sábado, 20 de julho de 2013

A AMPULHETA E O PRESIDENTE


Ou o Presidente se despacha com o "despacho" ou vamos ter um sarilho e dos grandes. E para mim é claro que quem deitou areia neste processo foi, exactamente, o Presidente da República. A engrenagem já não funcionava bem, todos sabemos que estava desconjuntada, agora muito pior com tanta areia vertida para dentro do motor. A história de "eu avisei" chegou ao final. Há dias, João Garcia, no Expresso, tocou no ponto que o Presidente escamoteou: "(...) Pedir a Passos que governe com um bocadinho do programa socialista e a Seguro que feche os olhos aos desígnios dos social-democratas é o mesmo que acreditar que Eva poderia ter resistido a trincar a maçã. Mais tarde ou mais cedo viria a dentada fatal. Se Passos e Portas ainda não esconjuraram a austeridade e até asseguraram que Gaspar continuará, pelo menos em espírito, nas Finanças, e o PS ainda não desistiu de contrapor o desenvolvimento, como encontrar a conciliação? Para quanto é preciso reduzir o corte de 4,7 mil milhões de euros no Estado Social para que possa ter a bênção do PS? E qual a dimensão do corte a fazer nas propostas do pacote laboral da Função Pública? O Governo seria de matriz democrata-cristã, liberal, social-democrata e teria uns pozinhos de socialista?"

Veredicto: Culpado!

Assim se perdeu mais uma semana. Qualquer pessoa atenta, com alguma memória e independente de mexericos políticos, percebia que estes encontros de "compromisso" não iriam dar em nada. Tão simples quanto esta pergunta que se impunha ao Presidente, no silêncio do seu gabinete: se existe uma maioria absoluta na Assembleia da República e se, apesar de todos os indicadores que denunciam o descalabro do País, são inoportunas eleições antecipadas (disse), que justificação existe para chamar à liça o maior partido da oposição, depois de dois anos a ser massacrado e ignorado? Não se questionou. O que terá, então, passado pela cabeça do Presidente? Talvez, a tentativa de esbater a incompetência governativa do PSD/CDS, chamando, no limite, para o governo, o PS, por aí amarrando-o politicamente? É uma hipótese. Mas uma hipótese que qualquer pessoa minimamente informada adivinhava que não levaria a parte alguma. Foi uma encenação de má qualidade. Entretanto, foi até às Selvagens, anilhou uma cagarra e esqueceu-se que os madeirenses andam "anilhados" há trinta e tal anos. Nem uma palavra sobre o desastre regional! Tudo bem, digo eu, cada assunto no seu lugar, tal como li algures, "cada cavaco no seu galho". 
Perdeu-se mais uma semana (já lá vão 21 dias, desde o início da crise política) que poderia ter sido aproveitada para caminhar no sentido da solução deste drama. O Presidente diz que tem outras soluções jurídico-constitucionais. Espera-nos, certamente, mais uma semana de impasse. A ronda de ontem pelos líderes partidários, em síntese, resumiu-se a dois partidos a dizerem ao Presidente que o terceiro não quer envolver-se na "festa", isto é, quem chumbou o PEC IV, quem trouxe a troika para Portugal, quem possibilitou que técnicos (não políticos) estranhos impusessem as regras de um repelente neoliberalismo, quem explorou os reformados e pensionistas até ao tutano, quem aplicou impostos insuportáveis, quem criou o código de trabalho, quem roubou direitos sociais básicos e inquestionáveis, quem mandou os jovens emigrarem, quem estrangulou as empresas e quem gerou desemprego, pobreza e emigração, agora, que resolva o problema. Ainda têm dois anos de mandato com maioria absoluta. Certamente que não disseram isto ao Presidente, mas o Presidente, se não enjoou na travessia Selvagens-Funchal, parece-me óbvio que terá chegado a tal conclusão. O que irá fazer, não sei. Pressuponho que, em um primeiro momento, forçará uma profunda remodelação do governo e, só depois,  poderá optar por eleições antecipadas. Se optar! A verdade é que perdemos tempo e a ampulheta, enquanto relógio de areia, com o Presidente nela metido, está quase no limite. 
O tempo está a esgotar-se...
e ele "anilhado" a quê?
Ou o Presidente se despacha com o "despacho" ou vamos ter um sarilho e dos grandes. E para mim é claro que quem deitou areia neste processo foi, exactamente, o Presidente da República. A engrenagem já não funcionava bem, todos sabemos que estava desconjuntada, agora muito pior com tanta areia vertida para dentro do motor. A história de "eu avisei" chegou ao final. Há dias, João Garcia, no Expresso, tocou no ponto que o Presidente escamoteou: "(...) Pedir a Passos que governe com um bocadinho do programa socialista e a Seguro que feche os olhos aos desígnios dos sociais-democratas é o mesmo que acreditar que Eva poderia ter resistido a trincar a maçã. Mais tarde ou mais cedo viria a dentada fatal. Se Passos e Portas ainda não esconjuraram a austeridade e até asseguraram que Gaspar continuará, pelo menos em espírito, nas Finanças, e o PS ainda não desistiu de contrapor o desenvolvimento, como encontrar a conciliação? Para quanto é preciso reduzir o corte de 4,7 mil milhões de euros no Estado Social para que possa ter a bênção do PS? E qual a dimensão do corte a fazer nas propostas do pacote laboral da Função Pública? O Governo seria de matriz democrata-cristã, liberal, social-democrata e teria uns pozinhos de socialista? Na próxima campanha eleitoral teríamos a singular situação de ver o PS criticar o Governo cessante apesar de ter aplicado parte das suas propostas, e a maioria a lamentar não ter feito melhor por ter sido constrangida pela oposição". Mais para quê?
Ilustração: Google Imagens. 

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