quarta-feira, 4 de junho de 2014

A CADEIA ALIMENTAR PARTIDÁRIA


O exercício da política começa a cansar-me. Olho em redor e questiono-me não apenas sobre as atitudes de quem governa, mas também sobre o que fazem algumas figuras de quem deveria partir o exemplo. Olho e identifico: os que não aprenderam com as experiências de vida, inclusive, políticas; os que fazem do exercício da política a sua profissão e não um serviço à comunidade; os que arregimentam votos que permitem alcandorar "amigos" de circunstância a posições de destaque; os que na "cadeia alimentar" partidária vendem a sua consciência a troco de qualquer coisita; os que funcionam como eminências pardas, que estão mas não estão, que trabalham longe e na sombra, que contactam, influenciam, tipo escoteiros "sempre alerta", mantendo a ilusão sebastiânica; os que alinham na lógica do "agora somos nós" e que se danem os outros; os que não têm sensibilidade para perceber que lhes falta cultura política, alicerçada no conhecimento da História, da Sociologia, da Economia, das Finanças, entre um vasto leque que deve constituir a base dos posicionamentos. Olho e apercebo-me da mentira todos os dias passada como verdade. Olho e leio, com desagrado, textos em jornais satíricos, que valem o que valem, mas que narram o basfond das ruelas e dos cordões umbilicais. Bom, dirá quem me lê que estou desencantado! Estou. Tantas vezes apetece-me fechar, definitivamente, este blogue ou a página do facebook, porque aprendi que o Homem não tem sentidos, apenas é sensível.  E eu sou sensível ao que vejo por aí de poderes com pés de barro, de gente que não consegue perceber que lhes falta competência política e idoneidade social e que, por isso mesmo, deveriam perceber que uma coisa é sentar-se em uma qualquer cadeira, outra, ser reconhecida para um dado desempenho. É o egoismo a prevalecer que atravessa desde aqueles que nunca fizeram outra coisa se não exercer o poder, até aos aspirantes a tais funções.

Por si e pelos outros...

E assim os vejo em jogos de poder, tentando afastar quem eles pensam fazer-lhes sombra, reunidos segundo os seus interesses, conhecedores das cartas dos outros, mas jogando tudo por uma liderança, fragmentando o seu próprio partido, numa luta pela sobrevivência que ultrapassa o quadro político. Uns, habituados à grandeza do "negócio político", outros, que se contentam com as migalhas caídas do grande banquete das misérias políticas. Uns mostrando-se sempre esfaimados por mais e mais; outros, contentando-se, apenas, com um lugar atrás de uma pequena mesa e de uma cadeira. Ficam-se por aí, esquecendo-se que o objecto da acção política está muito para além de meia-dúzia de palavras ditas no parlamento, em encontros, jantares ou em comícios de circunstância. Arrastam-se na vida e acabam de infernizar a vida dos outros que olham e acabam por se sentir em um labirinto de interesses e no meio de um ninho de vespas. 
Apesar disso, apesar deste desencanto múltiplo, que provém de análises e sínteses ao que se passa nos grandes areópagos do debate político internacional, à constante mentira vendida como verdade nacional, até à política caseira, julgo que continuará a valer a pena meter o pauzinho nas engrenagens, pela via da denúncia ou pela via da análise no quadro de mais uma opinião a juntar a tantas outras. Lamento que a humildade ande distante, que a febre de um poderzito qualquer cegue ao ponto de a todos prejudicar por um mero capricho ou ambição pessoal. Tal como no "Lago dos Tubarões":  i'm out! 
Ilustração: Google Imagens.
NOTA
Em Abril de 2013 deixei aqui um texto sobre o que Galbraith diz sobre o poder. "O poder cumpre, há séculos, uma regra de três instrumentos: "o poder condigno, o poder compensatório e o poder condicionado". O primeiro refere-se à capacidade de "impor às preferências do indivíduo ou do grupo, uma alternativa suficientemente desagradável ou dolorosa para o levar a abandonar essas suas preferências" (...) " o poder condigno obtém a submissão, infligindo ou ameaçando consequências adequadamente adversas"; o poder compensatório, em contraste, conquista a submissão oferecendo uma recompensa positiva, proporcionando algo de valor ao individuo que assim se submete" (...) na economia moderna a mais importante expressão do poder compensatório é sem dúvida a recompensa pecuniária" (...), isto é, "a submissão aos objectivos económicos ou pessoais dos outros". Finalmente, o poder condicionado "é exercido mediante a convicção e uma crença" (...) a persuasão, a educação ou o compromisso social com o que parece natural, apropriado ou correcto, leva o indivíduo a submeter-se à vontade alheia" (...) a submissão reflecte o rumo preferido" pelo que "a submissão não é reconhecida".

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