quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A CRÍTICA E O ELOGIO


Ainda bem que o DIÁRIO nos possibilita desencontros de opinião tão evidentes. Estou, obviamente, com Donato Macedo e muito distante de Carlos Gonçalves. Porque o primeiro toca nas feridas e o segundo manda-nos, inclusive, ter "gratidão". Pergunto, Dr. Carlos Gonçalves, "gratidão" a quem e porquê? Ao governo PSD, especificamente ao presidente do governo regional da Madeira? Que fez tal figura pelos madeirenses e porto-santenses? Gratidão por uma dívida superior a 6.3 mil milhões de Euros, impagável no futuro, mas que, neste momento, conduz-nos a suportar uma dupla austeridade? Gratidão pela perda de Autonomia? Gratidão pelas taxas de desemprego e pela emigração forçada? Gratidão por uma Escola onde de tudo falta, até o raio do papel higiénico? Gratidão por um sistema de saúde em colapso, eu diria falido? Gratidão por deixar uma população distante do entendimento dos valores culturais? Gratidão por permitir que certos senhores possam ficar a dever muitos milhões à Segurança Social? Gratidão pelo medo instalado na sociedade? Gratidão pela governamentalização da Assembleia Legislativa da Madeira? Gratidão pela vergonha que é o Jornal da Madeira? Gratidão pelos substanciais subsídios ao futebol profissional em detrimento das áreas de investimento prioritário? Gratidão por termos mais instituições de solidariedade social do que freguesias? Gratidão por estarem insolventes cerca de 90% das empresas do Porto Santo? Gratidão por terem apenas pensado na eleição seguinte e não na geração seguinte?

Ontem li dois artigos de opinião opostos, na mesma página do DN-Madeira. Transcrevo praticamente o mesmo número de caracteres iniciais:

Dr. Carlos Gonçalves:
"No início de mais um ano letivo, apelamos à comunidade educativa (pais e encarregados de educação, professores e funcionários) que depois das merecidas férias, venham revigorados e preparados para mais um ano de trabalho intenso na educação das futuras gerações. Sabemos, por experiência própria, que o ser humano é, em geral (e o madeirense não foge à regra), pouco dado a gratidões. É sempre mais fácil criticar do que elogiar, mas os tempos são de mudança e a mais importante será sempre a das mentalidades. Se queremos construir uma sociedade mais feliz, temos todos que contribuir para tal. Cada um de nós, no posto de trabalho, na família, com os vizinhos, os amigos e assim estaremos a criar uma “cadeia” de boas energias que nos levará a uma verdadeira felicidade. Troquemos o egoísmo pela gratidão, a crítica pelo elogio, a acusação pela desculpa. (...)"

Dr. Donato Macedo:



"Setembro é mês de novas despesas escolares e de filas de professores nos centros de emprego. Este é o país que impõe agora, que o peso da mochila às costas dos petizes, não possa exceder 10% do peso do aluno, mas que permite que o estômago de cada vez mais alunos chegue vazio à escola, onde muitos lá conhecem, a única refeição quente do dia. O governo da república agregou mais um “chumbo” à longa lista que colecciona de violações à Lei Fundamental. O esbulho dos pensionistas chamado “Contribuição de Sustentabilidade” foi justamente barrado. Quantos pensionistas ajudam filhos e netos neste período, sendo o pilar financeiro e de acolhimento de jovens familiares, dizimados pela precariedade e pelo desemprego (...)".

O primeiro disserta sobre um regresso à escola e ao "trabalho intenso"; o segundo, questiona esse trabalho intenso com "estômagos vazios". Carlos Gonçalves fala de "gratidões"; Donato Macedo de "violações à lei Fundamental". O primeiro pede que se troque o "egoísmo pela gratidão, a crítica pelo elogio"; o segundo alerta para o desconforto dos "jovens familiares dizimados pela precariedade e pelo desemprego". E por aí fora. Fico, apenas, pelas primeiras linhas das opiniões em causa.
Ainda bem que o DIÁRIO nos possibilita desencontros de opinião tão evidentes. Estou, obviamente, com Donato Macedo e muito distante de Carlos Gonçalves. Porque Donato Macedo toca nas feridas e porque Carlos Gonçalves manda-nos, inclusive, ter "gratidão". Pergunto, Dr. Carlos Gonçalves, "gratidão" a quem e porquê? Ao governo PSD, especificamente ao presidente do governo regional da Madeira? Que fez tal figura política pelos madeirenses e porto-santenses? Gratidão por uma dívida superior a 6.3 mil milhões de Euros, impagável no futuro, mas que, neste momento, nos conduz a suportar uma dupla austeridade? Gratidão pela perda de Autonomia? Gratidão pelas taxas de desemprego e pela emigração forçada? Gratidão por uma Escola onde de tudo falta, até o raio do papel higiénico? Gratidão por um sistema de saúde em colapso, eu diria falido? Gratidão por deixar uma população distante do entendimento dos valores culturais? Gratidão por permitir que certos senhores possam ficar a dever muitos milhões à Segurança Social? Gratidão pelo medo instalado na sociedade? Gratidão pela governamentalização da Assembleia Legislativa da Madeira, instituição que nada fiscaliza? Gratidão por termos uma vergonha que se chama Jornal da Madeira? Gratidão pelos substanciais subsídios ao futebol profissional em detrimento das áreas de investimento prioritário? Gratidão por termos mais instituições de solidariedade social do que freguesias? Gratidão por estarem insolventes cerca de 90% das empresas do Porto Santo? Gratidão por terem apenas pensado na eleição seguinte e não na geração seguinte? 
Para além do mais, ao Povo não se lhe pode pedir gratidão pelos governos ou por lá quem for. Os governos e todas as restantes instituições sob sua tutela são eleitos para servirem a comunidade e não para se servirem. Têm um prazo de validade de quatro anos. Os lugares, sejam eles quais forem, não são vitalícios. Da minha parte, saiba Dr. Carlos Gonçalves, nunca trocarei "a crítica pelo elogio", enquanto estivermos sob a orientação de pessoas sem um mínimo de credibilidade política. E por aqui fico embora muito fique por dizer!
Ilustração: Google Imagens.

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