segunda-feira, 26 de maio de 2014

PÉROLAS POLÍTICAS


A pobreza e a exclusão social, sejam quais forem os meritórios objectivos da organização em causa, não se combatem com o futebol de rua. O futebol não combate a fome de muita coisa. Essa chaga combate-se com políticas educativas sérias, estabelecendo prioridades, através de uma escola de natureza inclusiva, centrada no aluno e não na burocracia que rodeia o aluno, com uma outra visão organizacional, curricular e programática capaz de eliminar o abandono e o insucesso, combate-se com políticas sociais integradoras a montante, com políticas de emprego que libertem as pessoas da pobreza e, simultaneamente, com uma outra atenção à cultura em sentido lato.


Foi notícia a realização de um Torneio Regional de Futebol de Rua, promovido pela Associação da Madeira de Desporto para Todos, pela Direcção Regional de Juventude e Desporto e pela Câmara Municipal do Funchal. Da conferência de imprensa de apresentação retive duas pérolas: primeiro, que a competição “promove a prática desportiva como estratégia inovadora de intervenção social, no combate à pobreza e exclusão”; segundo, as declarações do secretário regional da Educação e dos Recursos Humanos que foi muito mais longe: “(...) Esta manifestação desportiva é muito importante, no combate à pobreza, exclusão e marginalização. Por isso está de parabéns a organização, a quem lanço o desafio de não só pensar em trazer a fase final do Torneio Nacional de Futebol de Rua, como também em pensar na realização do Mundial na Madeira. O desafio é colocar a cidade do Funchal no centro das atenções, realçando as boas práticas que por aqui se vão fazendo e que muitas vezes não têm a visibilidade merecida”.
Ora, a pobreza e a exclusão social, sejam quais forem os meritórios objectivos da organização em causa, não se combatem com o futebol de rua. O futebol não combate a fome de muita coisa. Essa chaga combate-se com políticas educativas sérias, estabelecendo prioridades, através de uma escola de natureza inclusiva, centrada no aluno e não na burocracia que rodeia o aluno, com uma outra visão organizacional, curricular e programática capaz de eliminar o abandono e o insucesso, combate-se com políticas sociais integradoras a montante, com políticas de emprego que libertem as pessoas da pobreza e, simultaneamente, com uma outra atenção à cultura em sentido lato. Depois, senhor secretário do estado a que isto chegou, quando os cofres da Região estão no vermelho, quando o governo não cumpre a calendarização dos contratos-programa assumidos com o associativismo, quando pede um desconto sobre o que foi prometido, quando ressalva que a atribuição de subsídios está dependente da retirada de queixas na Justiça contra o governo (chantagem), quando não há dinheiro para subsidiar iniciativas com história, pergunto, como pode vir falar da internacionalização de uma competição? Patético! Deveria preocupar-se, primeiro, com tudo o que falta nas escolas, com o crescente desespero dos professores e com as enormes carências sociais. Começar por aí, convenhamos, é bem mais difícil.
NOTA: 
Artigo de opinião da minha autoria publicado na edição de hoje do DN-Madeira.
Ilustração: Google Imagens.

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