sexta-feira, 1 de novembro de 2013

EM TEMPO DE DEBATE DO ORÇAMENTO DE ESTADO... A ENTREVISTA DE JOSÉ SÓCRATES AO EXPRESSO.


Passos Coelho sempre disse que não sabia de nada. “Mentiu, e deixou que outras pessoas mentissem. Ele sabe o que me disse. Um dia contarei esta história toda, não agora, aqui.” “Quando cheguei a Bruxelas, pedi o apoio da Comissão e do BCE, por escrito. O Barroso achou, como eu, que estava feito. Só faltava o papel, que os serviços do Barroso foram fazer. Aquilo foi discutido no Conselho e decidiu-se que Portugal não ia pedir ajuda. Houve uma intervenção manhosa do primeiro-ministro da Holanda, e eu, muito irritado, até lhe pedi que ele dissesse quanto é que Portugal lhe devia, porque não estava para ficar-lhe a dever um tostão nem aturar-lhe o calvinismo reles. Nunca tinha havido uma discussão daquelas no Conselho, e ele calou-se. É votado, e a Merkel vira-se para mim e diz: parabéns! O Barroso diz: conseguimos! Estava genuinamente satisfeito, e eu estava mais aliviado. Veio o Trichet, e eu disse-lhe que havia que estar de olho nos mercados. Desde que aprovássemos o PEC4, diz o Trichet, apoiar-nos-iam. Às quatro de cá ou cinco e meia de lá, o Barroso avisa-me, surpreendido, que o PSD vai chumbar isto. Telefono para Lisboa e sei que o Passos Coelho vai convocar uma conferência de imprensa. O Barroso sabia o que isto nos tinha custado. Os filhos da mãe da direita em Portugal deram cabo de uma solução apenas para ganharem eleições. Nunca contei com isto.”


