sexta-feira, 7 de junho de 2013

O SUPERIOR INTERESSE DOS ALUNOS! E O SUPERIOR INTERESSE DOS PROFESSORES?


Quando se negoceiam posições diferentes todos temos de perder alguma coisa para que todos ganhem muito. É isto que o ministro não entende, porque, ideologicamente, está amarrado ao despejo de milhares de professores para fora do sistema educativo. Quer impor a mobilidade como se as pessoas fossem peças descartáveis, de utilização fácil e pontual e, logo de seguida despachadas para aterro! Não são, Senhor Ministro. O Senhor sairá e os professores vão continuar. Tal como ouvi, na RTP, uma Senhora de uma aldeia: está na hora de saírem pela porta antes que tenham de sair pela janela!

O secretário regional da Educação, na esteira do ministro da Educação reafirmou, relativamente à greve dos professores, marcada para o dia 17, coincidente com os primeiros exames nacionais, que estão em causa "os superiores interesses dos alunos". Pois bem, senhor ex-sindicalista hoje governante, e os superiores interesses dos professores? Uma classe profissional desde há vários anos maltratada, com carreiras sucessivamente congeladas (como toda a Administração Pública) com milhares de professores todos os anos com a casa às costas, sujeitos à mais cruel impossibilidade de constituição de uma família, subordinados a um inaudito e ultrapassado sistema de avaliação de desempenho, com uma infernal burocracia que desvia a atenção da sua missão para tarefas que não atrasam nem adiantam o processo ensino-aprendizagem, atirados agora para a mobilidade especial que pode envolver entre 10 e 14.000 docentes, muitos com vinte, trinta e mais anos de serviço, a braços com uma substantiva redução dos salários até saírem do sistema, sujeitos às consequências economicistas do significativo aumento do número de alunos por turma, atirados para horários de trabalho agravados que não têm em consideração tudo o que um professor tem de fazer para além das horas de leccionação, professores que vêem a intencional degradação e retrocesso da Escola Pública pelas características neoliberais em curso, professores que têm noção da ausência de financiamento para cumprirem os projectos educativos, que olham para a destruição da rede escolar que coloca em causa uma escola inclusiva, professores, enfim, que olham para a sua carreira e sentem a violência com que são tratados, cada vez mais precarizados, professores que olham para a indisciplina e sinais graves de violência consequência de uma sociedade desestruturada, pergunto, então, se estes professores não devem lutar pelos seus superiores interesses? Interesses, sublinho, que são os interesses de todo o País? Eu sei que não há professores sem alunos, mas também não há alunos e futuro de um país sem professores. 
Ora bem, eu só sinto a falta do padeiro quando ele faz greve; eu só sinto a falta do médico quando ele decide faltar à consulta do hospital; eu só sinto a falta de qualquer serviço público ou não quando lá vou e dou com as portas fechadas; eu só sinto falta dos transportes quando eles ficam na estação. Aí sinto que esses trabalhadores têm direito à indignação e a dizer basta. Porém, para o Presidente da República, que se esconde para não falar de assuntos bem mais graves do que uma greve (a miséria que estes governos da República e da Madeira estão a semear) para ele os "alunos devem ser poupados". Os direitos dos professores, esses, certamente, NÃO. Eu que fui professor durante toda a minha vida sei o que é ser professor, hoje mais do que nunca. E sei o desrespeito de que têm sido vítimas ao longo dos anos. Lá foi o tempo que um professor de qualquer nível de ensino era olhado com respeito, admiração e consideração. Hoje, não. são tratados como "lixo" por aproximação à linguagem das agências de rating. Não foi por acaso que mais de 100.000 professores se manifestaram em Lisboa contra as políticas do ministério da Draª Maria de Lurdes Rodrigues. E perante todo este quadro vem o ministro e o secretário falar de "superiores interesses dos alunos"? E vem o ministro ameaçar com uma "requisição civil" (procedimento que é ilegal face à lei) quando a essência da questão está no diálogo e na concertação? E vem o secretário regional falar de superiores interesses dos alunos, quando o governo a que pertence deve aos professores da Madeira cinco ou seis milhões de euros por atrasos na correcção dos seus salários. 
Quando se negoceiam posições diferentes todos temos de perder alguma coisa para que todos ganhem muito. É isto que o ministro não entende, porque, ideologicamente, está amarrado ao despejo de milhares de professores para fora do sistema educativo. Quer impor a mobilidade como se as pessoas fossem peças descartáveis, de utilização fácil e pontual e, logo de seguida despachadas para aterro! Não são, Senhor Ministro. O Senhor sairá e os professores vão continuar. Tal como ouvi, na RTP, uma Senhora de uma aldeia: está na hora de saírem pela porta antes que tenham de sair pela janela!
Ilustração: Sítio da Internet da Fenprof

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