terça-feira, 1 de outubro de 2013

O ESCLARECIMENTO DA VERDADE


Agora, passada a euforia de uma longa noite eleitoral, depois de saborear a doçura da vitória com um pequeno cálice de um "Madeira" com sabor a LIBERDADE e a DEMOCRACIA, como quem brinda por todos, é tempo de outras análises. Concretizou-se o que há muito já deveria ter sido feito, só que estamos agora confrontados com um novelo com imensos nós cegos que muitos, durante muitos anos, se entretiveram como se de um jogo se tratasse. Será necessário unhas para pegar o fio à meada, desapertando os entrelaços, com muita paciência, tolerância, apuramento da verdade e busca de novos caminhos. Só por aí será possível encontrar um rumo. E isto leva o seu tempo. Em sete concelhos somam-se 37 anos de abdicação da autonomia autárquica e outros tantos de ingerência do poder regional, condicionando tudo e todos. Concelhos onde nunca se soube onde terminava o governo e começava a autarquia e vice-versa, mais ainda, onde começavam e terminavam as responsabilidades de investimento de uns e de outros. Para além do severo controlo de todas as instituições políticas e todas as outras nascidas da sociedade, as inaugurações são prova disso. Portanto, os novos autarcas vão, certamente, confrontar-se com situações de arrepiar, de autêntico calafrio e insónias, só de pensar como corrigir o passado e lançar as bases de um futuro promissor. Nos próximos tempos, estou em crer que, em vários domínios, muito se saberá. Não estou aqui a lançar qualquer anátema sobre quem sai, sobre a seriedade ou falta dela, apenas estou a pensar alto sobre o que governos do tipo "duracel" são capazes de engendrar ou de encobrir. 


Não me passaria pela cabeça, por exemplo, que o governo regional não tivesse reportado às instâncias superiores milhares de facturas que, mais tarde, vieram a agravar o défice público nacional e a implicar uma dupla e penosa austeridade regional! Sabia-se da existência de uma dívida pública significativa, mas não imaginava que os números fossem tão dramáticos. Assisti, durante quatro anos, desde 2007 a 2011, na Assembleia Legislativa, ao esforço do Deputado Carlos Pereira, economista e estudioso destas questões, para demonstrar que a dívida era, na expressão de Vítor Gaspar, "colossal", mas perante a factualidade, assisti também à sucessiva mentira de um secretário que conjugava o verbo ocultar em todos os tempos e modos. Ora, se isso aconteceu, neste domínio e em outros, parece-me natural que venhamos a assistir ao conhecimento de situações complicadas, sobretudo pela excessiva cumplicidade entre o governo regional e as Câmaras Municipais. Cumplicidade da qual redundou, é preciso ter presente, várias condenações em Tribunal. Viveu-se um tempo em que tudo parecia fácil e tudo se ocultava e tanto assim é que, umas vezes por culpa dos autarcas, outras por ausência de acompanhamento fiscalizador, as penalizações fizeram-se sentir.
Ora, trata-se de um quadro muito complexo. Tudo leva a crer que os novos executivos, mesmo sem quererem andar à procura do anormal, vão confrontar-se com situações de espanto e passíveis de serem averiguadas até ao pormenor. Quem agora pega o leme não vai, certamente, assumir responsabilidades de outros. Em Santa Cruz, por exemplo, o presidente eleito já assumiu que solicitará uma auditoria, pois quer saber tudo sobre uma das Câmaras mais endividadas da Região. E isto é como as cerejas, quando se pega num assunto outros surgem pendurados! Do meu ponto de vista político, sobretudo porque precisamos de paz e de construir o futuro sobre outros alicerces, espero que haja contenção e que não se assista a uma onda de "caça às bruxas", o que não invalida, sublinho, o apuramento de responsabilidades, inclusive, para defesa de quem parte para quatro anos de cumprimento de um programa eleitoral. Identifico-me com a declaração do presidente eleito da Câmara Municipal do Funchal, Dr. Paulo Cafôfo: "(...) a ruptura é clara, mas serena". Isto é, há uma necessidade de romper com o passado, mas sem sobressaltos e atitudes que não dignificam. Mas, obviamente, que a serenidade da ruptura não pode nem deve apagar eventuais ilicitudes, inclusive, aquelas que podem ser criminalizadas. 
Todos os concelhos onde o PSD perdeu vivem uma aurora libertadora. Pelas declarações que tenho escutado vindas do povo mais humilde, sinto que elas estão a expulsar os medos e a convicção que não trabalham no governo, qual dádiva do senhor presidente, mas que são funcionários públicos; que têm deveres, mas que também têm direitos; e que não foi a Constituição, a Maçonaria, o DIÁRIO e a família Blandy, entre outros fantasmas, os responsáveis pelo desastre da Madeira. A população, maioritariamente, apontou o dedo ao PSD, ao presidente do PSD-M, a toda a estrutura quase demoníaca que nos foi consumindo em lume brando. Disseram basta. Agora, é tempo dos empresários e de todas as instituições públicas e privadas, saber interpretar os novos tempos sem medo, sem o receio de serem mal interpretados, até porque, como salientou o comentador de televisão Dr. Marcelo Rebelo de Sousa: "(...) Ele vai sair por uma porta pequeníssima" (...) sendo estranho que não perceba que já não devia ser presidente do Governo Regional e do PSD-M". O PSD-M entrará, assim, numa longa cura de oposição, e não será qualquer outro nome sucedâneo que aparecerá como salvador. Simplesmente porque todos leram pela mesma cartilha, todos têm o rabinho preso a muitas cumplicidades e interesses e o povo sabe que não vale a pena mudar as margens quando o problema é de ruptura com um passado de malfeitorias. Não faz sentido alguns dizerem que são diferentes quando lá estiveram trinta e tal anos!
Ilustração: Google Imagens.

2 comentários:

jv disse...

«Quem agora pega o leme não vai, certamente, assumir responsabilidades de outros»
Concordo em absoluto com o seu texto e na maneira responsável como o escreveu,ao contrário do que aconteceu de quem foi poder até agora que perante um excesso de «brandura», não terá pejo de a usar em seu proveito,e quando lhe convier, vai tentar ignorar o seu passado e transportá-lo para acções futuras. O exemplo dado até aqui, por este poder, é que nunca assumiu qualquer responsabilidade pelos seus erros, que foram sempre culpa de outros e nunca seus, mesmo na maior evidência dos factos. Façam um exercício de memória e tentem encontrar um acto de contrição e arrependimento por qualquer acção menos correcta, da sua governação.
Parabéns aos funchalenses e que lhes seja devolvida a dignidade da verdadeira cidadania.
Um abraço. JV

João André Escórcio disse...

Obrigado pelo seu comentário. No centro do alvo. Um abraço.