Li a extensa entrevista que Clara Ferreira Alves fez a José Sócrates, ex-Primeiro-Ministro. Do meu ponto de vista constitui uma peça muitíssimo importante para conhecermos a História. Que ali não se esgota, obviamente. Tal como a páginas tantas sublinha, um dia contará outros aspectos. Fala com as palavras certas, por vezes saindo daquilo que se designa por "politicamente correcto" mas devidamente coontextualizadas, chama os bois pelo nome e passa toda a sua vida a limpo, desde as infâmias de natureza privada e íntima até às questões de Estado. Foram seis anos de ataques miseráveis e de muitas histórias forjadas, daí que, neste momento, mais do que o político, é um homem que, ofendido, depois de um  silêncio de dois anos, vem contar parte daquilo que a esmagadora maioria desconhece. Os visados que venham contrapor. Só que ainda não vieram. Poderá significar que engoliram, em "seco". 
Entretanto decorre o debate, na generalidade, do Orçamento de Estado para 2014. Ontem, os mesmos que mergulharam o país na situação que estamos a viver, chumbando o PEC IV, os mesmos que querem que o PS adira à "Reforma do Estado", esses mesmos deveriam ler a entrevista de José  Sócrates e pronunciarem-se. Acho que devem ter uma palavra a dizer. Andam calados que nem ratos, mas sempre de metralhadora em punho! Por mim estou esclarecido, embora gostasse de ter conhecimento de outras histórias ainda não contadas. 
Deixo aqui um  excerto, com a devida vénia à Jornalista e ao Expresso. Vale pena ler toda a entrevista aqui
"(...) E não ganhou com políticas eleitoralistas, como o aumento dos funcionários públicos, fatura que agora o país paga? “Em 2009, fizemos uma política anticíclica, de estímulos à economia, segundo as recomendações do FMI e de todos os países europeus. Evitar o desemprego e as falências. Medidas que, em 2009, a direita achava pouco. Mesmo no orçamento restritivo de 2010, depois da crise grega. Houve duas crises, a de Wall Street e a das dívidas soberanas na Europa. E é aí que a direita começa a falar na despesa, como se eles não tivessem proposto muito mais. Lutámos com todas as nossas forças para não pedir ajuda, tive consciência do que nos ia acontecer se o fizéssemos. A direita dizia que as instância externas só nos iriam ajudar a corrigir os erros de trinta anos. Passos Coelho dizia: porque não governar com o FMI? No ano 2010, enfrentei todas as dificuldades. Apesar de muitas instituições terem baixado os braços em 2011, construí uma solução com a ajudar de muita gente que conhecia na Europa, de forma que pudéssemos ter um programa em que o BCE nos ajudasse na manutenção de juros aceitáveis. E não tive o ‘consentimento’ da senhora Merkel para isso, não há consentimentos, nunca aceitei este discurso do protetorado. Negociei com a Comissão Europeia e com o Conselho a elaboração de um Programa de Estabilidade e Crescimento em que nos comprometíamos com exigências orçamentais, ajudando-nos no financiamento. Travei dois meses de combate, a seguir às presidenciais. Diziam que não íamos conseguir colocar dívida e conseguimos. Negociei com a Europa e com Barroso e com o BCE a solução. Se eles estivessem de acordo, assinavam por baixo. Foi difícil. A parte final foi o jantar com a Merkel, e fui a Berlim, porque ela teve a decência de me convidar. Noutro jantar ficara ao lado dela e ela disse-me que gostaria de dar uma palavra em defesa do nosso país e dar um sinal claro aos mercados. Nunca lhe pedi para ir a Berlim. A estratégia era o chamado Comprehensive Approach, não deixar pontas soltas. O problema era saber onde é que a Europa marcava a linha vermelha, com Portugal dentro ou com Portugal fora. Em fevereiro ou março de 2011, a Grécia e a Irlanda já estavam em programa. A Europa não queria mais ninguém. Em Berlim, tudo muito formal, conversámos e fomos jantar. A Merkel está do outro lado com aquele estupor do ministro das Finanças, o Schäuble, que foi agora corrido. Todos os dias esse filho da mãe punha notícias nos jornais contra nós. E ligávamos para o gabinete da Merkel, e ela, com quem me dava bem, dizia que vinha do gabinete do ministro das Finanças. No jantar, ela pô-lo ao lado para o comprometer. Disse: devo ser a única na Alemanha que acha que vocês não precisam de ajuda! Eu respondo-lhe que não se trata apenas de Portugal, se houvesse mais um caso de falhanço era mau para nós e para a Europa. E disse que propusera o PEC previamente negociado com o BCE e com a Comissão, de forma a evitá-lo. O programa era restritivo para contar com o apoio do BCE. Merkel respondeu: é mesmo isso! Contei-lhe que o [Jean-Claude] Trichet [diretor do BCE] queria mais duas coisas, legislação do trabalho, e não cedi. Ela disse-me para lhe dar uma dessas duas, porque precisávamos do BCE. Eu tinha dito ao Barroso que aquilo tinha de ser assinado por todos. O Barroso esteve sempre do nosso lado e defendeu Portugal, foi um patriota. Construí muito disto com ele, por aproximações. Só se portou mal mais tarde. Regresso de Berlim e acho que temos isto feito! Tínhamos uma semana para concluir o negócio. Em Portugal, foi a semana da tomada de posse do PR e da moção de censura do Bloco. Aquilo tinha de ser aprovado naquele dia. Chamei o Passos Coelho para lhe dar conta da situação, tínhamos que salvar Portugal.”
INVIABILIZAÇÃO DO PEC IV
Passos Coelho sempre disse que não sabia de nada. “Mentiu, e deixou que outras pessoas mentissem. Ele sabe o que me disse. Um dia contarei esta história toda, não agora, aqui.” “Quando cheguei a Bruxelas, pedi o apoio da Comissão e do BCE, por escrito. O Barroso achou, como eu, que estava feito. Só faltava o papel, que os serviços do Barroso foram fazer. Aquilo foi discutido no Conselho e decidiu-se que Portugal não ia pedir ajuda. Houve uma intervenção manhosa do primeiro-ministro da Holanda, e eu, muito irritado, até lhe pedi que ele dissesse quanto é que Portugal lhe devia, porque não estava para ficar-lhe a dever um tostão nem aturar-lhe o calvinismo reles. Nunca tinha havido uma discussão daquelas no Conselho, e ele calou-se. É votado, e a Merkel vira-se para mim e diz: parabéns! O Barroso diz: conseguimos! Estava genuinamente satisfeito, e eu estava mais aliviado. Veio o Trichet, e eu disse-lhe que havia que estar de olho nos mercados. Desde que aprovássemos o PEC4, diz o Trichet, apoiar-nos-iam. Às quatro de cá ou cinco e meia de lá, o Barroso avisa-me, surpreendido, que o PSD vai chumbar isto. Telefono para Lisboa e sei que o Passos Coelho vai convocar uma conferência de imprensa. O Barroso sabia o que isto nos tinha custado. Os filhos da mãe da direita em Portugal deram cabo de uma solução apenas para ganharem eleições. Nunca contei com isto.”
Quando é que os banqueiros o encostaram à parede? “Vim para Portugal na esperança de que mudassem de ideias. Vejo o Presidente a dizer que não foi consultado, o Passos a dizer que não sabia, e telefonei ao Lacão e disse que íamos fazer como o Cortés, incendiar as naus. Se eles chumbassem o PEC4, demitia-me. Quando se percebe que eles não iam aprovar e que ia haver uma crise política, as taxas de juro dispararam para 14%. Não havia condições para ir ao mercado. Em 15 dias, os juros passaram de 7% para 14%.”
Acha que fez bem em se demitir? Tinha dito que nunca se demitiria. “Aquilo foi tão irresponsável e out of the blue que não tinha outra solução. Fiz bem e acho que o devia ter feito antes. O erro foi, em 2009, ter aceite um Governo minoritário. Quem ia adivinhar que íamos ter uma crise das dívidas soberanas?” Dizem que ele não tentou verdadeiramente coligar-se. “Uma coisa são factos e outra opiniões. Tentei coligar-me com a Manuela Ferreira Leite, e ela disse: o nosso mandato é de oposição. Perguntei o mesmo ao Paulo Portas e ao BE e ao PCP.” Como é que ele admitia que o PCP ou o BE ficassem numa coligação com o PEC4? “Eu fiz a pergunta. Eu tinha um Governo minoritário com um programa de consolidação pela frente. Só tinha medo disso, não temia coligações.” (...)"
Ilustração: Google Imagens.

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