sexta-feira, 21 de março de 2014

"NÃO ACEITO QUE A MADEIRA TENHA DE SER POBRE"


Pertencemos a um País aparentemente livre e democrático. Pelo menos a partir do texto constitucional. Daí que ninguém tenha nada a opor às bocas que se abrem e às línguas para dizer coisas. Exactamente isso, coisas! Palavras, palavras e só palavras, transformadas em frases que, analisadas à lupa, valem zero e nula a sua credibilidade. A intervenção de ontem do Dr. Miguel de Sousa (PSD), Vice-Presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, trouxe-me à memória um velho professor, que tinha sido dirigente da hierarquia política do Estado Novo. Tinha eu regressado à Madeira, depois de dois anos de comissão militar na Guiné-Bissau (1972/74), estávamos no final do ano de 1974, com ele me cruzei, falámos, amenamente e, a páginas tantas, com uma necessidade de colagem aos ventos de mudança, disparou: "sabes que eu nunca tive nada a ver com aquela gente"! Não havia necessidade, pensei. O Dr. Miguel  de  Sousa pareceu-me que também nunca teve nada a ver com os trinta e oito anos de governação PPD/PSD. Nada. Não foi membro do governo, não é vice da Assembleia, não aprovou todos os Orçamentos  e Contas de Gerência da Região, nunca fez intervenções políticas de apoio ao regime, enfim, do ponto de vista político está imaculado e olho-o com uma auréola sobre a sua cabeça.


Mas não, é CULPADO. É um dos culpados do estado a que a Madeira chegou. Não confundo o respeito bilateral que existe entre nós com a questão política. Sei separá-las e devo separá-las. O Dr. Miguel de Sousa é um dos culpados políticos, porque permitiu, anuiu, consentiu, nunca a sua voz se levantou para dizer fosse o que fosse aos madeirenses e portosantenses. Aliás, são todos culpados, todos os candidatos do PSD na luta pela liderança do partido. Os seus discursos não convencem, simplesmente porque laboraram no erro e sacodem culpas.
É fácil dizer: "(...) Não aceito que a Madeira tenha de ser pobre" e "a Madeira, se bem orientada e gerida, pode ter um 'superavit' que assegure suficiente bem-estar e conforto às famílias madeirenses". É fácil, mas necessário se torna ter moral e fundamento histórico para o dizer. E o Dr. Miguel de Sousa, tal como os outros, não tem. Porque este lá, não mexeu uma palha, aceitou todas as loucuras do "chefe", aplaudiu e curvou-se aos erros da "Madeira Nova". Vir agora dizer que deseja uma "Nova Madeira", constitui, para além de uma enorme falta de imaginação política, cair num trocadilho que, facilmente, as pessoas entendem ao que o candidato vem.
Mais, ainda. Há quantos anos a oposição lamenta e aponta os erros da governação? Há quantos anos fala da necessidade de novas políticas e que a Assembleia Legislativa da Madeira é uma enorme fraude política? Há quantos anos se fala que o problema não é a drástica redução do número de deputados, mas o que lá a maioria produz? Há quantos anos existe uma luta contra um jornal pago com os nossos impostos? Há quantos anos se fala da necessidade de uma reorganização administrativa da Madeira? Há quantos anos se pede que o presidente do governo regional preste contas à Assembleia de quem depende? Mais, ainda: e de quem foi a culpa de a Madeira estar, consecutivamente, desprestigiada no plano nacional? Quem moveu todas as guerras políticas com a República, por ausência de uma estratégia de diálogo com bom senso? Quem, neste aspecto, colocou em causa "(...) A nossa reputação" (...) "a nossa autoestima e orgulho colectivo"? Terá sido a oposição ou todos, mas todos aqueles que querem passar agora incólumes?
"(...) Muitas pessoas afastaram-se da vida política". Pois, e de quem foi a culpa? Quantos foram vilipendiados, de políticos a cientistas, com as mais bárbaras ofensas à dignidade? E alguma voz se fez ouvir? Ora bem, querem dar música celestial, querem passar uma esponja sobre o passado, só que a esponja está suja e quanto mais esfregam  o quadro das memórias, mais porcaria ressalta. Oposição é o que merecem. Um longa cura de oposição, para que possam expiar os "pecados" que conduziram a uma dívida impagável de mais de seis mil milhões, desemprego e pobreza.
Ilustração:  Google Imagens.

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