quinta-feira, 27 de março de 2014

"PESSOAS QUE SÃO VIVOS MORTOS"


Começa a ser um sofrimento a hora do jantar com o telejornal em frente. Aliás, há muito que é. Mas tenho esse hábito, todavia, por vezes, nem a frugal refeição me sabe, face ao que se passa diante dos meus olhos observadores. É difícil assistir àquela mãe, já com uma certa idade, com as lágrimas do sofrimento, a empurrar a cadeira de rodas da sua filha deficiente, durante dez quilómetros, porque o centro de saúde deixou de funcionar e não tem dinheiro para pagar o transporte; é impossível aceitar que a pobreza seja uma "paisagem", porque, hoje, é mais elevada relativamente a 2005, com 11% da população em privação material severa entre 25,5% dos residentes em privação material, isto é, mais 3,7 pontos percentuais do que em 2012 (21,8%); não é fácil aguentar a notícia que dá conta que metade dos alunos do 3º ciclo do ensino básico, no fundo, crianças, já  pensam emigrar; é revoltante ouvir que 55% dos jovens não consegue sair da casa dos pais, entre os quais 40% vive com carência extrema; apetece gritar aos ouvidos de certos senhores quando se sabe que o Ministério da Educação transferiu  172,7 milhões de euros para os 593 colégios privados, desfalcando o ensino público, única forma de romper com o círculo vicioso da pobreza; revoltante, quando se sabe que há colégios privados sob investigação por corrupção (vinte milhões) e enriquecimento ilícito; constrangedor quando vemos, gente nova e menos nova, inclusive licenciados, à porta das cantinas sociais, das paróquias e das instituições de solidariedade social, almoçando ou levando para casa as refeições que alimentam as famílias; é de bofetada na cara de certos governantes que vivem como lordes, mas que mandam desligar a energia eléctrica das habitações onde vivem crianças e idosos indefesos.


Há dias, cruzei-me com um médico amigo, experiente na medicina familiar, portanto, com uma grande sensibilidade para estas questões, pois passa-lhe pelo centro de saúde muitos e penosos casos. A páginas tantas, disse-me uma frase que me deixou prostrado: "sabe, todos os dias, confronto-me com pessoas que são vivos mortos". Impressionante. Gente que anda aí, mas que perdeu o sentido e a alegria de viver. Os medicamentos, os essenciais, prolongam-lhes a vida, mas neles, já não mora a felicidade de viver. Dramático. E enquanto isto, assiste-se a um conjunto de impreparados, de governantes imberbes, de gente reles que governa e que se governa em total desrespeito pelos demais. Sempre os mercados, esquecendo-se que o País são as suas gentes.
"Ai aguentam, aguentam", disse o banqueiro, confortado com os milhões que lhe caiem na conta! Os outros que se lixem. Não me refiro, apenas, a esse infeliz, no fundo é um infeliz, refiro-me ao governo no seu todo, à permanente mentira, à descomunal insensibilidade, todos os dias enredados num labirinto de palavras que apenas mascaram a realidade e a verdade. São impostos sobre impostos, ou melhor, são impostores a aplicar impostos, gentinha vendida e mentirosa, aldrabona, que promete uma coisa e faz outra, gente que nega o direito à esperança de ser feliz, que condena à pobreza, à vida escrava, sempre, mas sempre, com a cenoura na ponta do chicote, como se alternativa não existisse. Ou é assim, ou será pior! Depois queixam-se que a extrema-direita avance e que necessário se torne, dizem, conjugar uniões para que esse avanço seja travado. É o que se está a passar, neste momento, em França, o país da Revolução, da "Liberté, Egalité, Fraternité"onde difícil é perceber o que são políticas de direita e de esquerda. Raios os partam todos, de Merkel a Durão Barroso, passando pela falsa esperança que foi Holland, até essa "chanel" Christine Lagarde. Tudo farinha do mesmo saco!
Apesar de, paulatinamente, estarem a ser retiradas todas as "armas" de luta, lembrem-se que, um dia, os pobres, não tendo nada a perder, vão se revoltar. Parece-me óbvio que tal venha a acontecer. 
Ilustração:  Google Imagens.

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