domingo, 26 de janeiro de 2014

QUE GRANDE HIPÓCRITA!


“O governo nada tem contra os funcionários públicos”, assumiu o primeiro-ministro. Só há uma palavra que o caracterize: hipócrita. Que o digam os funcionários mensalmente martirizados com uma longa lista de impostos, taxas e sobretaxas, encostados à parede com os inimagináveis valores do IMI, IVA, seguros, habitação, encargos gerais e com a substancial redução de direitos à saúde, educação e apoios sociais. Poderia explanar vários exemplos, de médicos, enfermeiros a professores, passando por todos os restantes sectores e áreas públicas, deixo, apenas, o confisco que se passa no sector que melhor conheço: o da educação e ciência. Na relação entre as receitas de 2013 e 2014 (ilíquido), o roubo anual a um professor contratado será de 1,1 salários (€ 1.442,84); a um professor no topo da carreira, o esbulho será de 1,7 salários (€ 5.194,26). Este último professor, muitos com quarenta anos de serviço, passará a receber, mensalmente, menos do que os descontos que faz (€ 1.540,28/1.551,54)! Fora os cortes que já vêm de trás. Em outras profissões o mesmo acontece. E o safado do primeiro-ministro diz, com aquele ar que transmite cinismo político, que “nada tem contra os funcionários públicos”, isto é, contra as carreiras profissionais violentadas, os direitos extorquidos e a confiança abalada.


Ele nada tem contra o “eterno” congelamento das carreiras, os despedimentos, a aberrante proposta de desvinculação, as 40 horas, a paranóia dos exames a quem já lecciona, o desmantelamento da escola pública e do SNS, contra os caminhos da tendencial privatização na lógica de um repelente neoliberalismo, nada tem contra o facto de à escola chegarem crianças com fome, milhares que ficam pelo ensino secundário ou desistem da frequência do ensino superior, o empobrecimento e retrocesso social e civilizacional do país, através da emigração, em geral, e dos talentos, em particular, contra, ainda, o desinvestimento na ciência. É verdade que nada tem contra, por um lado, pela sua (in)cultura, porque é insensível aos dramas do povo, por outro, porque se alimenta, no plano político, do sangue desse povo que, em campanha eleitoral, disse defender. Os funcionários públicos que se lixem, os reformados e pensionistas (públicos e privados) que se danem, novos e velhos que emigrem, porque o seu caminho ideológico, assente num estúpido posicionamento ultraliberal e a subserviência aos grandes e obscuros interesses europeus do deus mercado, e não só, determinam comportamentos de forçado empobrecimento e de escravatura, enquanto os credores enriquecem nesta mina a céu aberto. Três anos de sacrifícios e continuamos “lixo”! Só que há gente atenta. Sampaio da Nóvoa sublinhou que “ninguém tem o direito de ficar em silêncio” e Boaventura Sousa Santos alertou que “este é um governo de morte”.
NOTA: 
Artigo de opinião, da minha autoria, publicado na edição de hoje do DN-Madeira.
Ilustração: Google Imagens.

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