sábado, 29 de março de 2014

DEIXEM-ME TRABALHAR


Tenho por princípio o respeito pelas instituições. Ainda para mais quando resultam de actos democráticos. Outra coisa é nutrir respeito pelas pessoas que ocupam certos lugares e cuja actividade acabamos por olhar de forma enviesada. É o caso desta figurinha, do meu ponto de vista responsável por tudo quanto aconteceu nos últimos anos em Portugal. Há pessoas que se atiram, por exemplo, a José Sócrates com uma tal agressividade política que até arrepia. Como se ele tivesse sido culpado pelos desmandos internacionais, nascidos fora de Portugal, e que arrastaram quase toda a Europa para a maior crise dos últimos oitenta anos. Esquecem-se o que de bom foi feito, caso concreto,  a redução de um défice de 6,83% do PIB para menos de 3% apenas em uma legislatura, com crescimento económico e reforço dos apoios sociais. Esquecem-se da abertura às exportações com múltiplas visitas e protocolos que agora estão a resultar. Esquecem-se da luta pelas energias limpas, pela não dependência externa ao nível dos combustíveis. Esquecem-se da renovação do parque escolar e da obrigatoriedade do 12º ano. Esquecem-se das questões da igualdade e do salário mínimo nacional. Esquecem-se do PEC IV que teria evitado a troika (olhe-se para o caso espanhol). Esquecem-se que houve um político que chegou a ter o País com 9% de défice, e pimba, toca a desancar como se Sócrates fosse o culpado dos "madoff's" do nosso tempo. 



Entretanto, há uma figura, este aqui ao lado, que foi primeiro-ministro durante dez anos e que chegou a ter um défice nas contas públicas superior a 9%, que pouco se ralou com a Agricultura e com as Pescas, que nomeou cinco ministros da Educação em dez anos, responsável, portanto, pelas altas taxas de abandono e insucesso, que teve e certamente continua a ter amigos não recomendáveis, vários que deixaram um rasto de alegada corrupção ainda sob investigação, um político que, hoje, se comporta como membro do governo, que vê o desastre e não actua, que vê a pobreza e assobia para o lado, que vê o desemprego e não chama à atenção, que tem à sua frente milhões, desde as forças militares a outras, descontentes, em permanente manifestação de desagrado e deixa correr o marfim, que assiste à pouca-vergonha do assalto aos reformados e pensionistas e perante tudo isto e muito mais, continua por aí a dizer o óbvio, tipo timex, "que não adianta nem atrasa". 
Mas Sócrates foi o culpado e continuará a ser o culpado! Interessa que assim seja, pois tem de existir um bode expiatório. Obviamente que não estou aqui a ressalvar erros de governação, quem não os teve ou tem! Gosto, sim, é de aferir os comportamentos políticos pelos pratos da balança, E o que fica da propaganda é que Cavaco não tem nada a ver com o que se passa. Um santo! Por isso mesmo, fui reler a carta de Carlos Paz que pode ser aqui lida.
E, já agora, sobre Sócrates, deixo a posição de Óscar Mascarenhas sob a ridícula entrevista (pressupostamente, tratava-se de um comentário aos assuntos da semana) de José Rodrigues dos Santos a José Sócrates: "O "baile" de José Sócrates a José Rodrigues dos Santos...
Regra número não sei quantos do jornalismo: Nunca faças perguntas encomendadas pelo teu chefe/patrão ou pela tua prosápia, sem antes estudares bem os dossiês e o entrevistado. O José Rodrigues dos Santos, se tiver caráter, deve colocar no seu currículo a mais humilhante figura que fez esta noite quando tentou "atrapalhar" José Sócrates, prestando-lhe o favor de demonstrar que o entrevistado está em forma e em condição de defrontar todos na política dos nossos dia. Foi um "baile" que José Rodrigues dos Santos levou, a ponto de José Sócrates lhe dizer, a terminar, por outras palavras: "Para a próxima, preparem-no melhor." Se fosse comigo, ou fazia dos pés um berbequim para me enterrar ali mesmo, ou levantava-me, com "fair-play", e pedia desculpas ao entrevistado pelo frete ao patrão que não tinha conseguido fazer... (Se eu fosse de fazer fretes ao patrão...) Que lástima, José Rodrigues dos Santos! Quis mostrar como se faz à Cristina Esteves - que já interrompia Sócrates a despropósito, não lhe ficando nada bem o papel - e ainda fez pior. Espero que o catedrático de jornalismo passe o vídeo nas aulas e ensine: "Nunca façam esta figura que eu fiz."
Mas, repito, Sócrates continua a ser o culpado. Porque interessa que assim seja.
Ilustração: Google Imagens.

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