quinta-feira, 25 de julho de 2013

FÉRIAS OLX NO PORTO SANTO


Não fica bem. Aliás, fica muito mal. Os governantes e ex-governantes deveriam ter consciência que as casas, do Porto Santo e outras, não são do governo, mas sim propriedade da Região. Significa isto que não podem existir nem privilégios nem privilegiados. Mas, independentemente deste aspecto, fica mal, muito mal, quando são utilizadas a preços OLX. Qualquer pessoa, governante ou ex-governante deveria ter vergonha de uma situação dessas. Não me custa aceitar, por exemplo, no Porto Santo, a existência de um espaço de trabalho, repito, de trabalho, para os representantes (líderes) dos órgãos de governo próprio, apenas esses, mesmo aquando de uma situação de férias. Instalar-se para gozar férias low cost, bom, essa é uma outra história só possível em um quadro de quero, posso e mando, com tonalidades ditatoriais. O problema é que temos aí quase trinta e sete anos de maus hábitos, advindos de uma cultura que perdurou durante outros quarenta e oito anos. Isto é, o madeirense tem, embora o último período seja caracteristicamente soft, oitenta e cinco anos de uma cultura de senhorios. Quem pensa que a colonia foi extinta está redondamente enganado. A colonia é que é outra e manifesta-se de múltiplas e sofisticadas maneiras. Os colonizados, também.
 

Ora bem, o senhorio, o que manda nisto, o "único importante" o que põe e dispõe, actua e garante estas benesses. Até impossibilita que o regulamento dessas casas sejam do conhecimento de todos, conforme revela a edição de hoje do DN-Madeira (Casas dos Segredos). Para tê-los submissos, curvados e obedientes, obviamente que o regime tende a desenvolver situações que prendem o rabo dos que se vergam. Podem até ter a percepção de que estão a ser engolidos na sua dignidade, mas vendem-na a preço de saldo. Como se a dignidade tivesse preço! 
A iniciativa do PND tem, por isso, no plano político, a sua razão de ser, sobretudo quando de forma tão descarada estes senhores actuam como se fossem donos desta parcela do território português. Há que travar esta ausência de pudor, com contornos fraudulentos, na utilização dos bens que são públicos. Poderão alguns dizer que não fica bem, que aquela iniciativa pode configurar um crime de introdução em lugar vedado ao público. Pois, o poder dos senhorios assim considerará, mas digam-me lá, então, como fazer eco, de forma extremamente pacífica, com características de teatro de rua e com muito humor à mistura, de uma situação que é vergonhosa à luz dos princípios e dos valores que devem nortear a democracia e a administração dos bens públicos? Esta acção foi muito mais eficaz no plano político do que a denúncia através de um qualquer artigo de opinião. Não sei se outros não pensarão duas vezes antes de solicitarem a utilização daquele espaço a preço de saldo. Ou mesmo os próximos inquilinos, a partir dos próximos dias!  
A revolta de muitos portosantenses sobre estas férias "douradas" dos senhores governantes e ex-governantes explicam que, de facto, estão fartos de sentirem que o Porto Santo é uma colónia de férias de alguns senhores do Funchal. Um povo que anda a passar muito mal, com desemprego, pobreza e empresários insolventes, obviamente que exige respeito, quando olha para o lado e vê que não somos todos iguais, uns, na realidade, são mais iguais do que outros! Basta ir, por mera curiosidade, ao sítio da internet onde são divulgados os preços de utilização do parque de campismo do Porto Moniz e compararmos os preços aí praticados (desconheço se foram actualizados) com a(s) casa(s) utilizada(s) no Porto Santo (por dia): tenda de 25m2 € 7,00 + € 2,80 por pessoa (4 pessoas = € 11,20). Total: € 18,20, para além de uma caução de € 25,00... para dormir no chão e sem as diversas comodidades de uma casa. Então tudo isto não é merecedor de um teatrinho no quintal da casa?
Ilustração: Capa do DN-Madeira.

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