quarta-feira, 14 de maio de 2014

CURVADOS AO JEITO DO BAILE PESADO


Há personagens, não é que me revoltem, mas pelas quais acabo por sentir alguma pena. Se, em matéria de política, podemos ou devemos ter pena! Seja como for digito ao correr do pensamento. Tenho-me cruzado com muitas figuras. Umas por amizade nascida após Abril de 1974, outras que determinadas circunstâncias vieram a “corrigir” os seus azimutes políticos. Algumas diziam do PSD o que “Maomé não disse do toucinho”; outras, que consideraram que as convicções político-ideológicas não se coadunavam com as verdades primeiras. Destas últimas rigorosamente nada me opõe. Seguiram o seu trajecto, sem interesses e sem jogadas pré-idealizadas no tabuleiro do xadrez político. Do outro grupo são tantos aqueles que mandaram as convicções às malvas, silenciosamente e com mil e um cuidados foram mudando de cor e mudando a carapaça até ao momento de espreitarem uma oportunidade de algum poder por mais ínfimo que fosse. 


Não me refiro aos de meia tabela para baixo que, por necessidade ou porque, por exemplo, um familiar precisava de emprego e o cartão constituía um importante passaporte (houve tempos assim), subjugaram-se a esse aceno do “vem por aqui”, refiro-me aos outros, àqueles que não precisavam, nem do exercício da política nem dos favores, que inicialmente eram uma voz crítica independente ou situada no espaço da esquerda política, que zurziam forte e feio “no senhor governo” e nas trapaças que se adivinhavam, que por mim passavam e diziam entre outras coisas: “a luta continua”, que apregoavam princípios e valores sociais, que se mostravam intolerantes para com certos políticos, esses, sim, porventura acabo por ter pena. Venderam-se aos bocados como bem explicou Sttau Monteiro no capítulo “O homem vende-se”, no livro “Angústia para o Jantar”: "(...) O homem vende-se aos bocados, a prestações, dia a dia. Muitos, ao fim dum tempo, já nem sabem que estão a vender-se: atingem uma posição que os obriga a defender interesses contrários a tudo o que sempre sustentaram, e são comprados por essa posição (…)”.
Quando leio determinados artigos de opinião, quando os vejo na passerelle do poder ou por aí próximos, lutando pelo dinheirinho ou espreitando uma posição, sinceramente, sinto pena. Muita pena, vê-los rastejar ou simplesmente curvados ao jeito do baile pesado.
Ilustração: Google Imagens.

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