sexta-feira, 9 de agosto de 2013

UM REGIME QUE CASTRA O PENSAMENTO É UM ABCESSO NA DEMOCRACIA


Há dias, cruzando-me com uma figura que anda a percorrer o Funchal mais recôndito, o Funchal esquecido ou adiado, disse-me: "isto não é fácil (...) as pessoas olham para os políticos e dizem que são todos iguais e há quem acredite, ainda, que o voto não é secreto". Andei para trás com o filme das minhas experiências e aquela posição era exactamente igual a outras experimentadas por mim. Depois da circunstancial conversa, já no regresso a casa, apelando à memória, ocorreram-me vários momentos, eu diria dramáticos do ponto de vista da cidadania. Quando desempenhei a função de Vereador da Câmara Municipal do Funchal, numa determinada campanha, à porta da Câmara, dirigi-me a uma funcionária já com uma certa idade e entusiasmei-a a votar na lista que eu ali representava. Disse-me de imediato, de forma humilde e convincente: "sim senhor, senhor Vereador, sim senhor, eu voto sempre no senhor presidente". Isto é, para ela, certamente, havia um "patrão", não havia partidos e não havia propostas diferenciadas. O que dizer a uma pessoa destas? Muito difícil, convenhamos que é muito difícil. E lembro-me, ali para os lados de S. Gonçalo, entrar numa casa, muito pobre, com uma mesa a um canto, e junto à imagem de Nossa Senhora e de uma lamparina que alumiava, estava um postal com a figura de Alberto João Jardim. A senhora, com idade avançada, lamentava-se da sua triste vida, mas não compreendia que, aquele postal, do ponto de vista político, representava a causa de uma significativa percentagem do seu sofrimento. Repito, o que dizer a uma pessoa destas? Como explicar às pessoas que não são todos iguais? Que uns estão no poder desde sempre e que elas nunca experimentaram outras formas de governar? Como explicar que o voto é secreto, que não existem câmaras a gravar a opção de cada um, a uma pessoa que acredita que "eles sabem, sabem e eu tenho a certeza que sabem". Como explicar a democracia àquele homem que acredita que a pensão é dada pelo Alberto João Jardim e não "me venha para cá dizer que isso não é verdade"? Compreendamos que não é fácil.


As campanhas eleitorais são férteis em situações que permitem tomar o pulso à sociedade, à mentalidade do povo, àquilo que pensa e sente, aos seus dramas e anseios, ao seu olhar crítico sobre os políticos. Esses momentos do porta-a-porta são de uma enorme riqueza, porque as pessoas soltam-se e dizem o que lhes vai na alma. Dizem o que os políticos gostam de ouvir e, sobretudo, o que detestam escutar. Mais do que um número para a comunicação social diária, as campanhas servem para escutar, divulgar a mensagem política e até para exercer uma certa pedagogia da democracia, concretamente, dos respectivos direitos e deveres. Das minhas experiências vividas desde o centro da cidade até às ruas, impasses, becos e entradas, um pouco por toda a ilha, guardo diálogos extremamente enriquecedores, mas também situações que muitas vezes me conduziram à interrogação: o que ando eu aqui a fazer?
Vem isto a propósito de, há dias, cruzando-me com uma figura que anda a percorrer o Funchal mais recôndito, o Funchal esquecido ou adiado, disse-me: "isto não é fácil (...) as pessoas olham para os políticos e dizem que são todos iguais e há quem acredite, ainda, que o voto não é secreto". Andei para trás com o filme das minhas experiências e aquela posição era exactamente igual a outras vividas por mim. Depois da circunstancial conversa, já no regresso a casa, apelando à memória, ocorreram-me vários momentos, eu diria dramáticos do ponto de vista da cidadania. Quando desempenhei a função de Vereador da Câmara Municipal do Funchal, numa determinada campanha, à porta da Câmara, dirigi-me a uma funcionária já com uma certa idade e entusiasmei-a a votar na lista que eu ali representava. Disse-me de imediato, de forma humilde e convincente: "sim senhor, senhor Vereador, sim senhor, eu voto sempre no senhor presidente". Isto é, para ela, certamente, havia um "patrão", não havia partidos e não havia propostas diferenciadas. O que dizer a uma pessoa destas, funcionária do município? Muito difícil, convenhamos que é muito difícil. E lembro-me, ali para os lados de S. Gonçalo, entrar numa casa, muito pobre, com uma mesa a um canto, e junto à imagem de Nossa Senhora e de uma lamparina que alumiava, estava um postal com a figura de Alberto João Jardim. A senhora, com idade avançada, lamentava-se da sua triste vida, mas não compreendia que, aquele postal, do ponto de vista político, representava a causa de uma significativa percentagem do seu sofrimento. Repito, o que dizer a uma pessoa destas?
Como explicar às pessoas que não são todos iguais? Que uns estão no poder desde sempre e que elas nunca experimentaram outras formas de governar? Como explicar que o voto é secreto, que não existem câmaras a gravar a opção de cada um, a uma pessoa que acredita que "eles sabem, sabem e eu tenho a certeza que sabem". Como explicar a democracia àquele homem que acredita que a pensão é dada pelo Alberto João Jardim e não "me venha para cá dizer que isso não é verdade"? Compreendamos que não é fácil. E quando esgotados todos os argumentos acaba por dizer: "está bem, mas vocês são todos iguais". 
É claro que, aos poucos, os tempos estão a mudar, há mais gente esclarecida, há mais pessoas com um sentido dos seus direitos, muito pela persistência dos partidos e das estruturas sindicais, mas também há cada vez mais abstencionistas que não usam a arma do voto para se libertarem das amarras. São pobres, espoliados, esquecidos, desempregados, vivendo do desenrasca e das instituições que matam a fome e que são incapazes de demonstrarem no silêncio do acto do voto que discordam das políticas seguidas.  É claro que, a montante deste quadro, está uma Escola que não educa(ou) para a cidadania. Custa-me aceitar pessoas com quarenta, cinquenta anos de idade que, em Abril de 1974, eram bebés ou jovens com dez, doze anos, e que continuam a demonstrar gravíssimas lacunas as estes níveis. Nem a Escola nem a Vida educaram. Conheço professores que me confidenciaram terem receio de certas abordagens, de aproveitar certas circunstâncias para educar para a cidadania, simplesmente porque, dizem-me, podem vir a ser visados. É estúpida esta concepção que se limita ao manual, quando a vida é muito mais que as linhas do conhecimento inscritas nas páginas nos manuais do saber. Eu (e muitos outros) nunca tive qualquer receio, pelo contrário, aproveitei sempre para colocar os meus alunos a percepcionarem o outro lado das coisas e fazê-los descobrir que existem outros olhares na condução da vida colectiva. Nunca do ponto de vista partidário, mas sempre do ponto de vista político. Porque onde está o Homem está a concepção política. Sempre entendi isso como fazendo parte do meu mister, porque a Escola é determinante na afirmação de pessoas livres, cultas, democráticas e capazes de fazerem opções, sejam elas quais forem, sublinho. 
Bom, isto para dizer que estamos a pagar com juros a aberrante política educativa, centralizadora, castradora do pensamento e que não apenas tem conduzido ao insucesso e à exclusão, como não tem ajudado à libertação da sociedade. Ainda assim acredito que a "Mudança" acontecerá, pela via da conjugação de esforços. Veremos.
Ilustração: Google Imagens.

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