segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

UM DIA HAVERÁ JUSTIÇA


Excelente o trabalho publicado pelos jornalistas Élvio Passos e Ana Luísa Correia sobre o tema a fome na Madeira. Quase 29.000 madeirenses contaram com apoio alimentar ao longo do ano de 2013. E "a vergonha leva à preferência pelos vales, em detrimento das refeições". Nada de estranhar, uma vez que, segundo vários estudos, a pobreza atinge mais de 30% da população. O Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados (PCAAC) e Programa de Emergência Alimentar (PEA) não expressam toda a verdade. Mas a importância deste trabalho do DIÁRIO é que surge no mesmo período em que o governo regional apresentou o 16º volume das "obras" da propalada "Madeira Nova" e, em contraponto, vimos o estado de abandono e de miséria de uma família, no concelho da Calheta, onde vive o menino Daniel, alegadamente, vítima de rapto. Por um lado, a fome e a exclusão social, por outro, a incoerência política de uns governantes que não têm um pingo de vergonha na cara e apresentam um livro, com pompa e circunstância, com as fotografias das inaugurações. É a inversão das prioridades no seu esplendor, como se as pessoas comessem e vivessem melhor com as megalomanias dos senhores que sobrevivem, politicamente (e não só), à custa do paleio e do esmagamento dos madeirenses e portosantenses. O Dr. Jaime Freitas que, alegadamente, é o secretário da Educação, aqui sim, ao contrário do que disse na apresentação do livro das "obras", deveria perceber que "uma imagem vale mais que mil palavras"... a imagem da pobreza sem controlo.
 

Quando alguém, para matar a fome, é apanhado em flagrante furto, é detido e fica a contas com a Justiça. Mas quem governa, que não tem atenção ao colectivo, que deixa que a fome aconteça, não fica sob a alçada dessa mesma Justiça! Que incoerência! Quando a fome é pública e notória e vimos um governo mais preocupado com as lutas partidárias internas, questiono se certa gente não deveria ser julgada. Julgada não apenas nas urnas, mas na Justiça. Simplesmente porque o exercício da política não pode nem deve ser neutro, tampouco pode funcionar com o anúncio de preocupações, ao estilo Bernardete Vieira, onde se destaca o cumprimento com o chapéu dos outros. Importante seria, porque na História ficaria, levantar a voz e dizer em alto e bom som que o rei vai nu, que tem de existir uma estratégia política que acabe com o drama de centenas de famílias e milhares de pessoas. Uma voz que não estivesse apenas preocupada com as receitas da segurança social, mas com a transformação dessas receitas em políticas sociais concretas, que os seus amigos na Assembleia Legislativa da Madeira CHUMBAM
Ah, eu sei, houve um que levantou a voz, disse a verdade, e foi escorraçado, o Dr. Roque Martins! Pela sua frontalidade aqui estou a citá-lo. De outros(as) não rezarão a História, obviamente. O ex-dirigente da Segurança Social, em 2007, sem papas na língua, assumiu: "hoje a Segurança Social é única e exclusivamente uma caixa onde o poder político da Madeira põe a sua clientela" e que quem paga os custos do seu funcionamento é o Orçamento de Estado (...) "a República paga tudo". Falou da existência de 22% de pobreza quando já era, nessa altura, muito superior. Foi corrido, é certo, mas ficou a memória de um homem frontal. BV, tal como o secretário da Segurança Social, ambos deveriam saber, que isto não se resolve com acções caritativas, ou como pede o Senhor Bispo, com muita fé, resolve-se sim com políticas sérias, com opções que respeitem a dignidade do ser humano, com propostas económicas que visem a dinâmica do tecido empresarial e a consequente empregabilidade, resolve-se através de políticas educativas capazes de romperem com o círculo vicioso da pobreza e resolve-se com políticos que não sejam de vão de escada ou que façam do exercício da política uma profissão. Quem assim se comporta deveria ser julgado, porque, para mim, é muito menos grave quem rouba uma peça de fruta para sobreviver, relativamente àqueles que colocam outros à fome e, entretanto, enriquecem. Um dia haverá Justiça. Estou certo disso. Pena tenho que o fotógrafo madeirense João Pestana, não tenha menos uns "anitos" e sobretudo paciência para fotografar e fazer o álbum da "Madeira Nova" envergonhada, remetendo-o, depois, ao "único importante" e seus sequazes. Ele, como escreveu o meu Amigo Danilo Matos,que "fotografou a Cidade como ninguém, com arte, com paixão, com vida (...)".
Nota:
O secretário dos Assuntos Sociais e a presidente da Segurança Social que leiam o FB de Sara Medeiros André, ex-deputada do PSD-Madeira. O desabafo é significativo. E se não conseguirem perceber, demitam-se, coisa que há muito já deveriam ter feito. Deixo aqui um aperitivo: "(...) Tenham vergonha!!!!! Estou profundamente envergonhada por esta gente que se julga "de sabedoria superior"... Já começa a fartar esta "merda" ... desculpem o desabafo!!!!
Ilustração: Google Imagens.

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