domingo, 13 de outubro de 2013

O FADO DE JARDIM: "NEM ÀS PAREDES CONFESSO"


Alberto João Jardim não tem condições para continuar a governar. Lidera o partido, mas apenas de nome. De facto, pelo que se lê e por aquilo que por aí vai circulando, ele já não lidera coisa alguma. A guerra é indisfarçável e não tem qualquer comparação com vários momentos que, por exemplo, na minha participação partidária, vivi no seio do Partido Socialista da Madeira. É verdade que as tensões internas são próprias das grandes organizações. O PS-Madeira, talvez pela sua longa permanência na oposição, viveu esses momentos e soube ultrapassá-los. Houve momentos desesperantes, mas nunca como estes que, quase diariamente, se assiste no PSD-Madeira. E ainda aqui  vai a procissão. O pior está para vir, quando as várias facções começarem a querer marcar terreno e quando os interesses de uns e de outros forem conhecidos, bem como as cumplicidades e a teia dos jogos de bastidores, com vários a querem fazer "xeque ao rei". Jardim é, assim, um homem derrotado, um político sem "tropas", rodeado de "amigos" que se transformaram em adversários, a maioria à "boca pequena", gente que atira forte e feito sobre os seus comportamentos políticos, desejosos que andam que desapareça de cena. O problema é que por razões que só a História colocará a nu, ele ali se mantém, contra quase todos, esperando uma derradeira oportunidade para sair por uma porta que lhe garanta alguma dignidade. 


As "Europeias", por exemplo! Será? Não sei. Um dado parece-me relevante, o facto de ter dito e escrito duas coisas com alguma importância política: primeira, que o PSD-M perdeu as autárquicas não pelo mérito das candidaturas da oposição, mas pelo efeito devastador das políticas nacionais; segunda, que, ainda assim, o PSD-M tinha somado maior número de votos depositados nas urnas. Isto significa ou poderá significar que, por um lado, sente a existência de alguma credibilidade junto do povo(!), por outro, complementarmente, que o problema não é ele, mas o que se passa no Continente, pelo que, no meio da confusão interna, dá sinais de alimentar a ideia de ser a única solução. A paranóia fá-lo esquecer que já ultrapassou os 70 anos. Mas se assim pensa, no meio da turbulência interna, então, que assuma e que venha a jogo, demita-se como o fez em 2007, provoque eleições antecipadas e aí logo se verá por que porta sairá! Só que ele é um homem apavorado face à pressão que sente por todos os lados. O labirinto interno é extremamente complexo e, no plano externo, para ele qualquer jogada envolve altos riscos. Nas últimas regionais a maioria ficou presa por escassos três deputados e, na sequência do resultado das autárquicas (7-4), parece óbvio que o PSD-M ficará em minoria no parlamento madeirense. Arriscar, portanto, constitui uma decisão muito complicada. Depois, não apenas as questões de ordem política estão em cima da mesa. Refiro-me ao número de apetites pelo lugar, aos quadros militantes que vêem restringidas as suas aspirações políticas, aos rabos-de-palha derivados de uma prolongada permanência de muitos pelos corredores do poder, ao golpe no seio do grupo parlamentar com um deputado a passar à situação de independente (AJJ e/ou outros terão alguma coisa a ver com isto?), até à fragilidade de uma Fundação (é ilusório dizer que Fundação e partido são "coisas" diferentes) que está em falta no cumprimento dos compromissos assumidos no que concerne às bolsas de estudo a estudantes, à Câmara do Funchal e à Empresa de Electricidade e, provavelmente, a outros. Dir-se-á que lhe resta a chave do partido. Está metido num inferno! Enredado em um fado cuja letra se aproxima do "nem às paredes confesso".
Mas todas estas divagações são do foro partidário. O mais grave é que no actual quadro a Madeira arrasta-se sem governo. Formalmente ele existe, porém, na prática, é um simulacro de governo. De uma ponta a outra, sem excepção. Sem dinheiro, sem ideias, sem capacidade de inovação, sem qualquer rasgo que ainda faça alguns acreditar que ele não é o problema, mas a solução, este mais parece ser um governo de gestão. Não parece, é. A economia não funciona, a economia paralela cresce, as dívidas acumulam-se, os madeirenses e portosantenses castigados com uma dupla austeridade, a pobreza multiplica-se, os sistemas educativo e de saúde soçobram e, perante isto, o que se vê? Mais 9,9 milhões transferidos (por empréstimo?) para as sociedades de desenvolvimento para "regularizar encargos com amortizações de capital de operações financeiras contratadas pelas sociedades junto do sistema bancário, respectivos juros e demais despesas correlacionadas. O valor remanescente fica para despesas de funcionamento e para regularizar compromissos junto de diversos credores referentes a fornecimentos e prestações de serviços reportados a anos anteriores" (DN-Madeira). Sempre atrás do prejuízo.
No meio deste descalabro, vem o primeiro-ministro dizer que a Madeira tem cumprido o plano de ajustamento. Pois tem, quem cá vive sabe como e à custa de quê e de quem. O desastre envolve-nos e consome-nos e ninguém tem a coragem de pôr a milhas os responsáveis pelo colapso. Se este quadro se passasse na Islândia quantos não estariam a contas com a Justiça. Quantos? Mas lá, curiosamente, assumiram que o "povo é quem mais ordena".
Ilustração: Google Imagens.

4 comentários:

jv disse...

Os ditadores raramente resignam.
Jardim sempre agiu com evidentes comportamentos ditatoriais e isto está implantado nos seu ADN político.
O seu ego nunca o permitirá resignar.
A oposição interna nunca terá a coragem suficiente para o confrontar verdadeiramente, pois toda ela está demasiado comprometida com o seu regime e à sua subserviência.
Abraço JV

Fernando Vouga disse...

Caro André Escórcio

Desde a memorável noite de 29 de Setembro que perdi a vontade de criticar Jardim. Porque
"bater no ceguinho" nunca foi um acto de coragem.

João André Escórcio disse...

Caríssimo Cor. Vouga,
Compreendo o seu comentário político. É verdade, eu também não gosto, por isso penso que melhor seria não ligar a esta triste e ridícula figura POLÍTICA. Mas, a verdade é que quase todos os dias, excluindo aqueles que se encontra em Bruxelas, o homem coloca-se a jeito! E vai daí...

João André Escórcio disse...

Caríssimo JV,
Absolutamente de acordo com o seu comentário. O jornalista Luís Calisto, no seu blogue, considera a Quinta Vigia como um centro de dia! Retirar-lhe aquilo penso que a sua vida deixa de ter sentido. Paulatinamente, caminha mais para ser "vigia da quinta" do que a função que legitima a sua presença naquele espaço.