à custa do agravamento dos impostos e taxas, quando, todos os dias, sentimos que diminuem os salários e as aposentações, que o IMI é agravado, que o IVA torna as aquisições insuportáveis, etc. etc.. 
Quantos jornalistas e comentadores, no Continente, não estariam com processos crime em função do que escrevem e dizem sobre a tripla Passos/Gaspar/Portas? Quantos? Habituem-se, com quase quarenta anos de atraso, que aos tempos são outros, são de mudança.
Ilustração: Google Imagens.

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